Tradição na modernidade: a Banda Cabaçal Padre Cícero

A performance da Banda Cabaçal aponta permanências e mudanças ao longo de sua trajetória

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A Banda Cabaçal Padre Cícero é uma das mais antigas da região do Cariri e ainda carrega em si toda a tradição e modos desde o início de sua trajetória em torno de um século. No Ceará, tais bandas se apresentam principalmente e de forma mais marcante na região do Cariri, ao Sul do Estado - a que mais cresce nos últimos anos, o que culminou na criação da Região Metropolitana do Cariri - RMC, no ano de 2009; congrega 9 cidades, dentre estas Crato, Juazeiro e Barbalha, o chamado triângulo, Crajubar. A efervescência cultural - reisados, bacamarteiros, rezadeiras, boi de careta, cordelistas, bandas cabaçais etc - também faz parte do cenário local. Em um levantamento realizado pelo Mapeamus, entre os anos de 2011 e 2012, foram registrados cerca de 157 agrupamentos musicais apenas no Crajubar

As bandas cabaçais são constituídas comumente por um par de pífanos, uma zabumba, uma caixa e um par de pratos, e está presente nas manifestações populares e eventos sociais de todo o Nordeste brasileiro e nos estados de Minas Gerais e Goiás: (Texto I)

Uma prática social

A prática musical de um determinado grupo como uma banda cabaçal, por exemplo, corresponde ao conjunto de ações, pensamentos e sentidos expressos musicalmente, sendo assim constituída uma prática social: (Texto II) A cultura popular talvez tenha como principais características a transmissão oral e o anonimato, e é por esse "boca-a-boca" e pelo ato de imitação e reprodução que manifestações como as bandas cabaçais permanecem vivas século após outro, mesmo que relegadas a um segundo plano. A tradição oral tem o poder de conectar o presente ao passado, sendo assim, tais grupos são a resistência de uma manifestação tradicional popular que luta para não ser sucumbida por uma cultura de massa em uma era tecnicista.

Singularidades

A banda cabaçal apresenta-se comumente tanto em festas religiosas, festas de padroeiro, romarias, renovações de santo, como em festas "profanas", fora do ambiente religioso. Teve sua origem na cidade de Caruaru-PE e chegou no Cariri junto com a romaria de Nossa Senhora das Dores em 1908. Lá, João Francisco Feitosa era mestre de uma banda de pífanos composta por seus filhos Pedro, Santino e Clemente. Este último acabou herdando a banda e tornando-se mestre da mesma que, posteriormente, passou para seu filho Miguel e desde a sua morte em 2008 a banda está a cargo de seu filho Domingos.

O grupo é um patrimônio da cidade e da região. Mestre Miguel recebeu em 2004 o título de Mestre da Cultura Popular do Ceará, concedido a mestres que detêm conhecimentos da tradição popular do estado. Apesar de mais de cem anos de existência e atuação na região do Cariri, do título de Mestre da Cultura concedido a Mestre Miguel e sua fama na região, a banda, assim como as demais da região, ainda carece de políticas públicas culturais e mais atenção por parte da Academia e dos demais segmentos da sociedade.

A resistência

Atualmente, mesmo estando esvaziada e com um número reduzido de festas, a renovação de santo ainda é marca da religiosidade popular no Cariri e no Nordeste em geral, sendo a banda cabaçal um dos pilares para que este rito ainda permaneça frente às adversidades da modernidade. As bandas sobrevivem a muito custo e dedicação de seus mestres, pois, como falado anteriormente, ainda não há políticas públicas que os contemplem. Os grupos mantêm-se apenas por pequenas ajudas que recebem nas renovações, na maioria das vezes não recebem nada por estas apresentações, e quando contemplados por algum edital. Mas ainda é insuficiente para "viver de cultura", como gostaria Mestre Domingos Faz um pife ali e outro para tentar com a venda algum dinheiro. Não possui emprego e renda fixa, sobrevivendo com alguns trabalhos como pedreiro ou eletricista. Mesmo assim, Domingos não pensa em parar a tradição.

FIQUE POR DENTRO

Sobre a cultura: significados e importância
Cuche (1999), afirma que a cultura permite ao homem não só adaptar-se ao meio, mas também adaptar este a si próprio, as suas necessidades e aos seus projetos, ou seja, a cultura torna possível a transformação da natureza. Fávero (1983), em suas palavras corrobora com o pensamento de Cuche quando afirma que o homem assume a "posição de sujeito da sua própria criação cultural, de operário consciente no processo histórico em que se acha inserido" (FÁVERO, 1983: p. 23). Desta maneira, entendemos que é possível perceber o sentido que um expressão artística tem para a vida social ao seu redor, entender seus significados e importância. O sentido de uma expressão estética está na dimensão da experiência social, m seu contexto e em seus próprios termos. As manifestações populares são uma forma de pensamento, uma expressão do homem, constituída de significados e que são, assim, compartilhados socialmente.

Trechos

TEXTO I
Os dois pifes tocam a melodia em movimento paralelo, com intervalos de terças, às vezes sextas, e, de passagem, uma quinta. Os zabumbas marcam o ritmo da melodia, podendo, um deles, ser substituído por um taró (CASCUDO, 2000: p.85).

TEXTO II
Como prática musical, compreendemos o complexo conjunto de formas e conteúdos expressos através de uma linguagem musical que envolve elementos sonoros, corporais e mentais, presentes no fazer musical, na percepção e concepção musicais e na concepção de mundo que informa a vida destes indivíduos, seu modo de viver, pensar e sentir, construída no processo de suas relações culturais (VELHA, 2008: p.18-19).

Sidney Monteiro Junior*
Especial para o ler
*Pesquisador da Cultura Popular