Trajetória de conquistas

O ministro Ubiratan Diniz de Aguiar é um dos agraciados com o Troféu Sereia de Ouro. A outorga será na segunda-feira, 29, no Theatro José de Alencar

Até os 11 anos de idade, Ubiratan Diniz de Aguiar morou em sua cidade natal, o Cedro, no sertão cearense. Nasceu em dia de festa: 7 de setembro (1941). Teve uma infância tranqüila e divertida como a de qualquer outra criança de cidade do Interior. Mas, como irmão mais velho numa família de dez filhos, precisou dar exemplo aos fraternos. Para alívio e orgulho dos pais - Arakén e dona Liquinha (Maria Diniz Aguiar) - Ubiratan não decepcionou: era um menino vivo, responsável, chegado aos estudos e cheio de sonhos. Na época, não pensava em ser ministro do Tribunal de Contas da União, mas sonhava tornar-se governador do Estado. O certo é que dos sonhos às realizações, Ubiratan Aguiar precisou trabalhar muito. E foi recompensado.

Os atrativos da cidade grande cedo atraíram Ubiratan Aguiar. Chegou a Fortaleza ainda menino, aos 11 anos. Veio fazer o exame de admissão, uma espécie de vestibular que dava acesso ao ginásio. Aprovado, passou a morar com o tio Moacir Aguiar. Após três anos de dedicação exclusiva aos livros, tratou de conseguir o próprio dinheiro, dando aula de reforço escolar. Dois anos depois, já lecionava Português no curso de admissão do Colégio 7 de Setembro, após receber um convite de Edilson Brasil Soárez. O reconhecimento como professor logo renderia outro convite, desta vez para ensinar Português no Colégio Batista. Ao mesmo tempo, estudava no Liceu do Ceará, preparando-se para o vestibular do curso de Direito.

No meio de tanto trabalho, Ubiratan encontrava tempo para matar as saudades do Cedro e para se divertir com os conterrâneos no Bar Sete de Setembro - mais um 7 de setembro em sua vida. Na época, fim dos anos 50 para início dos anos 60, a cidade do Cedro só dispunha de energia elétrica até uma determinada hora da noite. Três sinais de luz antecediam o desligamento do gerador e davam a senha para os boêmios de plantão. Era o momento de sair para as serenatas. “A gente fazia o roteiro pelas casas das namoradas. No meio do grupo e no calor etílico, eu até cantava”, diz. Terezita, futura esposa de Ubiratan, era o alvo preferido das serenatas do futuro ministro. Mas o próprio Ubiratan admite que não foram seus predicados de cantor que fizeram a mulher se apaixonar por ele.

Já na universidade, conciliando as aulas de Direito com as atividades de professor no Colégio Batista e no Curso Pedro II, tomou uma decisão importante: “Pensei que era o dono do mundo e me casei aos 19 anos. Mas logo vi que o salário de professor não sustentava a família. Para manter a casa, precisei agregar outras atividades à minha rotina de trabalho”, informa. E assim, Ubiratan reservava seus fins de semana para trabalhar como corretor de imóveis.

Com tantas atividades, ele ainda encontrou motivação para abraçar a militância política estudantil. E não demorou a conseguir destaque. Primeiro foi vice-presidente do Centro Acadêmico Clóvis Bevilácqua, na Faculdade de Direito. Em seguida, seria o próprio presidente. Ao terminar o mandato, transcendeu as fronteiras da universidade e partiu para uma nova eleição, desta vez postulando o cargo de vereador em Fortaleza. Vitorioso, ficou na Câmara de 67 a 70, quando assumiu como secretário de Administração da Prefeitura, na gestão de José Walter. Ficaria no cargo até 1973, já na administração de Vicente Fialho. Ao deixar a Prefeitura, enveredou pelos caminhos da iniciativa privada, sendo diretor de Operações da Credimus S.A. e, em seguida, diretor executivo da Domus-APE, ambas em Fortaleza.

Deputado

Mas sua passagem pela Prefeitura tinha causado boa impressão, levando Ubiratan a receber o convite para ser chefe-de-gabinete do então prefeito Evandro Aires de Moura. “Aceitei o convite já pensando em retomar minha carreira política”, conta. Tudo correu como planejado, e Ubiratan seria eleito deputado estadual em 1978 e reeleito em 1982. Um ano depois, aceitaria o cargo de secretário de Educação do Estado, iniciando um trabalho que marcaria sua atuação política pelo resto da vida. “Como secretário, passei a conviver com os cérebros da Educação no Estado. Neste período, eles chegavam pra mim e diziam: ‘Ubiratan, sua prática política não casa com sua filiação partidária’. Refleti muito sobre isso”.

