Sertão mítico

O mítico das vivências sertanejas ganha a arena do Teatro Sesc/Senac Iracema no espetáculo “Encantrago - Ver de Rosa um Ser Tão”, em cartaz até amanhã

A cultura popular é evocada pelas cantigas de roda, cirandas, cocos e outras sonorizações, feitas ao vivo pelas trupes que se uniram o Expressões Humanas e o Grupo Teatro Vitrine. Um cenário de vida e de morte onde a Grande Mãe (Gaia, Oxum) está em seu centro, conferindo o sentido da existência humana, por isso mesmo, contraditória, o tempo todo permeada pela presença de Eres, o Deus mitológico da discórdia, do caos estabelecido pelo homem. No palco de arena do Sesc/Senac Iracema, até 120 pessoas participam, junto a eles, da construção deste universo, engendrado pela diretora Herê Aquino, sob a inspiração dos contos “A Menina de Lá” e “A Hora e a Vez de Augusto Matraga” e do romance “Grandes Sertões: Veredas”, de Guimarães Rosa.

Segundo a diretora do Expressões Humanas, seu texto apenas “bebe em Guimarães, cuja escrita não traz só o sertão geográfico, mas o sertão humano”. Quer dizer, não interessa o sertão por seus estereótipos, mas por seus aspectos mais humanos, por isso mesmo, míticos. “Não de forma dicotômica, mas como elementos da natureza humana, como elemento épico e de ação dramática”, ressalta. E complementa: “É em cima disso que a gente se aprofunda. E da ritualização no teatro, o sagrado e o profano, buscando uma suspensão do tempo cronológico, desse estar presente em um local que não é somente o teatro, mas este sertão nordestino, este sertão brasileiro, este sertão humano”.

Capiaus, Inhazinhas, Nhôs, jagunços. Os narradores-personagens vividos por João Paulo Pinho, Marina Brito e Nataly Rocha, do Expressões, e ainda Annalies Borges, Juliana Veras, Liliana Brizeno, Paiva Filho e Soares Júnior, do Grupo de Teatro Vitrine, convidam o público a participar da montagem, em vários momentos. “A idéia é que mesmo quando eles estejam assistindo, eles estejam dentro do espetáculo. Não existe um limite entre o público e a montagem”, enfatiza Herê. Uma construção que se dá entre vários ritmos. “ É quase uma ópera nordestina, esta força da música que é o que faz também ter mais proximidade com o público, todos cantando juntos”.

Sertanejo público

A interação possibilita mudanças no modo de ver a realidade do ser sertanejo. “Geralmente se pensa no sertão como seca, mas a gente trabalha com a complexidade do homem sertanejo brasileiro. Tem esta miséria, sim, mas a fantasia é a forma dele lutar contra isso, de estar presente enquanto identidade, enquanto povo”. Assim, sons, cantados e tocados pelos atores, remetem à natureza, à natureza humana. Eles e o público vivenciam, assim, a própria linguagem teatral. “Perpassando não só o racional, mas o corpo, através de sensações evocadas pelo efeito do facho de uma lamparina, por exemplo. Ou de uma procissão, um leilão”, complementa Herê.

Uma estrutura que usa menos a própria narrativa do indizível da obra do escritor mineiro do que a nossa cultura popular, entre elementos do reisado, da dança do pau de fita, pernas de pau... Os estudos do grupo vinham se voltando também para o Caldeirão da Santa Cruz do Deserto, em Crato. A opção por Guimarães acabou retendo, naturalmente, aspectos daquela montagem reservada para algum recanto do futuro. Com o aval do público. “A recepção tem sido muito boa. Ouvi depoimentos de pessoas que se sentiram naqueles locais, Fortaleza tem muita gente que tem origens no interior, e o espetáculo como que carrega este universo”. Na essência do teatro, da própria literatura roseana e do ser sertanejo.

Mais informações:
Apresentação do espetáculo ´Encantrago - Ver de Rosa um Ser Tão -, do Grupo Expressões Humanas e Grupo de Teatro Vitrine. Hoje e amanhã, às 20h, no Teatro Ses/Senac Iracema (Rua Boris, ao lado do Centro Dragão do Mar). Ingressos: R$ 10,00 e R$ 5,00 (meia).


HENRIQUE NUNES
Repórter