O rock nas mais diversas formas

JOÃO LUIS
Há cerca de 60 anos, um gênero musical à base de guitarra, baixo e bateria começou a contagiar o mundo. Os culpados? A lista é longa... Chuck Berry, Elvis Presley, Bob Dylan, The Beatles e Rolling Stones foram alguns dos nomes que disseminaram esse tal de rock n´ roll. Com o decorrer do tempo, o estilo se segmentou em várias vertentes, o que vem causando uma certa confusão. Em comemoração ao Dia Mundial do Rock, no último domingo, o Zoeira convidou artistas locais e fãs incondicionais para explicar o ´bê-a-bá´ do som

Pop rock, hard rock, punk rock, indie rock, hard core, emocore... Muito mais do que apenas barulho, o rock ganhou uma amplitude inimaginável de subgêneros. Se listarmos todos os estilos existentes na face da Terra, melhor consultar o livro ´Vocabulário de Música Pop´, do escritor Roy Shuker, que apresenta um glossário abrangente de verbetes musicológicos em 328 páginas! Mas para ficar a par dos gêneros essenciais do rock não é preciso se descabelar. Basta estar com os olhos (e ouvidos) atentos para algumas sonoridades.

Hard rock

Por exemplo, a Vulcani ficou famosa em Fortaleza por fazer cover das bandas Guns n´ Roses, Bon Jovi, Kiss e White Snake. Na ativa há cinco anos, os cearenses, que lançaram o primeiro disco autoral ano passado, intitulado ´Rise up´, mesclam em seus shows canções inéditas e ainda hinos do hard rock, como ´Rock n´ roll all nite´, ´You give a love a bad name´ e ´Sweet child o´mine´.

Segundo o band leader Fets Dômino - que junto com seu grupo abriu recentemente para o lendário Nazareth (o mais antigo do hard rock, com 40 anos de carreira) em Fortaleza -, o gênero surgiu nos anos 70, quando alguns grupos, como o Led Zeppelin, Black Sabbath e Deep Purple, passaram a colocar ´mais peso´ nas músicas: vocais mais ´esganiçados´ e virtuosos solos de guitarras. ´São marcantes também os chamados refrões pegajosos e a performance de grandes músicos´, lembra.

Para Fets, o estilo começou a decair nos anos 90. ´O mundo precisava de uma novidade. Então veio o movimento grunge, mais underground e descompromissado, representado pelo Nirvana e Pearl Jam´, comenta. Outro fator bastante presente no hard rock é a preocupação estética com o visual. O cabelo grande, a maquiagem carregada e as roupas exageradas (calças de couro, lycra, jeans colantes e muitas estampas) chamaram a atenção, principalmente nos anos 80, época em que qualquer excesso era bem-vindo.

Atualmente, o cantor aponta a ascensão do movimento indie rock e emocore no cenário musical, mas acentua também a retomada de veteranas do hard rock, como a Van Halen e a própria White Snake, e pela renovação do gênero, encabeçada pela Darkness e Dimension.

Rock alternativo e indie

É comum existir um certo desentendimento em relação ao rock alternativo e indie. Primeiro, porque ´alternativo´ é um rótulo genérico e amplo, mas, em geral, traduz-se em música menos comercial e desvinculada a tendências. Surgiu em resposta ao mercado, dando ênfase no rock como uma arte ou expressão. ´Significa o rock à sua maneira, sem seguir qualquer fórmula. Vejo mais como uma música feita de forma criativa, buscando sempre o ineditismo, nunca fica na mesmice. Tem também muita influência do punk´, explica Felipe Lima, vocalista da Café Colômbia.

O indie está inserido dentro desse contexto. O termo apareceu para designar bandas independentes, sem gravadoras, mas hoje tornou-se uma categoria mercadológica, para definir um estilo de música, de ser e de vestir. Musicalmente falando, o indie rock bebe no retrô com uma cara ´moderninha´. ´O indie acabou ficando caracterizado como aquelas bandas de caras vestidos de terninhos, tocando meio disco, soando moderno´, brinca o músico, de 20 anos, que cita o The Strokes, Franz Ferdinand, The Hives e Interpol como referências do som, também chamado de Novo Rock.

Emocore

O emocore é uma versão mais light e sentimental do hard core, ritmo popularizado nos anos 90, caracterizado por uma batida mais dura e rápida que o punk. O que chamou a atenção de Igor Mariano Coelho Serra, de 20 anos, é que o emocore traz melodias mais introspectivas e poéticas. ´O que conta mais é a letra, uma música que faz pensar, trazendo ainda um pouco de rebeldia´, diz o estudante, fã da Fresno e Abril.

