Os futuros donos do circo

Todo dia é dia de espetáculo para jovens que nasceram e vivem no universo do circo. Mas, para entrarem no picadeiro com seus números lúdicos, precisam mostrar bom desempenho na escola. É o que garantem os pais

Uma grande aventura. É assim que a trupe de crianças e adolescentes que compõe o Monte Carlo Circo encara a vida itinerante que leva. Afinal, tem como não curtir a chance de estar sempre conhecendo outras cidades (até países!) e acumulando amigos? "Aprendemos novos sotaques e culturas. Abrimos nossas cabeças e ampliamos nossos horizontes", considera Marcus Vinicius dos Santos, jovem DJ, iluminador e aprendiz de malabares de 14 anos.

É importante frisar que nenhum deles é obrigado a trabalhar no estabelecimento. Exercem diferentes funções por lazer e amor a uma arte que têm contato próximo desde que vieram ao mundo - afinal, fazem parte de longas gerações de famílias circenses.

Essa jovem turma corresponde, atualmente, a 60% do contingente total de integrantes do Monte Carlo e sabem a importância que têm ao guardar, em seu potencial e dedicação, o futuro do trabalho desenvolvido por seus parentes.

Primeiro, a escola

No entanto, conforme explica Rafael Castilho, domador de cãozinhos poodle de 11 anos, para participar da diversão do Circo precisam atender uma única e constante exigência dos pais: "não podemos, de jeito nenhum, ir mal na escola. Se formos, não entramos no picadeiro".

O cuidado ferrenho dos responsáveis com a educação dos menores deve-se, principalmente, pelo fato de eles estarem sempre se mudando, trocando de colégio e, assim, sujeitando-se a diferentes sistemas educacionais. O que não é nada fácil.

"Teve um período em que estávamos fazendo tantas viagens que chegamos a estudar apenas três dias numa escola. Outra vez, passamos vários dias frequentando escolas do interior do Piauí, onde o nível das aulas era muito fácil. Mas aí, quando fomos fazer a prova final, em Teresina, sofremos muito, porque o conteúdo era bem mais difícil. Tivemos que ralar bastante para passar de ano", conta Gabriela Castilho, 16 anos, a garota mais velha da turma, espécie de "guru" das demais e participante dos números de bambolê, magia indiana, balé, entre outros.

Segundo Sérgio Robattini, responsável pelo marketing do circo, os pais das crianças fazem tudo para que elas não se prejudiquem com todo esse "troca-troca". "Normalmente, os pais se mudam uns três dias antes para a nova cidade para procurar logo a escola nova e realizar a matrícula. Nenhum colégio, até hoje, nos recebeu de maneira negativa".

Na verdade, os filhos de pais que exercem atividades artísticas itinerantes têm proteção legal para os estudos. O artigo 29 da lei 6.533/1978 diz que crianças têm vaga garantida na escola pública mais próxima do local em que os pais trabalham.

Além disso, assegura a transferência da matrícula e vaga em qualquer série dos ensinos fundamental e médio. Pela lei, as escolas particulares (mediante pagamento de mensalidade proporcional ao tempo de permanência) devem aceitar os alunos.

Extrovertida, Gabriela acrescenta que, mesmo com a transferência constante de locais de estudo, é fácil fazer amizade. "Os colegas têm curiosidade de conhecer a nossa realidade, são atenciosos, nos ajudam nas tarefas e vêm nos visitar no circo. Temos amigos que levamos conosco, mesmo após trocarmos de cidade. Ficamos nos comunicando por MSN e email", explica.

Já Natália Melo, de 10 anos, confessa ter mais dificuldades em fazer amizades devido à timidez. Participante do número da magia há um ano, ela já começou a ensaiar para apresentar o bambolê, seu grande sonho, além da "lira" (espécie de bambolê de ferro gigante). Para tanto, admite necessitar perder o acanhamento. "A Gabi (Gabriela Castilho) tem me ensinado tudo. É ela também quem me ensinou a me maquiar e a me vestir antes das apresentações. Somos grandes amigas".

Durante a entrevista, os jovens falaram também do que gostam de fazer nas horas de lazer. Rafael está sempre de olho nos cães que adestra, Astor, Bella, Mike e Whisky e sabe identificar, direitinho, as características de cada um. Natália gosta de brincar de boneca. Gabriela atende o público na bilheteria, adora ler (já "devorou" todos os livros da saga "Crepúsculo" e, agora, anda para lá e para cá com o exemplar de "Morte e vida de Charlie St. Cloud"). Além disso, todos vão ao shopping na segunda, dia de folga. "Lanchamos e assistimos quase todos os filmes em cartaz no cinema", enfatiza Rafael.

Persistência

Quem não larga os malabares é Marcus Vinicius dos Santos. Será que é exagero? Ele garante que não. "Fiquei com o número mais ingrato do circo. Ingrato no sentido de mais difícil. Mesmo que a pessoa saiba de tudo, tem sempre que treinar, relembrar", diz.

Marcus é sinônimo de perseverança. Irmão, sobrinho e neto de malabarista, o talento também corre em seu sangue. Só que, para poder começar a apresentar-se como tal, o treinamento leva anos a fio.

Há algum tempo, o garoto aprendeu a manipular bolinhas. "Levei quatro meses para conseguir passá-las por baixo das pernas e trocar de mãos com destreza". Em seguida, veio o treino com aros. Foram seis meses, os quais deixaram sequelas em suas mãos. "Os aros são muito finos. Machucaram as minhas palmas. Mas não desisti", garante.

Agora, Marcus segue numa fase ainda mais difícil. O treino com claves. E, detalhe: são cerca de dois anos de estudo, pacientemente realizado por este aluno fiel. "Preciso, depois, reunir todos os instrumentos em um número. Só assim estarei apto para me apresentar no picadeiro. Já procurei um vídeo que tenha um malabarista treinando todos esses objetos, mas não achei", diz. Quem sabe ele não grava o primeiro? O menino sorri, como que confirmando e continua a ensaiar...

MAIS INFORMAÇÕES

Monte Carlo Circo

No total, são duas horas de show, com dez minutos de intervalo. No Estacionamento do Shopping Iguatemi (Av. Washington Soares, 85). Preços: R$ 15,00 (Cadeira criança, de 3 a 12 anos); R$ 25,00 (Cadeira adulto); Camarote p/ quatro pessoas: R$ 130,00. Estudante com carteira e idosos pagam meia. De terça a sábado, às 18h30 e às 21h. Aos domingos, às 17h e às 19h30. (9974.8353).

TICIANA DE CASTRO
Repórter