Singularidades de um universo ficcional

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Do mesmo modo que o discurso e representações de ciências como da física e biologia e seus respectivos sensos populares sobre a origem do universo são tomados, reconstruídos e destruídos, o da história também: (Texto II)

Alferes Brandão Galvão, personagem histórico-folclórica da história da independência do Bahia, marco que contribui também para independência do Brasil, é representado tradicionalmente pela história conservadora como um mártir, símbolo da luta heroica pela independência da nação brasileira. Um quadro antigo desenha-o de tal forma: "O Alferes Brandão Galvão Perora às Gaivotas"

O ponto de partida

João Ubaldo Ribeiro satiriza as práticas conservadoras de criação de mitos históricos e heroicos, a fim de louvar atos tidos nacionalistas, como imponentes e colossais. A final, segundo afirma na epígrafe do livro, João Ubaldo Ribeiro: "o segredo da verdade é o seguinte: não existem fatos, só existem histórias".Quando do início da narrativa, escreve o seguinte: (Texto III)

Fica evidente que Ribeiro dá voz à corrente da história crítica que problematiza representações tradicionais dos manuais e discursos consagrados. Por força disso, novamente há a desconstrução e reconstrução, no movimento estilístico que oscila entre e enlaça a ordem e o caos, fundadores da criação poética nesta obra.

O anti-discurso da anti-história, tudo isso numa anti-linguagem, instaura nova teias de sentidos que são reverberadas em várias direções e relações discursivas ressignificando e dessignificando muitas representações tradicionais. Estabelece-se, por conseguinte, um novo discurso de onde o texto literário de Ubaldo Ribeiro é potencializado. Por isso, podemos afirmar que a metáfora de tudo no universo coexistir num momento primordial, numa concentração de energia formidável, a qual, por uma explosão admirável, extraordinária e espantosamente fascinante, fez existir aquele mesmo tudo, que existia e não existia, ao mesmo tempo, ou melhor, quando não havia o tempo nem espaço, paradoxalmente, nada, em comparando com o momento singular da criação literária; esta metáfora reveste, com singular propriedade, estas palavras de João Ubaldo Ribeiro, ao criar este universo de significações que dialogam e (re) constroem-se, destroem e criam com uma força poética de um universo em expansão.

A voz da crítica

Paulo Soriano, conterrâneo e crítico literário de João Ubaldo Ribeiro, comenta sobre o livro que: (Texto IV)

Luciana Netto de Sales, coordenadora do curso de Letras do Centro de Ensino Superior de Juiz de Fora e professora de Teoria da Literatura e Literatura Brasileira expõe que é um romance polêmico: (Texto V)Em tese de mestrado, Carlos Eduardo Vieira Silva assim explica o romance dentro da amplidão dos temas abordados nos diversos capítulos: (Texto VI)

Trechos

TEXTO II

"E, na verdade, a almazinha que ficou tanto tempo desconsolada e errante depois que, ainda tão verde e indefesa, se viu obrigada a abandonar o corpo do Alferes Brandão Galvão, não era originalmente uma alma brasileira, pois é muito difícil que as almas se destinem a nascer somente numa nacionalidade qualquer, ou venham a apegar-se a alguma. No caso dessa, tudo começou, como tantos eventos importantes, por obra do acaso. Quando, fortuitamente, o Poleiro das Almas está repleto de almazinhas recém-nascidas, a agitação febril de tantos jovens ansiosos pelo aprendizado e pelo cumprimento de suas sinas chega a fazer fibrilar o cosmo e a perturbar um pouco o perfeito funcionamento dos relógios astrais e demais mecanismos

Celestes", (p 17).

TEXTO III

"No quadro "O Alferes Brandão Galvão Perora às Gaivotas", vê-se que é o 10 de junho de 1822, numa folhinha que singra os ares, portada de um lado pelo bico de uma gaivota e do outro pelo aguço de uma lança envolvida nas cores e insígnias da liberdade. Já mortalmente atingido, erguendo-se com um olho a escorrer pela barba abaixo, ele arengou às gaivotas que, antes distraídas, adejavam sobre os brigues e baleeiras do comandante português Trinta Diabos. Disse-lhes não uma mas muitas frases célebres, na voz trêmula porém estentórea desde então sempre imitada nas salas de aula ou, faltando estas, nas visitas em que é necessário ouvir

Discursos", (p 9).

TEXTO IV

"A abertura de Viva o Povo Brasileiro é uma metáfora que sintetiza o espírito do magistral romance de João Ubaldo Ribeiro, uma longa narrativa satírica e não linear que percorre quatro séculos de história do Brasil (1647-1977). Sob a batuta mágica e tranquila de um narrador exuberante, embriagado de fina e envolvente ironia, tem-se muito mais que a costura de um mosaico. O romance de João Ubaldo é, essencialmente, um retrato de um protagonista só. Todas as personagens, por mais díspares e inconciliáveis que possam parecer, se fundem e se confundem. No tumulto e na torrente dos séculos, formam (ou deformam) apenas uma única pessoa: o povo brasileiro, engendrando e construindo a própria personalidade, da qual João Ubaldo Ribeiro é um biógrafo fiel, e, ao mesmo tempo, um simples observador, cínico e bem-humorado",(p 1).

TEXTO V

"De acordo com Flora Sussekind, em resposta à pergunta formulada por Leia em setembro de 1986 ("Há romance no Brasil?"), esta obra refletiria o espírito da Nova República, trazendo um teor populista e propondo uma visão maniqueísta da sociedade brasileira. Donaldo Schüler, por sua vez, acha que Viva o povo brasileiro instaura a carnavalização, estabelecendo a polifonia; já Luís Fernando Valente acredita que o romance tem a intenção de recontar a História. Discussões à parte, Viva o povo é, sem dúvida, um trabalho minucioso de revisão dos relatos históricos brasileiros. Recusando o discurso "oficial", João Ubaldo Ribeiro tenta resgatar a voz daquele que nunca pôde falar, daquele que sempre teve de ocultar a sua versão

Dos fatos", (p 1).

TEXTO VI

"A grande quantidade de interpretações que a obra possibilita. Analisamos uma obra produzida na periferia da modernidade tardia, que reflete e discute questões contraditórias dela. É a procura pela nação que já se quer global quando ainda nem é uma nação, é uma espécie de resgate do que ainda não foi nem deveria ter sido. Apresenta um mosaico de estilos e gêneros costurados na forma de romance. Está inserida numa tradição literária que tem no nacional sua maior conexão. Questiona e ao mesmo tempo reforça essa tradição." (p 99).

SAIBA MAIS

HARVEY, David. A condição pós-moderna. São Paulo: Loyola, 1992

RIBEIRO, João Ubaldo. Viva o povo brasileiro. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984

SILVA, Carlos Eduardo Vieira. Viva o povo brasileiro: modernidade tardia, formação nacional e o sistema literário em discussão. Brasília:

UnB. 2011