Terror em Fortaleza

Chacina no Benfica deixa pelo menos 7 mortos e 4 feridos sendo dois em estado grave

Três pontos do bairro foram palco dos crimes. Uma das ações ocorreu próximo à sede de uma torcida uniformizada. Assistente social do IJF chamou familiares ao hospital

Na Praça da Gentilândia, o cenário era de guerra: três homens morreram ( Fotos: Kleber A. Gonçalves )
01:00 · 10.03.2018 / atualizado às 13:00 por Cadu Freitas - Repórter
Familiares foram chamados ao IJF. Dos 4 feridos, dois estão em estado grave ( Foto: Cid Barbosa )

Atualizada às 10h28

Pelo menos sete pessoas foram mortas em uma chacina no Bairro Benfica, em Fortaleza, no fim da noite de ontem (9); outras quatro foram levadas ao Instituto José Frota (IJF) após serem baleadas. Os homicídios ocorreram em três locais diferentes do bairro: na Praça da Gentilândia, na Vila Demétrio e na Rua Joaquim Magalhães, quase esquina com a Rua Major Facundo. Segundo informações obtidas com alguns familiares que já estão no IJF, das quatro pessoas internadas no hospital, provenientes da chacina, duas estão em estado grave, na sala de reanimação. A assistente social do hospital mandou chamar as famílias. 

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Na Praça da Gentilândia, o cenário era de guerra: garrafas, copos e chinelas espalhados e quebrados ao chão. No local, três homens foram assassinados; segundo algumas testemunhas que estavam no momento do atentado, os homens atiraram a esmo. O nome de um deles foi confirmado: José Gilmar de Oliveira Júnior, de 33 anos, era cabeleireiro e frequentador assíduo da região; outra vítima, segundo frequentadores dos bares do local, vendia bombons e cigarros nos arredores da praça.

Confira abaixo os locais dos ataques:

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Além deles, uma mulher e um homem foram baleados e levados por técnicos do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) em estado grave. Segundo relatos preliminares, a mulher era garçonete de um dos bares da Gentilândia. De acordo com o inspetor Isaque, do 34º Distrito Policial, três pessoas com pistolas calibres Ponto 40 e 380 chegaram atirando, contudo, a investigação aponta para alvos específicos, pois a quantidade de pessoas no local era muito grande.

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Na Vila Demétrio, próximo a uma das sedes da Torcida Uniformizada do Fortaleza (TUF) um grupo de amigos foi atacado. Um homem que usava a camisa do Tricolor foi morto no local. Outras três pessoas foram socorridas para o IJF, mas duas delas morreram. Emilson Bandeira de Melo Júnior, 27, e Adenilton da Silva Ferreira, 24, não resistiram aos ferimentos. De acordo com a Polícia Militar, as duas vítimas estavam na Vila quando os atiradores chegaram. Adenilton faria aniversário na próxima segunda-feira, 12.

O outro atentado foi realizado na Rua Joaquim Magalhães, quase esquina com a Rua Major Facundo, próximo à Vila Demétrio. A Polícia Militar confirmou a morte de Pedro Braga Barroso Neto, de 22 anos, que tinha antecedentes criminais por agressão e envolvimento com torcida organizada. Segundo informações da população que estava no local, ele e outro rapaz - também levado ao IJF - haviam ido comprar vinho quando foram surpreendidos por um carro sem identificação. Pedro Braga também estava vestido com a camisa do Leão do Pici.

Ataque

A sede da Torcida Uniformizada do Fortaleza (TUF) foi cenário de um ataque em fevereiro de 2016. De acordo com a Polícia, Roberto Vieira Junior, 38, foi baleado enquanto treinava na academia de ginástica instalada dentro da TUF. Por volta das 19 horas, três homens invadiram o local e efetuaram disparos. Um dos tiros atingiu as costas de Roberto. A motivação do crime foi briga entre torcidas organizadas. Acompanhe a repercussão da chacina no site do Diário do Nordeste.

Depoimento

O pavor de quem estava na praça para se divertir

A praça estava lotada. Tinha carro de som tocando, gente em pé dançando. Do nada começaram os disparos. Custei a entender que eram tiros e demorou alguns segundos até eu perceber porque as pessoas estavam correndo e se jogando no chão. Eu, meus amigos e meu irmão nos abaixamos. Eles queriam correr, mas quando a gente tentava se levantar o barulho dos tiros voltava. Acho que foram três sequências, e eram muitos. Tinha medo de correr e levar um tiro. Mesas e cadeiras voando. Muitos pratos e garrafas quebradas no chão, gente com os pés machucados, além das vítimas já caídas. O medo me paralisou. Achava que tinha sido uma ou duas vítimas, mas logo de cara vi três. Mais na frente, tinha mais dois caídos e muita gente chorando. Muita gente sem compreender, muita gente perdida. Os estabelecimentos tentando fechar as portas e as pessoas arrombando para se proteger. Era um desalento, o povo andando sem rumo repetia: "não volto mais aqui", "acabou a paz no Benfica". Eu fiquei um tempo lá rezando, sabe? Não tinha muito o que fazer...

Quarta chacina de 2018

As mortes múltiplas registradas na noite desta sexta são a quarta chacina ocorrida no Ceará em 2018. A primeira ocorreu em Maranguape quando quatro pessoas são encontradas mortas na Serra Pelada no início de janeiro. A segunda foi a das Cajazeiras, a maior do Estado, ocasião em que 14 morreram no momento em que jovens estavam se divertindo no popular "Forró do Gago". Menos de três dias depois, a Cadeia Pública de Itapajé vira palco da terceira chacina, com 10 óbitos. 

Vítimas identificadas

José Gilmar Furtado de Oliveira Júnior, 33 anos, morto na Gentilândia

Pedro Braga Barroso neto, 22 anos, morto na Rua Joaquim Magalhães

Emilson Bandeira de Melo Junior , 27 anos, morto na Vila Demétrio

> Adenilton da Silva Ferreira, 24 anos, morto na Vila Demétrio

O IJF avisou que não vai se pronunciar e que as informações serão passadas pela Secretaria de Segurança Pública e Defesa Social (SSPDS).