Coluna

Erilene Firmino: Um sonho inusitado

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Erilene Firmino

erilene@diariodonordeste.com.br

Tudo novo de novo, pensei ao ver o dia amanhecer. Acordei otimista, com a lembrança sobre a minha capacidade de fazer latejando nas veias. Dentro de mim, certezas permanentes, mas horizontes vários. O mundo mudou, eu sei, tudo muda a cada instante.

Às vezes, a modificação agride nossos desejos. Em outras, a vida dá certo: a alteração atende justamente nosso desejo mais profundo. Nenhuma vez é insignificante. Hoje, entretanto, independente de minha vontade ter ou não prevalecido, a mudança maior foi em mim. Houve um tempo de eu ser mais ingênua, mais esperançosa, mais crédula. Sou outra agora. Cética.

Cada dia mais difícil acreditar, principalmente em impossíveis. Não bastassem as injustiças no mundo, não tenho mais como fazer de conta a bondade ser o sentimento predominante nas pessoas, pois, ao fim de tudo, quem faz o mundo é cada um. Se eu for preconceituosa, se desejar a felicidade apenas para mim, se não pensar no bem comum, não terei como ajudar a fazer um mundo diferente dessa mesquinharia que eu seria.

As minhas mãos também estariam sujas com as injustiças cometidas. Eu não sou do tipo. Na verdade, me dói a miséria humana tanto de bens materiais quanto de sentimentos nobres. E talvez por isso, as realizações de quaisquer impossíveis - antes, perfeitamente lógicas para mim - parecem mais longe, embora meus óculos estejam com grau certo.

Preferia a eu antiga. Aquela que sonhava sem freios e acreditava ser possível cada desejo nosso. Eu tinha a fé ingênua. E sem me importar se fé precisava ou não de qualificações, fazia bom uso dela que me impulsionava a realizar. Quando a gente não teme o impossível, ele diminui de tamanho, ficam mais fáceis as realizações.

Era muito bom ter essa fé. E só por um dia a ter sentindo, já me vale em horas de desespero e agonia. Saber a existência dessa brecha, abre precedente. Posso tentar senti-la de novo, muito embora seja difícil voltar a ser o que se era antes, depois de termos descoberto fragilidades nas crenças e processos. Mas não precisa ser igual. Pode-se tentar de novo, mesmo tendo nos tornado pessoas diferentes. É só ficar com a melhor parte, com o positivo e, com as nossas sabedorias adquiridas, tentar também interferir no processo. O mundo não muda sempre?

Aliás, devo me confessar. Sim, há algum tempo, eu perdi a fé amorosa e ingênua, mas, recente, descobri inusitado. Um poema se constrói dentro de mim, sem eu me dar conta. Um maior do que eu.

Acontece independente de minha vontade. Diz da fé em si mesmo, da necessidade de se manter firme no que para a gente é raiz, de não se deixar iludir pelos preconceitos e aparências, das relevâncias da vida em detrimento das tolices, de como há sorrisos com passaporte direto para os corações, de como é importante saber de si com certeza absoluta. Está por ali nos pormenores e no implícito de cada um de meus atos. Mais é uma ideia, sentimentos fortes ao redor para protegê-la. Como espinha dorsal do que penso, falo, faço ou desejo.

Há um poema se construindo dentro de mim avesso às minhas vontades, porque minha natureza é de esperança e resistência. Ele fala das verdades universais, das quais, às vezes, me esqueço, me escondo. Fala de mim, do outro, de como é bom amanhecer ciente das possibilidades e anoitecer também certo de tê-las aproveitado bem ou as enfrentando com braveza, conforme a necessidade. Ele fala sobre a urgência de não perder a capacidade de sonhar e se espantar com belezas mínimas como encontrar Joaninhas no jardim.

É uma esperança até contraditória para a pessoa que sou hoje, mas habita em mim nesse poema inesperado. Ele, o venho escrevendo a vida inteira e, às vezes, me esqueço. Até ontem, por exemplo, nem imaginava sua existência. Fui procurar aqui por dentro de meus coração e alma, uma resposta imediata: deparei-me com ele. Um fiapinho só de sonho, bem pequenininho e mínimo, mas resistente como toda esperança costuma ser. Amém.

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