Matéria-617738

02:25 · 27.02.2009
A fábrica do feminino

Em 1999 Paula Glenadel publicou seu primeiro livro de poemas, A vida Espiralada (Editora Caetés). Neste pequeno livro, cinco versos em dois poemas diferentes chamam atenção para uma espécie de projeto poético que se iniciava ali. Do poema A vida Espiralada, homônimo ao título do livro: ´o presente é um corredor estreito, / o passado é memória de memória // e o futuro, um abrigo inóspito / (fumaça subindo em anéis inúteis).´ E do poema Vertigem: ´A vertigem ainda ronda.´ Nesta fenda, ou dobra, que estes cinco versos apresentam se pode pensar uma perspectiva acerca do tempo para a poesia e do poema como ´afirmação soberana´ ou ´ausência de sentido´, e é possível esticar toda uma idéia de começo, de reserva e de autonomia para a esfera que se desenha na figura da espiral por dentro da poesia de Paula Glenadel. Tanto é que em seu segundo livro, Quase uma arte, de 2005 (Editora Cosac Naify, coleção Às de Colete), o poeta Marcos Siscar chama atenção no prefácio para a artimanha de Paula em colocar ´a poesia no lugar em que a poesia se falta.´ Isto é uma evidência, mas é também um sacrifício, como ´crianças dentro de casa´, diria com mais imprecisão e mais limite Georges Bataille em seu Experiência Interior.

A crítica Patrícia San-Payo, numa releitura deste texto de Bataille, sugere que se possa dizer que a poesia ao cumprir o lugar da expressão ´crianças dentro de casa´ pode ser lida como uma manifestação frustrada do que a experiência interior mais radical subentende, exatamente porque arma uma conformação com outra ordem possível onde esta se pretende evadir. A poesia de Paula Glenadel segue o risco desta armadilha, num conjunto de imprecisões para demolir o edificado, daí, penso, a figura da espiral no primeiro livro e a imagem do quase no segundo livro. A espiral como aquilo que reporta ao que não se pode atingir, tocar, alcançar, entre o sempre e o nunca; e o quase como um aberto, um campo para a brecha, este pouco menos e este pouco mais ao mesmo tempo, esta falta presente.

Agora, recente, Paula Glenadel publicou seu terceiro livro de poemas: A Fábrica do Feminino (Editora 7Letras, R$ 25,00). E não custa lembrar que Paula é professora de literatura francesa na UFF e que tem todo um trabalho de leitura crítica da poesia contemporânea atravessada por algumas questões que comparecem também em seus poemas, como a animalidade (no caso de Quase uma arte) ou do limite extremo etc. Interessante perceber, como princípio e projeto, o quanto algumas questões importantes para ela parecem retornar neste livro, e de outra maneira. Seguindo Bataille, uma entre algumas das referências mais evidentes nos textos críticos de Paula, ao dizer que a poesia ´coincide com o impossível´, que a poesia pode ser também ´a máxima expressão do impossível´ e que a poesia talvez compareça como um gesto político soberano. Daí, o ponto: demolir o edificado, demolir o que edifica. Este livro de agora, A Fábrica do Feminino, raspa e escava este gesto. O tema que gira (ou os temas que giram) em torno do feminino seguem o procedimento de uma linha de montagem que se articula a partir da indicação do título, a fábrica. E rápido se pode remeter ao ´fabbro´, não apenas ´il miglior fabbro´, que supostamente seria o poeta, mas a um fazedor outro, qualquer, mas que não abre mão de fazer a dor, que mantém latente alguma pulsão, uma paixão profunda. Este mesmo ´fabbro´ pode ser remetido à indústria, ao sistema de produção, ao feito à máquina, à prisão ou à vida rasa.

O que Paula apresenta neste seu livro, entre outras tantas possibilidades de lê-lo, é como é possível demolir um tema como o do feminino para deixá-lo vivo, a poesia como um deboche construído e destituído, entre falha e excesso, entre espiral e quase, entre fábrica e mito desfeito; interromper o discurso pronto para armar uma tessitura provisória. O poema Fatal, como exemplo, diz: ´Fabricamos uma fêmea. Fizemos isso, todas e todos e cada qual: uma fêmea fatal. Perigosa. Ardilosa. Malfadada. Malfazeja. Mas assim mesmo desejada. Ou melhor, desejada para isso mesmo. Para dar figura às coisas escuras. Nós a encarregamos de carregar o destino no colo. É um perigo para ela e para os outros, bonitinha, mas ordinária, essa que vai fermosa e não segura uma cantiga, minha senhor, (...).´ Daí que Ana Luísa Amaral imprima espaço no posfácio para dizer de uma ´sabotagem da tradição´: uma sabotagem ´capaz de agenciamento e de abertura ao devir´.

Assim, este livro de Paula Glenadel propõe que se possa pensar seguindo Bataille sobre o espaço mínimo para ´crianças dentro de casa´ e do quanto é possível seguir estas vertigens da sua linha de montagem como lascas de ´um pensamento bom´.

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