Televisão

Retorno a Twin Peaks

Com estreia nos EUA neste domingo, nova temporada se passa 25 anos depois da morte da protagonista

00:00 · 19.05.2017 por Liv Brandão - Agência O Globo
De cima para baixo: Kyle MacLachlan retorna como Dale Cooper, assim como Mädchen Amick e Peggy Lipton

David Lynch admitiu recentemente que a revolucionária estética de "Twin Peaks" foi definida por uma cena. Nela, o Agente Cooper (Kyle MacLachlan) sonhava que estava numa sala vermelha, acompanhado de um anão e de Laura Palmer (Sheryl Lee), vivinha da Silva, prometendo voltar a vê-lo 25 anos depois dos acontecimentos que abalaram a cidade fictícia que batizou a série.

Pois agora, pouco mais de 25 anos da estreia do programa que fez o mundo se perguntar quem matou a mocinha, Lynch e seu parceiro Mark Frost voltam ao intrigante universo de "Twin Peaks". Reunindo a maioria do elenco original, a aguardada terceira temporada da série estreia no próximo domingo (21) nos EUA, com um episódio duplo de duas horas. No Brasil, porém, nenhum canal anunciou a exibição e, procurado pelo Globo, o Showtime, rede de TV responsável pelo revival, não detalhou os motivos.

"Isso é novidade para mim, e estou muito surpreso. Não fazia ideia", diz Frost, em entrevista, ao ser informado que os brasileiros não teriam acesso aos novos episódios juntamente ao resto do mundo. Ao menos não de forma legal.

Apesar de "Twin Peaks" geralmente ser creditada a David Lynch, cineasta de filmes como "Cidade dos sonhos" (2001), e que dirigiu não só os 30 episódios originais, mas também os 18 da nova safra, Frost ajudou a criar aquele universo.

Contexto diferente

Recebida com estranhamento e fascínio no início dos anos 1990, uma época em que a TV era recheada de enlatados e fórmulas fáceis, a série pavimentou o caminho para a chamada Era de Ouro da televisão, que só chegaria quase uma década mais tarde, com produções como "Família Soprano" e "The wire".

Hoje em dia, ao retomar a trama, Frost e Lynch encontram um cenário muito mais fértil e complexo (e muito mais concorrência), além de um público acostumado a assistir a séries de uma tacada só, em esquema de maratona.

"Dessa vez, tudo o que fizemos foi confiar nos nossos instintos. Da primeira vez, as pessoas pareciam gostar de assistir a um episódio por semana, de ter tempo para digeri-lo, e quisemos fazer isso novamente. Por isso, não oferecemos o projeto para um lugar que o disponibilizasse todo de uma vez, para binge-watch", explica Frost, embora frise que a nova temporada foi pensada e rodada como se fosse um longo filme. "Estive presente em boa parte das gravações, e paralelamente escrevi um livro sobre 'Twin Peaks'".

O tal livro, "A história secreta de Twin Peaks" (Companhia das Letras), acaba de ser lançado no Brasil. A obra funciona como um dossiê que detalha a história da cidade-título por meio de arquivos do FBI, recortes de jornal, páginas de diário, fotos e desenhos, expandindo o universo da série. O que ajuda, ainda que vagamente, na compreensão de uma trama calcada em mistérios.

"O livro foi escrito quando todos os roteiros já estavam prontos, então a nova temporada me ajudou a pensar nos elementos que eu queria contar em 'A história secreta'. Foi uma questão de equilíbrio entre os mistérios que gostaríamos de manter e as histórias que queríamos contar", explica Frost.

"Mas o livro e o filme ('Fire walk with me', que conta a vida pregressa de Laura Palmer) são relevantes para entender o que você está prestes a ver. Eu realmente não posso falar sobre a nova temporada, as pessoas terão que esperar para ver".

E isso é verdade. Embora muito falada, pouquíssimo se sabe sobre os rumos da série. Basicamente, é público e notório apenas que a temporada se passa 25 anos depois da morte de Laura Palmer, e que Kyle MacLachlan e Sheryl Lee voltam aos seus papéis.

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Laura Palmer e família na primeira temporada

Assim como David Duchovny (que viveu a transexual Denise Bryson muito antes dessa discussão pautar a TV americana), Ray Wise (Leland Palmer), Grace Zabriskie (Sarah Palmer), Sherilyn Fenn (Audrey Horne), Peggy Lipton (Norma Jennings) e o próprio Lynch (Gordon Cole), entre outros.

A eles se juntam ainda novatos como Laura Dern, Michael Cera, Naomi Watts, Tim Roth e o cantor Eddie Vedder. O compositor Angelo Badalamenti, criador da icônica trilha sonora original, assume novamente o posto, dividindo as funções com Johnny Jewel, do grupo de música eletrônica Chromatics.

Segredo e disputas

Não houve exibição prévia de episódios para a imprensa e a própria sessão no Festival de Cannes será quatro dias após a estreia na TV. Diferentemente de produções tão visadas quanto "Game of thrones", que chega a usar drones para impedir fotografias aéreas das gravações, a temporada não contou com esquema fortalecido de segurança. Em vez disso, os atores não tiveram acesso aos roteiros completos, recebendo apenas o detalhamento das cenas que gravariam.

"Nós apenas reforçamos com todos do elenco e da equipe a importância de manter tudo em segredo. Acho que todo mundo comprou essa ideia e quis ser útil na tarefa de evitar spoilers".

O elenco, aliás, só soube do revival de "Twin Peaks" pela imprensa, quando, depois de muitos rumores, a volta foi, enfim, oficializada, em 2015. Pouco tempo depois, a nova temporada quase foi por água abaixo. Executivos do Showtime e David Lynch entraram numa disputa sobre orçamento - o canal havia encomendado apenas nove episódios e os showrunners decidiram fazer o dobro.

Diante de uma negativa inicial, Lynch anunciou que estava abandonando o barco, com o apoio de toda a equipe. Com o imbróglio resolvido (Lynch e Frost venceram, afinal), as rusgas ficaram para trás e foram esquecidas no set, garantiu o roteirista.

"Esse é um projeto no qual trabalhei duro no passado, e tantos anos depois pude revisitá-lo e reimaginá-lo completamente. É uma experiência única, dessas que acontecem apenas uma vez na vida. Agora estamos todos mais velhos e, espero, mais sábios. No mais, foi o mesmo processo para criar algo e trazê-lo à vida".