Sobre a tralha grega de Natalício Barroso

A humidade, de há muito, palmilha as terras do insólito, como forma de compreensão do inefável

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Havia muitos e muitos anos, gigantes, monstros, seres descomunais, horripilantes habitavam a Terra. Não ainda os dinossauros. Sim, estes vieram muito depois, descobertos (seus restos) por escavadores, arqueólogos, cientistas. Os gigantes já viviam na memória dos povos primitivos e de seus netos, os habitantes de cavernas. (Terão mesmo humanos vivido em cavernas?) Pensemos em casas de pedra. Tudo por precaução. Afinal, os coitados temiam a visita daqueles entes esquisitos, que falavam, voavam, apareciam e desapareciam, sem explicação. Além deles, rondavam suas vidas feras esfomeadas e serpentes venenosas. Polifemo, o de um só olho, devorava homens. Segundo Homero e Natalício Barroso, o bicho chegou a comer seis companheiros de Ulisses. Essa comilança teria deixado muito irritado o herói grego. No entanto, como enfrentar aquele pastor de cabras tão singular, qual seja, aquele "gigante descomunal"?

Da vivência com esses deuses, surgiram os mitos e, deles, algumas das mais admiráveis e copiadas obras literárias da humanidade: Ilíada, Odisseia e outras tralhas gregas. Depois vieram os romanos (o Império Romano, aquele do qual Jesus Cristo teve conhecimento na pele). Anos depois, os latinos do Lácio, também crentes de divindades, passaram a adorar um Deus (o dos cristãos) e então a História se complicou de vez. Aliás, dois deuses: o pai e o filho. O pai, Javé, dos hebreus; o filho, Jesus, o crucificado e predecessor da nova religião, baseada na antiga.

Os múltiplos caminhos

É desse mundo e desse tempo (ou desses mundos e desses tempos) A tralha grega e outras tralhas, de Natalício Barroso. Recriação, se não quisermos falar em sinopse ou síntese das mitologias greco-romanas e judaico-cristãs. Sim, Natalício Barroso se deu o trabalho hercúleo de fazer o roteiro de algumas das principais obras literárias antigas (de diversas épocas), em linguagem fluente e moderna (ou pós-moderna), sem deixar de ser literária. Sem milagre, acomodou, no espaço de menos de 50 páginas, três obras clássicas da Antiguidade (as gregas Ilíada e Odisseia e a romana Eneida). Deu enorme salto até pouco depois da queda do Império Romano, chegou ao Renascimento e se deteve na intrigante Divina Comédia, de Dante Alighieri.

Perguntemos: é possível resumir poemas épicos e romances? Não, não é. E composições líricas, contos, novelas? Não é concebível abreviar obra de arte, literária ou não. Imaginemos escultor (ou desescultor) decidido a reduzir a um décimo a obra conhecida como O pensador, de Auguste Rodin (aliás, denominada originalmente O poeta e consagrada a Dante). Desse trabalho resultaria resumo da peça famosa? Não. Nada (como obra de arte) poderia advir dessa loucura. Talvez apenas outra pedra polida.

Imaginemos a dificuldade encontrada por Natalício, ao sintetizar, em menos de 30 páginas, as informações contidas na Divina Comédia. Ora, o gênio italiano (não existia a Itália como é hoje) passou quatorze anos a modelar o poema, formado de 14.253 versos. Dividido em três partes (Inferno, Purgatório e Paraíso), deveria ter sido queimado pela cúpula cristã. Pois Celestino, um dos primeiros personagens avistados pelo poeta no Inferno, exercera o cargo máximo da Igreja Católica. Sim, povoava o Inferno, no tempo de Dante, gente sabida como a de hoje, metida em palácios, vestida a rigor e temida por gregos e troianos. Homens de muitas posses: ouro, euro, dólar e outras moedas de grande valor.

Ainda na Europa, dedicou-se Natalício também ao português Camões e seus Lusíadas (as peripécias ou histórias de pescador de alguns navegantes lusos, desde a origem do reino de Portugal até a descoberta da América). Da península Ibérica passou à terra dos antigos celtas e encontrou o poeta John Milton (o inglês do Paraíso Perdido ou Paradise Lost, publicado pela primeira vez em 1667). Buscou um recriador de mitos no território da futura Alemanha e deu de cara com o gênio Goethe (só queria relembrar o mito do famoso doutor Fausto ou Georg Faust, supostamente nascido no século XV). O leitor novo ficará sabendo muito desse homem inquieto, capaz de vender a própria alma ao diabo. Além disso, saberá do trabalho dispendido pelo escritor alemão, a fim de recriar o personagem lendário. Natalício informa: "Há quem diga que Goethe passou sessenta anos escrevendo esse livro". Johann Wolfgang von Goethe viveu entre 1749 e 1832.

Dos textos

Na primeira parte da coletânea, ele se empenhou a contar a chamada Guerra de Troia e a Guerra de Eneias. Quem tem conhecimento, mesmo reduzido, desses episódios, desses fatos ou dessas lendas, irá se sentir de novo frente a frente com personagens muito especiais: Aquiles e Agamenon, Páris e Helena, Menelau e Telêmaco. Ora, aí se inicia propriamente a guerra. Quiçá a parte mais estimulante da história grega: Ulisses e Penélope. Quem não se lembra dela, o dia todo empenhada a tecer sudário para Laerte, pai de seu marido? E o cavalo de Troia, aquele presente deixado às portas da cidade, recheado de soldados armados (a maior armadilha da História, copiada ao longo dos anos por estrategistas de todos os impérios)?

A linguagem de Natalício não é exatamente apropriada a jovens ou semianalfabetos, embora não seja apurada, a ponto de agradar a leitores antigos ou afeitos a antiguidades. É corriqueira, quase a beirar o coloquial ou o linguajar urbano das camadas menos dadas à palavra escrita. Quando muito, se assemelha à dos jornais e meios de comunicação de massa mais avassaladores (sobretudo, a televisão).

FIQUE POR DENTRO

A presença do mitológico na arte

As mitologias greco-romana e judaico-cristã há anos têm servido de entretenimento público: do teatro grego ao medieval, do renascentista ao pré-capitalista, até o surgimento de Hollywood, com os épicos de Cecil B. DeMille: Os dez mandamentos, Sansão e Dalila, Cleópatra etc. Hoje, início do século XXI, o cinema deixou de lado os mitos antigos e se apegou ao Superman, aos X-Men, ao Homem-Aranha (Spider-Man), nascidos em revistinhas ou tiras, e até criou heróis adolescentes (Harry Potter, dos romances de J. K. Rowling), além de dinossauros e extraterrestres (Steven Spielberg). Tudo isso pode ser visto em desenho, animação, computador, em três dimensões. Os meninos de hoje não saberão quem terá sido Ulisses ou onde ficava Cartago. Já são tralhas, cacarecos, coisas velhas e sem valor. Apesar disso, a editora Smile apostou nelas e em Natalício. Afinal, o mercado poderá sofrer reviravolta e todo o passado grego, troiano, romano, medieval voltar à tona, vir à baila, ressurgir. Se tudo é cíclico, por que não crer em novo ciclo?

Nilto Maciel
Especial para o ler*
Ficcionista, cronista e ensaísta