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Banda Cabaçal dos Irmãos Aniceto comemora 200 anos

Festejos pelos dois séculos de existência do grupo musical contará com extensa programação cultural

00:00 · 24.05.2015
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Terreirada marcará festa de um dos grupos musicais mais antigos do País ( fotos: elizângela santos )
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A Secretaria de Cultura estará realizando as homenagens, destacando a singularidade da manifestação artística dos Aniceto

Crato. Dois séculos de uma tradição que resiste ao tempo e a quatro gerações, descendentes dos índios kariri. A Banda Cabaçal dos Irmãos Aniceto comemora 200 anos de resistência, com todo vigor das gerações que já passaram pela formação do grupo. A festa de aniversário contará com o bolo do parabéns e grupos de tradição numa terreirada de frente à casa de mestre Raimundo Aniceto, com 82 anos e ativo na banda, no próximo domingo, em Crato. Em 12 de janeiro, o mais antigo integrante do grupo, o Mestre Raimundo Aniceto, o primeiro pife da banda, faleceu, mas as gerações vão dando sequência ao legado.

Junto com as comemorações de aniversário, que serão iniciadas a partir das 14 horas, na rua Manoel Macedo, no Seminário, haverá o lançamento do livro 'Banda Cabaçal dos Irmãos Aniceto: Memórias e Afetos', que reúne vários artigos de pessoas que têm de alguma forma uma relação com o grupo, e um acervo fotográfico para fazer um registro da data. Também será descerrada uma placa em homenagem aos integrantes da banda, como patrimônio imaterial.

Cabaças

Todos os anos o grupo comemora o aniversário no último domingo de maio. Para o mestre Raimundo Aniceto esse é um momento diferente. Ele lembra dos seus ancestrais, desde o avô que fundou a bandinha, até o seu pai, José Lourenço da Silva, um índio kariri que trouxe consigo as cabaças e também a alcunha de Aniceto.

E a alegria do grupo veio se espalhando pelo mundo. Eram dez filhos de Zé Aniceto, seis deles homens, que passaram a integrar a banda. O mais velho, Francisco, liderou o grupo por décadas. Depois veio João, Luiz, Antônio, que se foi recentemente. Agora está o mestre Raimundo, que carrega consigo a responsabilidade de preparar os outros integrantes.

De segundo pife à linha de frente. Para ele, uma tarefa difícil ter que substituir o mestre Antônio, primeiro pifeiro do Brasil, considerado um rei desse instrumento, na sua missão junto ao grupo. A dança e a música dos Aniceto têm como raiz os primeiros habitantes do Cariri e se traduz na formação ancestral do povo da região. Para a secretária de Cultura do Crato, Dane de Jade, é uma característica única e diferenciada dos outros grupos do Brasil. O uso da cabaça e a própria dança são identidades peculiares dos grupos da região, segundo ela.

A Secretaria de Cultura do Crato estará realizando as homenagens ao mesmo tempo em que irá encaminhar projeto para o reconhecimento, por meio de decreto, dos irmãos Aniceto como patrimônio imaterial, no município. Ela ainda afirma que a data de aniversário vem sendo marcada pelo próprio grupo, que entra para a sua quarta formação. O mestre Antônio deu lugar a um dos seus filhos, Ciço, que além de tocar pife, dá o tom no tarol e no zabumba.

Perda

O sentimento ainda é forte com a perda de um dos grandes líderes que passou pelo grupo, deixando uma marca de alegria e resistência pela preservação da cultura. O mestre Raimundo Aniceto traduz o mesmo pensamento do seu irmão, quanto à permanência da tradição. "A família não é grande, mas é comprida.

O grupo só termina se o mundo acabar de uma vez só", brinca mestre Raimundo. E ele está seguro quanto a isso. Entre primos e irmãos, o grupo está formado e ainda há a bandinha mirim.

A terreirada, desde o mestre Elói Teles, conforme Dane de Jade, permanece. Ela destaca a importância desse momento de interação dos mestres dos grupos com a própria comunidade. Com isso, ressalta a importância de fortalecer essas ações no município do Crato.

O diferencial da banda, que se destaca no Cariri é que já gravou quatro discos, um deles com a Orquestra Eleazar de Carvalho, e o último com o cantor Calé Alencar, que está no resgate da ancestralidade. Para Dane de Jade, isso faz com que a história passe por uma sequência desde o aldeamento indígena e se mantem dentro de uma estrutura familiar ordenada.

A dança que veio dos índios em seus primeiros passos foi repassada pelo mestre Zé Aniceto. E foi ele que, aos cem anos, ainda fez apresentações durante uma das reinaugurações do Theatro José de Alencar e seguiu com a banda para o Rio Grande do Sul, no mesmo período, para realizar shows. "Era lúcido e ainda brincava", afirma mestre Raimundo. Com o pai aprendeu danças como o Corta Tesoura, Pula Cobra, Trancelim, e depois vieram passos como Amassa Barro, retirada do trabalho de construção das casas de taipa.

Mestre Raimundo diz que a banda tem a missão de levar a alegria e também de fazer o grupo feliz. Do batizado, renovação, festas de aniversário, e velórios, os integrantes levam a missão de saudar o divino e incorporar o ritmo da música, com o som inspirado na natureza.

Já percorreu diversos estados do Brasil, com apresentações em Crato e Portugal. E o grupo segue a sina adiante. Para o mais experiente do grupo, o pessoal já está no jeito. E pensar em se acabar a tradição, o nunca vem sem titubear na voz do mestre. "Se isso acontecer, é porque o mundo vai junto", finaliza.

Mais informações:

Banca Cabaçal dos Irmãos Aniceto
Rua Manoel Macedo, 301
Bairro Seminário
Crato
Telefone: (88) 3523.2365

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