As reflexões levaram Ubiratan, em meados da década de 1980, a tomar uma das decisões mais difíceis de sua vida, distanciar-se politicamente do ex-governador Virgílio Távora e do tio e mentor político Moacir Aguiar. Ubiratan rompia com a herança política da família, ligada à UDN, depois à Arena e ao PDS. “Na época, fui até Brasília ter uma conversa com o então senador Virgílio Távora, no sentido de que todos nós, sob sua liderança, desembarcássemos no PMDB. Depois de longa explanação, ele disse: ‘Menino, você tem toda razão, mas não posso mudar de partido nesta fase da vida. Mas entendo que você deva lutar pelo seu projeto político’. A partir daí, houve uma coisa que não desejo pra ninguém, um choque entre a cabeça e o coração. A cabeça pedia uma legenda em sintonia com o meu pensar. E o coração não queria deixar eu me afastar do Virgílio. Mas segui em frente e passei a ser, ao mesmo tempo, o soldado e o general, no enfrentamento de uma nova caminhada”.

Os novos projetos de Ubiratan Aguiar tinham como principal foco a educação, num trabalho que ganharia visibilidade nacional a partir de sua atuação nos quatro mandatos de deputado federal pelo PMDB e PSDB, de 1987 a 2001.

Nesse período, foi um dos mais atuantes membros da Comissão Permanente de Educação, Cultura, Esporte e Turismo da Câmara Federal, que presidiu de 89 a 90. Alguns anos depois (95-96), seria o relator da lei que instituiu o Fundo Constitucional de Apoio ao Ensino Fundamental e Valorização do Magistério (Fundef). “Quando fui relator do Fundef, a média salarial dos professores, no País, era de 40 reais. Mas, com as mudanças, o salário dos professores aumentou de cinco a seis vezes”, orgulha-se.

Por sua atuação de destaque, Ubiratan figurou, de 94 a 2000, em todas as listas como “As 100 melhores cabeças do Congresso”, numa publicação anual do Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar. A força política do deputado também garantiu sua eleição para o cargo de primeiro-secretário da Mesa Diretora da Câmara, em dois períodos, de 97/99 e 99 /2001.

Depois de 15 anos como deputado federal, Ubiratan Aguiar renunciou ao seu mandato parlamentar para assumir o cargo de ministro do Tribunal de Contas da União, após eleito em 2001. “Tinha o sonho de chegar ao Senado e ao governo do meu Estado. Todavia, quis o destino entendido que tinha me dado mais do que merecia. Foi quando surgiu a vaga para o TCU. Fui para a disputa e venci. O resultado me permitiu ser o terceiro ministro cearense daquela corte em 117 anos”, comemora. Agora, aos 67 anos, Ubiratan Aguiar é o vice-presidente do Tribunal, mas, em dezembro, assume o cargo de novo presidente da Casa.

Amante da música e da poesia

Longe dos bastidores do poder em Brasília, Ubiratan dedica-se a outras duas grandes paixões, a música e a literatura. Como escritor, transformou a maioria de seus livros em uma extensão de sua atuação política, como nas obras “LDB comentada”, “Educação - uma decisão política”, “Educação - direito de todos”, “História de um compromisso”, “Modelo político para o novo milênio”, “Convênios e tomadas de contas especiais”, “Controle externo”. Mas os livros também reservam lugar de destaque para a poesia de Ubiratan Aguiar, em obras como “Passageiro do tempo”, “Idioma dos pássaros” e “Versos de vida”.

Outros dois livros de sua autoria estão em fase de elaboração: “O controle na administração pública” e “Política: o sonho e a realidade, o fato e a versão”. Já nos caminhos da música, Ubiratan tem composições registradas em quatro CDs, “Água do Arco-Íris”, “Vagão da estrela”, “Canto de Vida” e “Versos de Vida”, na voz de parceiros como Amaro Pena, Goya, Humberto Pinho e Chico Pessoa.

O ministro não esconde sua realização pessoal. “Guardo muita felicidade comigo”. Uma felicidade compartilhada com a família, em especial com a esposa Terezita e as quatro filhas do casal: Neyrta, Neyrla, Neyara e Neyriane. A mãe de Ubiratan, na lucidez de seus 90 anos, também é onipresente nos momentos mais importantes da vida do filho ilustre. “Ela não perde os lançamentos dos meus livros”, informa. Dona Liquinha, certamente, não vai perder a solenidade de entrega do Troféu Sereia de Ouro, uma honraria que enche o ministro de orgulho. “Esta é a 38ª edição do Troféu. Se querem saber da seriedade do Troféu Sereia de Ouro é só olhar para trás e ver quem são os agraciados. Entre os nomes, você encontra a História do Ceará. Quem se destacou nas artes, na economia, nas ciências, na política. Fazer parte deste grupo é ver seu nome incluído na História de nosso Estado. A representatividade do Sistema Verdes Mares, com o timbre de Edson e dona Yolanda Queiroz, garante ainda mais respeito ao prêmio. Por isso, estou muito feliz. Mas a honra não é só minha, é de toda a minha família, que se sente agraciada pelo gesto”.