Pinturas da artista plástica Adriana Maciel integram exposição com abertura nesta quinta-feira (14)

Em cartaz no Museu da Cultura Cearense até o dia 7 de abril, mostra propõe jogo entre realidade e imaginação

Image-0-Artigo-2493954-1
Deslocamento [políptico em cinco partes], acrílica sobre tela feita entre 2010 e 2011

Há um silêncio elástico nos espaços onde Adriana Maciel faz morada. Está em tudo, das paredes ao teto, embora, de forma mais enfática, no ambiente específico em que as obras da artista são geradas. "Trabalho no ateliê sozinha, nunca consegui produzir em grupo. Tenho uma vida muito 'pra dentro' - passo muitas horas comigo mesma e saio pouco de casa. Apesar de gostar das pessoas, tendo, em geral, para a solitude, para o estar comigo. Estou assim o tempo todo. E, para mim, isso é essencial. Ateliê é esse diálogo", confessa.

"A cada exposição, então, é como se eu tivesse que fazer um levantamento da minha vida, porque o que é minha vida? Minha vida é isso!".

Essa coerência genuína da mineira de fato ecoa na forma como o público pode melhor apreender os múltiplos sentidos de suas obras. Soa feito advertência: caso queira se deixar atravessar pelo que está à frente, é necessário mergulho isolado, atenção redobrada, olhar sensível. Silêncio.

Após passar por Belo Horizonte e São Paulo, Adriana desembarca em Fortaleza com esses seus poucos ruídos que dizem muito e uma trajetória erguida continuamente a partir deles, compondo a exposição "Locus - Pinturas de Adriana Maciel".

A mostra entra em cartaz no Museu da Cultura Cearense nesta quinta-feira (14), às 19h, quando acontece a programação de abertura - que engloba lançamento de catálogo e visita guiada com a artista e um intérprete de Libras.

 

Em síntese, são cerca de 25 obras reunidas nas Galerias 1 e 2 do Museu, apresentando criações de uma década de projetos da pintora. Como proposta, uma leitura poética de representações de pequenas construções, a exemplo de aberturas, frestas e vãos. Tudo gerado a partir de pintura, desafiando o senso ótico e imaginativo dos visitantes.

Image-1-Artigo-2493954-1
Obra sem título [políptico em cinco partes], do ano de 2006, acrílica sobre tela

O material está dividido em telas, objetos pictóricos e instalações, assim categorizados: 13 telas da série Com-partimentos; 10 objetos pictóricos das séries Núcleo e Rotor; e mais duas instalações, Trajetória e Órbitas. Apesar da segmentação, a artista plástica é enfática: é possível, sim, dizer que apenas uma instalação integra o trabalho.

"Alguém comentou no Palácio das Artes (BH) que minha exposição era única exatamente porque tudo parece ser parte de uma coisa só. Concordo com isso, fico pensando nela exatamente como um conjunto, uma unidade", pontua.

Curadoria

Contemplada pelo Prêmio Funarte Conexão Circulação Artes Visuais, "Locus" tem curadoria da própria Adriana Maciel. Em entrevista ao Verso por telefone momentos antes de viajar para a capital cearense, ela afirma que todas as mostras que levam suas pinturas sempre tiveram projetos curatoriais organizados por ela mesma.

"Pode até ser legal ter um olhar de fora, mas ainda continuo achando que quem melhor conhece o trabalho é sempre o próprio artista", opina.

Nesse sentido, Adriana cita o exemplo de "Território", criação formada por seis partes com possibilidade de ser montada em um canto ou sobre um tablado. Segundo ela, essas possibilidades de onde manter a peça pode conferir diferentes perspectivas ao observador: quando exposta em um canto, dá ilusão de que a tela adentra o chão; por sua vez, quando montada em um tablado, cria a imagem virtual de um cubo branco. É jogo, portanto, de montagem e visualidade.

"O diálogo com o espaço vai me trazendo coisas novas e acho isso superbacana. A instalação Trajetória, por exemplo, sempre montei de uma forma linear, como um túnel, mas posso montá-la de uma maneira circular, como se fosse um círculo fechado", explica.

"Há pessoas, assim, que entram na exposição e sentem coisas completamente opostas. Por isso, para mim, apesar de trabalhar com ilusão, meu ofício é muito mais voltado para o lado mental", situa.

Influências

Questionada se até mesmo seu temperamento no dia da montagem da exposição pode influenciar na forma como tudo será esquematizado no ambiente, Adriana responde com um sonoro "lógico, lógico" - reiterando ainda que se, a priori, todo o projeto expositivo para a mostra em Fortaleza já estava montado à época da entrevista, ainda havia a possibilidade de algumas coisas mudarem.

"Isso só se consegue pensar na hora em que está in loco, fazendo. É quando tudo é calculado, desde onde cada tela entra até o nível delas. Ou seja, a montagem é extremamente importante na leitura das obras", observa, citando, na sequência, termos como "volumetria ficcional" e "visualidade virtual", abrindo perspectivas para o que o público poderá conferir e aprender.

Sobre esta última parte, de apreensão do conhecimento, a pintora estará à disposição de interessados em imergir na estética produzida por ela nos dias 15, 16 e 17, quando acontece a oficina "Pintura como experiência do olhar". Gratuita e com inscrição mediante agendamento, a atividade possibilitará práticas de cunho técnico e o estímulo em perceber detalhes que se encontram ao redor.

img3
Obra da série "Rotor", acrílica sobre madeira

Além do aspecto formativo, a proposta de Adriana é fazer com que a exposição seja inclusiva. Não à toa, no rastro do investimento em acessibilidade promovido pelo Museu da Cultura Cearense, Adriana construiu pela primeira vez três peças táteis para apreciação de deficientes visuais. "Estou supercuriosa para saber como vai funcionar porque nem mesmo eu sei se o que fiz existe", brinca.

E emenda: "Como dá para perceber, eu me doo ao máximo - dou oficina, trabalho a questão da acessibilidade, da visita guiada, e ainda tem um vídeo que eu construí explicando todo o trabalho, um material que fica lá para as pessoas assistirem, em uma versão com libras e outra sem libras. Ou seja, criei todas as possibilidades de fruição para o espectador. E, agora, a intenção é saber como cada coisa vai conseguir atingir o outro, que é a real maneira como a obra se completa".

Serviço

Exposição “Locus - Pinturas de Adriana Maciel”. Em cartaz de 15 de fevereiro a 7 de abril no Museu da Cultura Cearense (Rua Dragão do Mar, 81, Praia de Iracema). Abertura nesta quinta-feira (14), às 19h, com lançamento de catálogo e visita guiada com a artista e intérprete de Libras. Visitações: de terças às sextas, das 9h às 19h; sábados e domingos, das 14h às 21h (acesso até meia hora antes). Entrada gratuita. Oficina de pintura: dias 15, 16 e 17 de fevereiro, das 14h às 17h30. Contato: (85) 3488-8621