cultura

Artista Telma Saraiva é tema de documentário

Obra trata do talento e da personalidade de uma das maiores referências das artes plásticas

00:00 · 31.05.2015
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O roteiro e a direção são da designer Adriana Botelho ( FOTO: ALLAN BASTOS )
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A trajetória da pintora terá a contribuição de depoimentos de personalidades, especialmente estudiosos e pesquisadores, além de admiradores de seu trabalho

Crato. A fotopintura entra em destaque. Dessa vez em forma de documentário para levar às telas, Telma Saraiva, um ícone das artes visuais, e uma das únicas profissionais da fotopintura do Nordeste que já teve seu trabalho em destaque em exposições por vários estados. Em seu trabalho, ela reuniu ao mesmo tempo o talento para a fotografia e a pintura, marcando época e registrando de forma marcante um trabalho diferenciado.

A designer Adriano Botelho, está realizando a direção do trabalho e desenvolvendo o roteiro. A meta é iniciar as filmagens ainda em julho deste ano. O filme sobre Telma Saraiva trará o processo de criação dos seus trabalhos, por meio da fotopintura, com "Um Cenário para Telma Saraiva".

Os personagens que foram retratados pela fotopintora estão sendo procurados pelo grupo que se propõe a reunir em vídeo, com depoimentos de estudiosos e pesquisadores, além de admiradores do trabalho de dona Telma, uma parte considerável da história da fotografia, construída pela filha de um dos primeiros fotógrafos do Crato. Júlio Saraiva foi o seu pai. Era também esposa de fotógrafo, mas somente aos 16 anos despertou para a fotopintura. Fascinada pelas estrelas de cinema dos anos 40, 50 e 60, desenvolveu diversos auto retratos inspirados em atrizes, a exemplo de Marilyn Monroe.

Protagonismo

Para Adriana, não se trata apenas de resgatar a memória de uma fotógrafa, mas da própria trajetória da fotografia não apenas no Cariri, mas no Nordeste, e Telma Saraiva assume um lugar de protagonismo, por lançar mão de um trabalho onde havia a prevalência de homens. O documentário conta com o apoio da Secretaria Municipal de Cultura do Crato.

Atualmente, até pela idade mais avançada, aos 83 anos, e o uso intenso das tintas, está afastada desse trabalho, mas a sua casa já foi um dos lugares que inspirou paisagens e cenários. Marcou momentos de formaturas e casamentos. As faces recebiam brilhos e cores especiais. Era um cuidado que seguia desde os conselhos do pai de que as pessoas gostavam de ficar bonitas nas fotos.

O projeto para realização do documentário foi aprovado por meio de edital e a designer vem buscando junto à família da fotopintora a possibilidade de acesso aos seus trabalhos, depoimentos da própria profissional e das pessoas mais próximas. Foram décadas desenvolvendo a atividade da fotopintura, hoje uma profissão praticamente extinta.

De acordo com Adriana Botelho, esse é um momento de grande relevância para destacar a arte moderna desenvolvida por Telma Saraiva na região do Cariri, em pleno sertão cearense, e também um importante resgate para as artes visuais. Será um acompanhamento passo a passo da sua arte. "Pessoas que foram retratadas por ela podem dar depoimentos importantes", destaca. Ela também relaciona a memória afetiva envolvida nessas imagens.

Nomes da região, a exemplo do médico e escritor José Flávio, segundo Adriana, estão dando uma contribuição importante para o trabalho, além de Kaika, na produção, o fotógrafo Allan Bastos, e o artista plástico Franklin Lacerda, entre outras pessoas, que já desenvolveram pesquisas relacionadas ao trabalho de dona Telma.

A trajetória qualificada de Telma Saraiva a conduz a um patamar das melhores fotopintoras do Ceará. "Conseguiu desenvolver um estilo, inspirada na fotografia romântica e clássica", afirma. Para Adriana, ela fez uma arquitetura humana. Os retratados em sua maioria eram pessoas da classe média da cidade ou da elite cratense.

O fotógrafo Allan Bastos, na tentativa de registrar a história da fotografia do Crato, chegou a um capítulo mais que especial quando conheceu dona Telma. Ele afirma que o mundo da fotografia dela se divide entre a sua casa, com o estúdio de trabalho, e o outro as paredes que mostram os quadros, resultados de uma mistura de inspiração, com uma técnica minuciosa. Em casa, dona Tela recebia as pessoas para fazer os seus retratos.

O filme, segundo o fotógrafo, vai poder envolver pessoas que foram fotografadas por ela, criando novos ambientes para o seus auto retratos. São fotos que levaram Telma para o mundo. "As paredes do Cariri revelam o mundo de quem passou pela sua lente. Vigoroso e dominante, é assim que percebo o seu trabalho com a fotopintura", avalia. Os quadros em preto e branco receberam a cor, o mais próximo possível do real. Para Allan, relembrar o tom da pele com misturas das tintas era uma dos fatores importantes, sendo considerado algo sublime e a forma mais importante para estabelecer um vínculo com o fotografado. Em várias oportunidades o fotógrafo teve a chance de ouvir da profissional o momento em que envolvia os seus fotografados. Segundo ele, isso acontecia por meio da conversa, da empatia, para com um movimento apenas haver o registro da emoção.

A outra etapa de trabalho seria no laboratório, na revelação dos negativos, na ampliação da foto para depois as cores serem trabalhadas conforme o momento da imagem captada. Allan considera esse trabalho desenvolvido por Telma Saraiva possivelmente pioneiro no Brasil.

Em 2006, teve a oportunidade de fotografar dona Telma para a capa da Revista Plural. Para isso, comprou uma câmera de médio formato só para fazer o registro. "Minha câmera só fotografou Telma e depois eu guardei e não usei mais. Algo ficou ali", diz. 

Elizângela Santos
Colaboradora

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