Uma radiografia da linguagem escrita

Ler

Se a gramática permanece repetindo paradigmas, se se tem negligenciado o ensino da norma por conta dos estudos linguísticos sobre variações e oralidade, tem-se ainda outro agravante: a simplificação da linguagem em tão grandes proporções que já criou o dialeto do mundo virtual: o "internetês", conjunto de abreviações de sílabas e redução de palavras que leva em conta apenas a pronúncia e a eliminação de acentos. De acordo com o professor Possenti (apud MARCONATO, 2006), não existe risco no fato de a juventude aderir a uma linguagem simplificada nos sites de relacionamento da Internet: "Uma coisa é a grafia; outra, a língua. Não há linguagem nova, só técnicas de abreviação no internetês. As soluções gráficas são até interessantes, pois a grafia cortada é a vogal. A palavra "cabeça", por exemplo, vira "kbça", e não "aea". A primeira forma contém os fonemas indispensáveis ao entendimento".

Além das fronteiras

O problema é que essa forma de escrever tem rompido os limites do mundo virtual a que deveria estar restrita, invadindo a TV e até a escola. Escreve-se, naturalmente, em redações, palavras como axo, naum, aki, vc, pq, como se se estivesse diante da tela de um chat qualquer da Internet. Acredito seriamente que, aliada a todas essas questões, esteja a ausência de um acompanhamento pessoal dos pais, que, não tendo tempo para assistir os filhos, terceirizam-nos na mão de profissionais (em quem naturalmente falta a afetividade familiar) ou compensam-nos com o acesso ilimitado a PCs, vídeo-games e TV. A leitura, que é um meio fundamental de enriquecimento do vocabulário, aquisição de conhecimento de mundo e mesmo dos mecanismos gramaticais e estruturais da língua, tem sido trabalhada como uma "obrigação", como tal, desprovida de prazer, não bastasse a falta de exemplo em casa, pois grande parte dos pais também não lê. Antes de qualquer conclusão, vejamos quão graves são os problemas mais comuns nas redações de alunos do Ensino Médio.

O pronome relativo

Não é bastante saber que os pronomes relativos retomam um termo anterior; é necessário que se observe a regência verbal: O atual mundo globalizado ao qual vivemos... Não se vive o mundo, não nesse contexto, vive-se no mundo, então, o certo seria: O atual mundo globalizado no qual vivemos... O mesmo ocorre em Os pais devem mostrar os filhos a nação que forão criados. Nessa situação, a ausência da preposição exigida pode até gerar ambiguidade: os pais mostram os filhos à nação? Ou mostram a nação aos filhos? Ainda: a nação é lugar, exige, portanto o pronome onde ou a presença da preposição em antes do relativo que. Outra confusão é a terminação do verbo ir na 3ª pessoa do plural - confundir am com ão é erro primário, sobretudo porque, no futuro do presente, a forma verbal seria irão, jamais forão, que não existe: Os pais devem mostrar aos filhos a nação em que (onde) foram criados. Leia-se ainda: O oriente médio no qual é palco de espetáculos terrorísticos - o qual é palco - 'O Oriente Médio' é sujeito e não adjunto adverbial.

Concordância

O desconhecimento das regras de concordância verbal são observáveis em muitas redações e, na maioria dos casos, isso ocorre por conta da falta de conhecimento de morfologia e sintaxe: a) Problemas na identificação do núcleo do sujeito: A falta de punição severa da justiça, afetam o patriotismo em todas as faixas etárias - O núcleo do sujeito está no singular (falta) e o verbo está no plural. Além disso, o aluno demonstra desconhecer a regra de que não se deve separar o sujeito do predicado por uma vírgula. Note-se ainda a vaguidade de sentido que a frase apresenta. B) Não identificação da voz passiva analítica - Talvez pelo desconhecimento de predicação verbal, muitos alunos tendem a achar que todo verbo na 3ª pessoa do singular + a partícula se é exemplo de sujeito indeterminado. Com os verbos transitivos diretos, entretanto, tal caso não se configura: Não se encontra muitos patriotas no Brasil // Constrói-se hospitais sem nenhuma condição de atender a demanda c) Transferência da impesssoalidade do verbo Haver para o verbo Existir

Percebe-se frequentemente a transferência da impessoalidade do verbo Haver para o Existir, o que leva fatalmente a um erro de concordância. O verbo Haver é impessoal no sentido de existir (acontecer e, também, na indicação de tempo); já o verbo Existir se flexiona normalmente. Vejamos alguns exemplos: "Existe aquelas pessoas fanáticas que para elas só existe uma religião... // Apesar de existir vários obstáculos... // Não haviam mais pessoas que acreditasse no sistema de saúde público". Há muitos outros.

Considerações finais

Depois de constatadas tantas deficiências no que concerne ao uso da língua portuguesa, resta-nos voltar a questionar as causas para, em seguida, tentar propor formas de erradicar ou, pelo menos, minimizar o problema, cuja profundidade é bem maior do que a que se imagina a princípio. Mesmo com esse nível de escrita, com essa incapacidade, em muitos casos, de formular um pensamento coerente, grande parte desses estudantes está ingressando nas universidades brasileiras, haja vista a baixa concorrência derivada do número expressivo de instituições de ensino superior que proliferaram nos últimos anos. Assistindo às aulas, elaborando trabalhos e adquirindo notas, certamente, concluirão o curso e, posteriormente, ingressarão no mercado de trabalho.

Ainda que se considere que o mercado exerça a lei de seleção natural: quem é bom se encaixa; quem não é fica à margem, de alguma maneira, por qualquer outro mérito, essas pessoas ocupam um espaço e exercem a profissão, até por que, na maioria das vezes, não serão professores de português. Estarão sempre, entretanto, com limitações, dificuldade de expressar o pensamento.

SAIBA MAIS

FIORIN, José Luiz; SAVIOLI, Francisco Platão. Para entender o texto: leitura e redação. São Paulo: Ática, 1990
MONTEIRO, José Lemos. A estilística. Petrópolis: Vozes, 2005
NEVES, Maria Helena de Moura Neves. Que gramática estudar na escola? Norma e uso na língua portuguesa. São Paulo: Contexto, 2003

A. S.