Mudança radical

Pais e filhos que forem às bancas vão tomar um susto: a Turma da Mônica cresceu! Após 38 anos de uma infância mais que prolongada, a galerinha do Bairro do Limoeiro vive as alegrias e agruras da ´aborrescência´. Ganhou até novo ´layout´, roupas e alguns centímetros de altura. Maurício de Sousa revela quais são as novas mudanças

Na verdade, se pararmos pra pensar, a Turma da Mônica seria hoje uma turma de quase cinqüentões, senhores e senhoras na flor da idade. Muita gente não sabe, mas os ´pequenos´ travessos surgiram em 1959 em tirinhas de jornal.

O primeiro personagem foi o Bidu, cãozinho azul de inteligência especial. Só depois, seu dono, o Franjinha viria a ser criado. Nascidas em 1963, Mônica e Magali foram inspiradas nas filhas de mesmo nome (e personalidade) do idealizador Maurício de Sousa.

Somente em 1970, a primeira revista foi lançada com a tiragem de 200 mil exemplares. O ´arremedo´ da informação é do ex-repórter policial (fez bem em deixar a profissão) e hoje, com seus 72 anos, maior referência da HQ infantil (tá, disputa ´pau a pau´ com o Zirado, do ´Menino Maluquinho´). Além da puberdade, a nova geração ganhou um visual repaginado.

Modernos

Finalmente, Mônica largou o surrado vestido vermelho e Magali, seus trapinhos amarelos. Até os meninos - por natureza mais desleixados - agora se preocupam com uma roupinha mais descolada (será que é para impressionar as meninas?)...

Os tradicionais desenhos pueris ganharam contornos dos mangás japoneses. Mas, Seu Maurício, por quê tantas mudanças só agora? É uma tentativa de ´reoxigenar´ a história ou uma maneira de conquistar um novo público?

´Faz tempo que eu tinha vontade de mudar, mas foi preciso estudar e pesquisar muito para unir o estilo mangá com o do nosso estúdio. O projeto foi concebido há mais de dez meses, e é produzido no estúdio. As histórias são em preto-e-branco, como nos mangás, cheias de ação, magia, aventura, humor e até pitadas de romance´, explica.

Mais ´maduros´

E não pára por aí. Se está sendo difícil imaginar Cebolinha já rapazinho trocando o ´r´ pelo ´l´, o cartunista lembra que isso só ocorre quando fica nervoso: ´quando a Mônica está ao lado dele´. O que ninguém esperava é que a ditadura da beleza afetaria a bem-resolvida Magali! A garota continua gulosa, em compensação faz atividades físicas e segue dieta balanceada. O Cascão? Quem te viu, quem te vê...

´Agora toma banho ou não conseguiria nunca uma namorada, mas vive sujo nas competições de esportes radicais´. A Mônica, coitadinha, ficou até mais bonita, mas até hoje não botaram um aparelho na menina! Seu pai ameniza... ´Ela já deixou de ser gorducha e baixinha, mas tem uns dentinhos bonitinhos que permanecem´.

Sobre o resto da Turma, o desenhista despista... ´Temos muitas outras novidades com o Anjinho, o Franjinha, a Marina e até vilões que também estão mais velhos. Mas aí é melhor descobrir lendo as histórias, que estão nas bancas´, diz Maurício, feliz da vida com a repercussão da HQ na Bienal de São Paulo, termômetro do mercado literário.

O sucesso da Turma da Mônica ultrapassou barreiras. O gibi é hoje publicado em cerca de 60 países e ´Nhô´ Maurício já perdeu a conta de quantos prêmios já arrebatou mundo afora - entre eles, o Yellow Kid (Festival de Lucca, na Itália) - o ´Oscar´ do quadrinho internacional. ´Mas o melhor prêmio é ser campeão de vendas em banca para o público infantil´.

Reconhecimento

No início de agosto, o cartunista foi à China, convidado pelo governo daquele país, para desenvolver um programa de alfabetização com a Turma da Mônica para mais de 180 milhões de crianças. ´Já publicamos uma edição para os professores chineses sobre o Descobrimento do Brasil. Dei esta edição ao presidente Lula, há uma semana (dia 12 de agosto), na ´Casa do Brasil´, montada em Pequim para a campanha para trazer ao Brasil as Olimpíadas de 2016´, revela.

Qual o segredo do sucesso? Afinal, não deve ser fácil conquistar meninos das mais diversas etnias e culturas... ´Criança é criança em todo o mundo. Em qualquer parte do planeta, presenciamos esse carinho. Mas o Brasil é especial, pois foi onde os personagens nasceram e cresceram para ganhar o mundo´, acredita.

E os fãs?

As crianças de hoje em dia são mais abertas a inovações. Isso já é consenso. João Gabriel Ramos, de 9 anos, não é diferente. O estudante da 3ª série do Ensino Fundamental, que já adquiriu a primeira edição da Turma Jovem, acha que a HQ ficou melhor. ´O desenho mudou. Eles cresceram, ficaram mais ´maneiros´. São novas aventuras´, opina João, que teve o primeiro contato com a obra com apenas três, quando a mãe lia pra ele.

Fã do Cascão, por ser craque em futebol, confessa que também não gosta de tomar banho. O menino aprova as mudanças do seu personagem preferido, apesar de agora tomar uma chuveirada. ´Ele tá mais legal, tá andando de skate e parece que tá usando brinco´, conta.

Polêmica

Mas as crianças de outras gerações, hoje com seus 20 e poucos até 40 e tantos anos? Tem, no mínimo, o direito de estranhar tanta novidade de uma vez só. Gabriela Meneses, de 21 anos, assinou o quadrinho dos 7 até os 11. ´Até hoje dou sempre uma olhada nas revistas dos meus primos, mais novos, e quando vou ao dentista e fico esperando´, confessa. No entanto, a estudante de Jornalismo teme que a Turma Jovem perca a essência da original, principalmente, depois da invasão dos mangás.

´Eu acho que vai perder um pouco da proposta original, daquela historinha de bairro, do fato de também estimular as crianças a começarem a ler desde cedo. Eu não era tão fanática por HQs, só lia a ´Mônica´. As revistinhas da Disney e japonesas não via muita graça´, lembra a universitária.

A irmã, Érica, 18, que cursa Serviço Social, está curiosa para conhecer. ´Acho que vai despertar o interesse de quem é mais velho, mas é importante que não acabe a versão infantil´. Vida longa à Turma - seja grande ou pequena!

Juliana Colares
Subeditora