Mais de 30 anos de dedicação às raridades da Harley

Conheça a história de um colecionador louco por Harley. Já são seis na coleção e muita bagagem a compartilhar

Ao adentrar o consultório médico de Sérgio Macedo, nada precisa ser dito para reconhecer sua paixão nada oculta pela Harley-Davidson. Expõe na clínica das miniaturas do motor e da moto ao mousepad e canetas com a logo da marca. Explorando um pouco mais, ao abrir o armário encontramos catálogos para auxiliar na restauração das motocicletas. Isso é um vasto acervo só no trabalho, levando os pacientes a imaginar como é na casa dele. Porém, mal sabem que ao lado da sala encontra-se um oficina completa, com direito a várias ferramentas padrão internacional e nacional e peças de reposição, além de seis raridades em duas rodas.

Sim, Sérgio construiu um pedacinho do céu para ele a fim de presenciar e também participar ativamente no renascimento de cada uma das motos. "Às vezes passo sábado todo aqui, saio só para almoçar. Eu volto com as unhas negras de graxa, no entanto com a alma limpa de tranquilidade", destaca.

Caixa de marcha e motor deixa para um profissional, que recebe em sua própria oficina, nos outros quesitos insiste em pôr a mão na massa. Atualmente, está restaurando ao mesmo tempo quatro modelos. E um deles tem se mostrado um desafio: a rabo duro Flathead 1937.

O motor veio destruído, inclusive teve de cozinhar suas peças em óleo para retirar um pistão. Por ora, está só o chassi, porém não está desanimado com o possível longo processo. "Veio sem para-lama dianteiro e com guidão tipo de velocípede. Ela é a mais complexa, mas não causa desprazer, porque o mercado americano tem tudo que a gente precisa da Harley", pontua.

Por acaso

Ser colecionador não foi planejado. Segundo Sérgio, as oportunidades foram aparecendo e ele foi agarrando, como as motos do Exército Brasileiro, compradas em um leilão, com chassis sequenciados, tornando-as mais valiosas à coleção. O projeto é ficar uma na forma comprada, só cromando o chassi, para uma repaginada. Já a outra será remilitarizada, resgatando a coloração branca de origem, as luzes dos faróis serão uma vermelha e outra azul e, fechando, haverá de novidade: guidão, sirene e lâmpada com alarme na traseira.

"Depois dessas duas, veio a emblemática de 1951, ano pós-guerra", fala a cerca da Hydra Glide rabo duro com o propulsor Panhead. Ela já está pronta, faltando só cromar.

Completando, tem a Harley AMF 125 de 1976. Foi preciso um ano para restaurar, pouco diante da dificuldade em encontrar as peças somente com proprietários. Nenhuma loja e fabricantes vendiam.

Não se pode esquecer da que deu origem ao acervo: a Electra Glide Classic de 1977, com mais de 30 anos em suas mãos. "Ela é uma paixão eterna, foi amor a primeira vista", ressalta. Com motor Shovelhead, tudo nela é original, inclusive o banco - mesmo com pequeno rasgo - vai permanecer por ser da época. "Os carburadores são os indicados, o óleo, o mix de cor de vermelho com prata é dela", acrescenta.

E com só 10 anos de fabricação, a caçula da família ainda não entrou no hall da coleção. No dia a dia, a Harley que usa para rodar é a Fat Boy 1600 de 2008, com menos de 3000 quilômetros no hodômetro. "Esta aqui jamais será vendida, alguém que faça depois, eu não vendo", enfatiza.

Origem

Apesar do afeto pela Harley, o contato com as duas rodas começou com outra marca. Primeiro, com o desejo ainda adolescente de comprar uma Leonete. Depois, veio a Indian.

"Quando eu ia para o Cine Ventura, na Barão de Studart, era em frente a oficina do Armando Barbosa Lima, onde é agora uma revenda de carros. E lá tinha uma Indian, linda, parada. Um dia tive coragem de perguntar se me venderia, e ele vendeu", relembra.

Depois que se formou, vendeu e comprou acessórios para o seu Fusca. Até hoje, esse é seu maior arrependimento, já há mais de 40 anos. "Que não escutem em casa, mas eu penso na Indian 1948. Linda. Até os seus punhos eram originais em osso", menciona. Por isso, que ela está na relação de futuras aquisições. Ao lado dela, outra Harley. "Eu tenho, desde sempre, uma atração especial pelo motor Knucklehead, que é das motos de 1947. Ainda preciso ter uma delas para minha coleção ficar perfeita. Estou na caça", salienta.

Enquanto essas duas ficam só no campo das ideias, Sérgio segue lavando a alma na oficina e fazendo ainda mais planos para completar a Rota 66.

Renovado

"Às vezes passo o sábado todo aqui. Volto com as unhas negras de graxa, mas com a alma limpa de tranquilidade"

Sérgio Macedo
Médico e colecionador