O movimento emo virou até tema de trabalho acadêmico. As reuniões semanais de fãs do gênero, na Praça Portugal, com o mesmo visual - franjinha, piercings, calças jeans coladas, tênis all star, munhequeiras e cintos de rebite - motivou o publicitário Bruno Vasconcelos a pesquisar de que forma um segmento musical podia influenciar no estilo de vida.

´Foquei nos emos por eles representarem bem o modo contemporâneo de se consumir e se produzir música, onde a internet se mostra cada vez mais presente no cotidiano das pessoas, nas mais diversas classes sociais´, conta.

Na pesquisa, ele descobriu a ascensão de uma nova corrente: o From UK. ´Em uma entrevista, um ex-emo estava migrando pra esse novo estilo que é baseado no visual das bandas do Reino Unido, bem diferente do visual do emocore, sem franjas caídas sobre o rosto. É mais largado´.

Pop rock

Esse é o estilo mais popular nos quatro cantos do mundo. O pop chegou como uma diluição do rock, uma versão mais suave, associado a arranjos mais rítmicos e à harmonia vocal mais agradável. ´O pop rock é aquele som que não agride os ouvidos, fácil de o público aceitar´, afirma Terccia Jones, da banda The Jones.

Normalmente, as guitarras têm pegada mais leve e são melodiosas. ´A maioria das bandas aposta na batida ´funkeada´ (quer dizer uma levada mais dançante)´, acrescenta. O pop ocupa as paradas de sucesso com refrões grudentos (fáceis de decorar), muitas vezes, com temática romântica.

Apesar de ser visto com preconceito pelos fãs de rock mais pesado ou alternativo, pelo apelo comercial, o pop costuma ser a ´base´ para quem quiser se aprofundar nas outras vertentes do rock. Muito metaleiro não assume, mas já curtiu em uma fase da vida ´Faroeste caboclo´ do Legião Urbana.

Punk rock

A frase ´Faça você mesmo´ é imediatamente associada ao punk, subcultura jovem que explodiu no final da década de 70, na Inglaterra. O movimento eclodiu para reagir contra o romantismo dos hippies e para chocar a sociedade conservadora da época, muitas vezes com atos impróprios em lugares públicos. A moda do corte moicano, piercings e tatuagens em várias partes do corpo surgiu dos punks com o objetivo de ser diferente.

Barulhento, rápido e agressivo, persiste o mito de que o som se resumia a três acordes e a ´atitude´ (símbolo-mor do rock n´ roll), mas vale ressaltar que alguns dos instrumentistas eram experientes e talentosos, como os do The Clash. ´É a minha paixão. É uma linguagem direta, urgente, calcada na idéia de rapidez e simplicidade. Nem por isso menos sofisticado. Na simplicidade dos poucos acordes existem reflexões sobre o cotidiano que emolduraram gerações´, observa Robério Augusto, vocalista da cearense Dago Red.

O punk influenciou vários outros estilos, dentre eles o rock alternativo, o grunge, o hard core e emocore.

Juliana Colares
Repórter

Curiosidade

No livro ´Vocabulário de Música Pop´, da editora Hedra, o leitor poderá encontrar termos da indústria da música. Em ordem alfabética, cada item traz explicações sucintas e dicas de leituras aprofundadas.

Fique por dentro dos estilos

Hard Rock
Fets Dômino, vocalista da Vulcani
Representantes: Guns n´ Roses, Bon Jovi (anos 80), Aerosmith, Black Sabbath, Kiss, Van Halen

Alternativo/Indie
Felipe Lima, vocalista da Café Colômbia,
Representantes: Radiohead, Sonic Youth, Mombojó, Cidadão Instigado,Los Hermanos, Interpol, Franz Ferdinand

Emocore
Igor Mariano Coelho Serra, estudante
Representantes: Fresno, Abril, NX Zero, Good Charlotte, Fall Out Boy, 30 Seconds to Mars

Pop Rock
Terccia Jones, vocalista da The Jones
Representantes: Capital Inicial, Lulu Santos, Paralamas, Jota Quest, Kid Abelha, Skank, U2, Coldplay

Punk
Robério Augusto, vocalista da banda punk Dago Red
Representantes: Sex Pistols, The Clash, Buzzcocks, Stranglers, Ira! e Titãs (anos 80)