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A banda cearense Forria lança seu primeiro álbum e movimenta o cenário da música regional no Estado

O Forria prepara uma série de vídeos ao vivo e um videoclipe para publicar no You Tube
00:00 · 14.03.2018 por Felipe Gurgel - Repórter

A sonoridade ligada à música nordestina soa elementar para quem tem os ouvidos mais atentos para a cultura tradicional da região. Os ritmos do baião, do xote e do maracatu, por exemplo, se encaixaram, ao longo da história, no que a crítica convencionou chamar de "música regional". Procurando ir além dessa referência do regional (mas, a partir dela), a banda cearense Forria lançou seu primeiro álbum autoral.

Os músicos Leonardo Rio (voz), Samuel Torquato (guitarra), Paula Bessa (voz e viola), Eros Augustus (voz e teclado), Seu Divino (percussão), Tiago Campos (percussão), Mateus Torquato (baixo) e Lucas Rangel (bateria) lançaram o material no último domingo (11), no Mambembe (Praia de Iracema), em paralelo à realização da Feira Festa Chafurdim.

O repertório de nove faixas já está disponível nas plataformas digitais. Dentre elas, "Depois do Mormaço", a faixa de trabalho. O Forria segue divulgando o álbum e faz show no Berlinda Club (Praia de Iracema), no próximo domingo (18), a partir das 20h. Eles dividem o palco da festa "Toró" com Berg Menezes (CE) e Zéis (vocalista do Capotes Pretos na Terra Marfim, e que lançou recentemente seu primeiro disco solo, "De Preto em Blue").

O Forria começou a tocar e compor há quatro anos. Em entrevista por telefone, o guitarrista Samuel Torquato observa que, em geral, dentre os oito músicos da formação, ele, o tecladista Erus e a violonista Paula compõem as melodias, harmonias e letras.

"Daí a gente leva o resto da banda para construir o arranjo completo. Quando entramos no estúdio, haviam essas nove faixas. E além dessas, a gente já acrescentou mais duas no repertório do show", sinaliza o músico cearense.

A banda optou pelo Mambembe para fazer o lançamento do disco, depois que Luana Caiube, atual proprietária do espaço, gravou percussão na faixa "Sombra de Coqueiro". "A gente se conhece bem, tem uma relação muito boa. E o espaço lá é muito bonito pra gravar o show", situa Samuel Torquato.

O Forria deve lançar, depois de editar, uma série de vídeos no You Tube, com o registro do lançamento ao vivo. Além desse material, a banda tem gravado um videoclipe da canção "Desenredo", quinta faixa do álbum, com direção do cineasta Leandro Bezerra.

Referências

Questionado sobre quais seriam as referências da banda para criar e compor, o guitarrista Samuel Torquato sinaliza que o grupo se identifica mais com os gêneros do universo por onde transita (afrobeat, maracatu, ritmos nordestinos como o xote, xaxado, baião), do que com outras bandas especificamente.

Como o grupo é extenso - e reúne oito músicos na formação - ele observa que não é fácil achar um "lugar comum" nesse sentido. Embora eles tenham "um gosto em comum, e o público perceba sim algumas referências, mas normalmente (o processo de criação) é bem aberto. A gente valoriza muito a cultura afrodescendente e a nordestina, mas também bebe do rock, do jazz, do blues", sinaliza o músico.

Todos os integrantes do Forria já tinham a experiência de tocar em outras bandas antes de formar o octeto. No entanto, Samuel Torquato pontua que somente o baterista Lucas Rangel e o percussionista Seu Divino tinham lidado com uma sonoridade mais "regional" em grupos.

"Na prática, o Lucas Rangel participou do (grupo) Maracatu Solar. E o Divino tocava na Baque Lírico, que tinha um pouco dessa onda também", observa o guitarrista.

Cenário regional

Indagado sobre como percebe o cenário da música no Ceará, em relação às bandas do mesmo perfil, Samuel vê um "momento muito produtivo" dos artistas, embora falte visibilidade. "Vejo nomes como o Juruviara, que é nosso amigo, o Daniel Medina, com uma referência mais implícita dessas influências (regionais). A Ilya também. Realmente acho que (a cena) está acontecendo, tendo lançamentos, produtos audiovisuais. O que falta é mais publicidade desse conteúdo", avalia o guitarrista.

Diante do cenário político e de tensão social, local e nacional, em que os artistas também estão inseridos, Torquato vislumbra que o papel dos músicos não se resume a travar "resistências". Ele encara o fazer artístico, nesse contexto, como uma proposição de novas ideias, para superar o conservadorismo e a violência.

"Mais que um ato de resistência, porque resistência é uma (atitude) 'defensiva'. Mas é sair desse campo e apresentar, propor ideias. Acho que esse contexto impõe muita dificuldade pra gente, até por questão de verba, poucos recursos pra cultura, mas vale pensar alternativas, e não só 'resistir'", reflete o músico.

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