Cultura popular

Arte sacra muda destino e ofício de tatuador juazeirense

Com o uso da madeira, Panta esculpe santos católicos e imagens icônicas da tradição cultural e religiosa

00:00 · 07.02.2016 por André Costa - Colaborador
s
Além do talhe, ele também finaliza o processo de criação das imagens com a pintura ( Fotos: André Costa )
Image-0-Artigo-2011797-1
O uso da madeira é fundamental na elaboração de suas esculturas. Entre seus trabalhos, destacam-se as estátuas de figuras emblemáticas, como Luiz Gonzaga, o "Rei do Baião", Lampião e, claro, o 'Padim Cícero'

Juazeiro do Norte. O Cariri tem-se destacado como uma das regiões mais prósperas do Estado. Além do polo econômico em constante ascensão e da forte religiosidade, característica emanada da figura do patriarca juazeirense, Padre Cícero Romão Batista, a cultura popular também se destaca, atraindo olhares e despertando interesse de outras regiões.

Diversas manifestações artísticas como, por exemplo, a escultura em madeira, resistem ao tempo e às transformações que acontecem com o advento das novas tecnologias. Cícero Evânio, 24, o "Panta", é um exemplo de que a nova geração se preocupa em manter vivo esse legado cultural que tem levado, há décadas, o nome do Cariri para diversas regiões do Brasil e do mundo, por meio de artistas já consagrados, como Mestre Noza, Manoel Graciano e Nino.

Há sete anos, Panta dedicava seu tempo à atividade de tatuador, profissão com a qual tem bastante afinidade. Desde a infância esteve ligado às artes, desenvolvendo pinturas e desenhos à mão. No entanto, em 2013, ao conhecer o Centro de Cultura Popular Mestre Noza, local onde funciona a Associação dos Artesãos de Juazeiro do Norte desde 1985, se encantou com as milhares de obras lá expostas e decidiu aventurar-se no ofício de artesão.

Adaptação

Panta lembra que no início da nova atividade, devido à falta de experiência, enfrentou dificuldades. Entretanto, com o apoio de outros artesãos mais versados, as primeiras obras começaram a ser talhadas diante da madeira bruta e sem forma.

"Comecei por meio de uma vontade que já tinha de trabalhar com esse tipo de arte e, ao chegar ao Centro de Cultura, tive essa oportunidade de trabalhar com a madeira. Passei primeiro pela fase de aprendizado, já que as máquinas e ferramentas são bem diferentes das utilizados para tatuar", conta o artista caririense.

Entre os 80 artesãos que trabalham na Associação, um despertou a admiração do jovem iniciante. Francisco Sebastião Ferreira de Lima, o Gilberto. Ele é um dos pioneiros e, segundo Panta, seu maior exemplo. "A experiência do Gil é imensa. Ele tem muito conhecimento e técnica. De certa forma, ao trabalhar ao lado dele, mesmo que eu não pergunte nada, as respostas vêm gratuitas. Tive sorte em ter um professor como ele", acrescenta o artista.

Ícones

Embora, na Associação, cada artista siga uma linha estética específica, Panta perpassou diversos perfis desde a sua chegada. Entre seus trabalhos, destacam-se as estátuas de figuras emblemáticas, como Luiz Gonzaga, o "Rei do Baião"; Lampião; e, claro, o "Padim Cícero". No entanto, é a arte sacra que o conquistou. Ele decidiu se especializar na confecção e pintura de peças religiosas, como São Francisco, Nossa Senhora da Conceição, São Jerônimo e outros.

"A escultura foi algo que veio bem depois, eu nem imaginava que um dia seria escultor. Mas, quando vi que tinha certa facilidade de aprender a esculpir, fui me apaixonando cada vez mais e hoje em dia ainda estamos em lua-de-mel", brinca.

Além de esculpir as peças, ele também finaliza o processo de criação com a pintura, especialidade que desenvolveu em uma viagem a Salvador, na Bahia. Segundo ele, essa parte é a que mais gosta de fazer. Para Panta, desenvolver esse tipo de trabalho artístico é, "motivo de orgulho, pois, além de realização pessoal, é também uma forma de se comunicar com outras culturas do País e até do exterior", finaliza o artesão.

O próximo desafio do artista é produzir uma estátua de Cristo em tamanho real. Há três anos e meio esculpindo, o artista já teve peças vendidas para clientes de Estados como São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais.

O Centro de Cultura Popular Mestre Noza foi criado em homenagem ao pernambucano Inocêncio Medeiros da Costa, conhecido popularmente como Mestre Noza.

O artista é considerado o primeiro artesão do Cariri. O Centro foi inicialmente planejado em 1982 e inaugurado em junho de 1985 a partir do Encontro de Produção de Artesanato Popular e Identidade Cultural, uma iniciativa do Instituto Nacional de Folclore (INF) do Ceará e promovido pela Fundação Nacional de Arte (Funarte).

Atualmente existem mais de 40 mil peças expostas. Há 80 artesãos cadastrados, que comercializam para todas as regiões do Brasil, além de países de diferentes continentes.

Mais informações:

Centro de Cultura Popular Mestre Noza
Rua São Luis, 96, Centro
Juazeiro do Norte
Telefone: (88) 3511-3133

© Todos os direitos reservados. O conteúdo não pode ser publicado, reescrito ou redistribuído sem prévia autorização. Passível ação judicial.