Sonho de um dia em Giverny

A contemplação das obras de arte invade intensamente o íntimo do ser, provocando estranhamento

Ler

Deus existe! Esta foi minha exclamação ao adentrar no jardim de Monet, naquela abençoada manhã de um Outono que se anunciava, numa explosão de cores douradas. Tudo que parecia surreal e ao mesmo tempo palpável estava acontecendo em tempo real diante dos olhos de uma mortal, cujo o sonho transcendeu a realidade daquele momento quase divino.

Eu declinara da visita do Louvre; daquela vez escolhi passar o dia inteiro mergulhada naquele cenário emocionante onde viveu o meu ídolo, a meu ver o maior pintor do Impressionismo. Teria dito ele que "alguém só poderia ser considerado um grande artista, quando pintasse o seu próprio jardim". Talvez sem pretensão, Claude Monet passou a registrar em telas e ângulos espetaculares de seu desorganizado, selvagem e romântico habitat domiciliar, recluso na propriedade alugada e depois adquirida nos arredores, onde fincou residência até seus últimos dias.

Alumbramento

Como que a delirar, cheguei a retirar meus óculos, para ter a sensação da avançada cegueira que já o atormentava e que alguns creditavam ao seu estilo borrado de registrar o que quase já não via tão nitidamente ao final. Emoções invadiram - me nos mais contraditórios sentidos. Iam e vinham sem que pudesse controla-las, num surto de lembranças; do quê? Não sei. Porém senti saudades, de tudo e do nada que vivi. Como esta palavra maravilhosa só existe na língua portuguesa, talvez eu pudesse dizer nostalgia? Mas foram sensações invasivas, estranhas. Ora me sentia parte daquilo tudo a minha frente, ora ia para tão distante que não percebi a fome de um dia inteiro sem comer, nem o frio que já me enregelava músculos e nervos.

Tudo tornou-se uma massa disforme de arrepios, lágrimas e suores que eram a única ligação entre o físico e o espiritual; e eu estava naquele lugar, completamente obnubilada pela grandeza da obra de um gênio, ao qual eu admiro a tal ponto de quase não poder distinguir entre a fantasia a e realidade. Foi mágico! Fotografei tudo num afã extraordinário, sem cansaço ou outro incômodo qualquer que não fosse o mais puro deslumbramento.

Acho que não entrei em transe somente porque tocava em tudo que estivesse ao meu alcance, inclusive os punhados de terra onde brotavam as plantas mais perfeitas que eu jamais vira nos meus sessenta e "poucos" anos de vida... Caminhei, caminhei entre salgueiros chorões, lagos espelhados, pontes e pés carregados de framboesas rubras, glicemias, dálias e amores - perfeitos. Um delírio!

Uma ressaca de verde e flores conduziu-me ao ápice dessa experiência: o interior da casa/museu onde tudo transmite o espirito do dono da casa. O mobiliário original, retratos de família e telas do artista por todos os cômodos. Na cozinha faiscavam panelas de reluzentes cobres, enormes tachos que quase remetia ao cheiro dos doces e geleias de frutas da região da Normandia. Na sala de estar, lá me encarava uma linda foto de Monet em preto e branco realçando uma longa barba e o inseparável chapéu que tão bem o caracterizou. Caminhar por cômodos e corredores percorridos por ele, um ícone do Impressionismo, me provocou uma invasão de arrepios que me alcançaram a alma e me penetraram as entranhas.

O sol já mudara de posição, já era tardinha, e voltando ao jardim como qualquer vivente sentimental, ocupei o banco de madeira onde forram criadas obras de enorme envergadura como: O lago das ninfeias, O salgueiro chorão, A ponte japonesa, O jardim do artista em Giverny, Mulher com sombrinha; representando sua filha Suzane, numa pose de sua primeira mulher Camille que que ele havia uns dez anos antes. Em mulheres no jardim usou a amante Camille, mais tarde sua esposa, como modelo para as quatro mulheres.

Já exausta, sentei-me nos degraus de saída da casa, como se voltasse à realidade, comi uma barra de chocolate e com o equilíbrio provocado pela endorfina, calmamente conclui que tinha feito contato com os princípios de Baumgarten, Kant, Jung, Freud e demais filósofos envolvidos com a Estética. Não tenho condições de relacionar todos mas, tenho certeza que naquele lapso de tempo vivi sensações, intuições, fantasias, transe, torpor, surtos psicóticos como já começam a atingir-me agora. Por isso, tenho que parar por aqui senão vou fugir para outra dimensão.

FIQUE POR DENTRO

Características gerais da pintura impressionista

O movimento impressionismo, ocorrido na Europa no século XIX, teve, como primeira manifestação, a obra "Impressão, nascer do sol", de Claude Monet, datada de 1872. Dentre seus postulados, destacam-se a importância da incisão da luz do sol sobre os objetos e os seres pintados; a verdade do impressionista é a verdade de um momento; desse modo, as figuras não devem apresentar contornos nítidos, uma vez que o desenho não é mais o elemento-chave do quadro, mas, sim, as manchas; as cores complementares fundam os contrastes de luz e sombra. Por conta disso, a cor de um amarelo próximo a uma tonalidade violeta provoca um efeito muito mais real do que um claro-escuro cultivado, por exemplo, pelos pintores barrocos. A luz e o movimento utilizando pinceladas soltas tornam-se o principal elemento da pintura, sendo que geralmente as telas eram pintadas ao ar livre para que o pintor pudesse capturar melhor as variações de cores da natureza.

Luiz de Marilac Rodrigues
Especial para o Ler