Poderosas serviçais

Na pele das empregadas da novela ´Caminho das Índias´, Luci Pereira e Priscilla Marinho ensinam como chamar atenção com papéis coadjuvantes

Quando recebeu o convite para viver Ondina, a atriz Luci Pereira imaginou que pouco mais faria na trama de ´Caminho das Índias´ que servir cafezinho e dizer uma frase ou outra. Desconfiança parecida passou pela cabeça de Priscilla Marinho, a Sheila da novela de Glória Perez.

Acontece que as duas empregadas da ficção cresceram e apareceram. E, com elas, duas atrizes quase desconhecidas da TV passaram a chamar atenção do público. Luci, de 50 anos, faz a delícia dos espectadores quando está em cena com Cadore (Elias Gleizer), patrão com quem tem uma relação íntima e, para ela, ainda com lacunas a serem exploradas.´Todo mundo me pergunta quando a Ondina ficará com o Cadore, mas por enquanto nada surgiu. Seria bom se acontecesse, pela quebra de preconceitos´.

De preconceito, a atriz entende. Paraibana de Campina Grande, ela conta que já perdeu inúmeros papéis por causa do sotaque carregado e dos traços indígenas. Sua primeira surgiu no filme ´Narradores de Javé´.

Antes, sua carreira esteve restrita ao teatro na sua cidade natal. Em São Paulo, para onde se mudou atrás de outras oportunidades, sobreviveu graças às habilidades com o artesanato. ´Faço bolsas com jornal reciclado, palha, fuxico. Fazer novela para mim é um bico. Quando isso tudo acabar ninguém mais se lembra da gente. Aí volto a fazer minhas coisas´, afirma.

Enquanto a fama não a deixa, Luci teve que se adaptar a algumas mudanças. Vive na ponte aérea e evita andar por aí de ônibus. ´Toda vez em que eu ando de ônibus me reconhecem e começa um agito´.

Os coletivos são uma boa medida do sucesso da dupla. Enquanto faziam as fotos da matéria, Luci e Priscilla tiveram um momento de tietagem explícita quando um ônibus cheio passou por elas. Com a cabeça na janela, os passageiros gritavam: ´Sheilaaaaaaaaaaaa!´.

Mudança radical

´Ainda não me acostumei com isso´, diz, rindo, Priscilla, de 26 anos. Assim como Luci, Priscilla tem uma trajetória baseada no teatro. Começou no Tablado aos 12 anos, passou pelo Nós do Morro e trabalhou com o diretor José Celso Martinez Corrêa na montagem de ´Os sertões´, que a levou para a Alemanha. Na TV, sua participação se restringiu a um papel pequeno em ´Malhação´. Até chegar Sheila, empregada de Melissa e Ramiro.

Com a personagem da novela das oito, a atriz ganhou sua primeira chance de brilhar na TV. Ingênua e carinhosa, Sheila vive imitando a patroa. Outro dia, foi vista meditando para macaquear os ensinamentos do guru indiano de Melissa. O alcance da empregada divertida surpreendeu a todos, incluindo a própria Priscilla.

´Sempre fui simpatizante do movimento negro e era contra fazer um personagem de empregada, que junto com os escravos simbolizam os papéis restritos que os negros têm na TV. Mas eu queria botar a cara na televisão e comecei a me perguntar: ´por que uma empregada também não pode ser maravilhosa?´.

A experiência em ´Caminho das Índias´ também tem servido como aprendizado para ela, que até então considerava seu grande marco como atriz a experiência com José Celso em ´Os sertões´ (´tive que ficar pelada, fazer cena de estupro, uma loucura´). ´Quase todo ator de teatro tem preconceito com a TV. Eu tinha também. Mas estou achando ótimo. Estou feliz´.

Gustavo Leitão
Agência O Globo