7 de setembro

Desfile repleto de histórias

O Auto aceitou o convite e foi conferir os bastidores do desfile militar repleto de carros e pessoas históricas

Fotos: Kid Júnior/Camila Marcelo
00:00 · 11.09.2017 por Camila Marcelo - Repórter
Estreando no desfile e cheio de ansiedade, estava o colecionador Sérgio Macedo, com o seu Jeep Mutt M151 de 1967 todo original

O desfile cívico-militar fez com que doze colecionadores colocassem a sua viatura para rodar. Devagar, saíram bem cedo de casa e fizeram a concentração na rua Osvaldo Cruz, bem antes do início do evento, às 9h. Combinando com os veículos, todos estavam em vestimentas camufladas e transbordando em ansiedade. Um deles era o médico Sérgio Macedo, que fez questão de estar todo paramentado, inclusive com um cinto de utilidades, com direito a cantil na cintura. A bordo da recente aquisição, um raro Jeep Mutt M151 de 1967, fez a sua estreia no Dia da Independência.

Dentre suas características, o modelo tem suspensão independente nas quatro rodas, o motor tem cabos de vela blindados, a tomada de ar e o escapamento são altos, tendo alta capacidade de imersão. "O motor é de quatro cilindros, não muito potente, 95 cv, mas ele não era para corrida, era para transporte na Guerra do Vietnã e tem a tecnologia da época. Ele é completamente original. Ele não tem nenhum acessório que não seja original. O santo antonio ainda está forrado com esponja e plástico camuflado da época. Isso nunca foi trocado", detalha.

Memória viva

Na hora do desfile, ao lado do Sérgio estava o tenente Cícero David de Ouro Preto. No percurso, a sua viatura, assim como os outros veículos históricos que seguiam na dianteira, foram coadjuvantes diante de seus ocupantes: os ex-combatentes da Força Expedicionária Brasileira (FEB), os quais estiveram presentes na Segunda Guerra Mundial.

"Eu Servi no 29 BC, Batalhão de Caçador, embarquei para o Rio de Janeiro no Contingente Expedicionário, de lá fui para Nápoles em um navio americano", lembra. Só passaram um dia, o suficiente para apenas se armarem.

No outro dia seguiram de navio para Livorno, desembarcaram e foram para Porta Capuana. "Lá onde recebemos as primeiras instruções de combate. Ninguém dormia porque o instrutor dizia que era para se acostumar porque lá na frente não dorme, se dormir, morre", acrescenta.

A priori, pensei que a emoção viria quando eu fosse percorrer a Beira Mar a bordo do Dodge Pata Choca 1942. Enganei-me, veio muito antes, logo na concentração, quando escutei além desse depoimento, outros mais dos febianos presentes. Um deles foi o major José Maria Veras. Aos 93 anos, relembra com detalhes a sua chegada à Itália.

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"Eu embarquei com a idade de 20 anos. Como eu tenho as feições jovens, os italianos me chamavam de 'bambino', que significa criança, e eles diziam 'esse bambino veio para guerra'. Para mim, era uma glória, uma gratificação estar na Itália e defender a democracia e a liberdade", destaca.

A história estava vívida também na memória do veterano Raimundo Nonato Ximenes, o qual faz questão de estar todo ano presente no desfile da Independência. "Pouca gente sabe, lamentavelmente, o que o Brasil fez na Segunda Guerra. O Brasil que fez o maior número de prisioneiros, venceu várias batalhas e Fortaleza tem dois bairros que comemoram, memorizam duas batalhas que o Brasil fez: a de Monte Castelo foi em fevereiro de 1945 e a do Montese foi em abril de 1945", pontua. "Nós temos o cuidado de não deixar esquecerem esse heroísmo dos brasileiros feito na Segunda Guerra", completa.

No caminho

Além dos ex-combatentes e os colecionadores, as viaturas levavam também familiares dos febianos. Ao lado deles, eu estava lá, com direito a vestimenta camuflada também. Por fora, parecia patriota, no entanto o sentimento faltava, havia sido perdido ao longo das últimas crises do País. Porém, surpreendentemente ele foi resgatado. Uma faísca de esperança apareceu após a conversa com cada um dos febianos e, novamente, sem perceber, uma nova fé ressurgiu em mim pelo Brasil. Assim como os colecionadores, senti orgulho de seguir no comboio militar junto aos veteranos. Ao avistar o entorno da Beira Mar lotado, cerca de 40 mil pessoas estiveram lá na manhã da última quinta-feira, a crença encheu a alma e vi que não estou sozinha nessa. Pelo menos não nesse dia. Raimundo Ximenez talvez não saiba, porém mais do que lembrar a todos nós do heroísmo brasileiro, fez com que acreditássemos que possa existir ainda outros heróis no País.

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