Regine Limaverde: a força do lirismo

O livro "Canção do amor inesperado", de Regine Limaverde, comporta, antes de tudo, as forças da vida e do amor

Ler

Algumas mulheres nascem com o dom de provocar em nós a sensação de algo ilimitado. Elas penetram em lugares reservados, para o inapreensível e nos ajudam a transpor ambientes mágicos e subjetivos.

São feiticeiras das palavras, sereias que nos aprisionam com a musicalidade do jogo que transforma linguagem em poesia, fadas e magas que revelam mistérios e êxtases poéticos. Musas que falam de si e de todos nós. Tais sensações evolam-se de poemas como "Dupla lição": (Texto I)

Regine Limaverde é uma dessas mulheres privilegiadas e não é por acaso que, neste novo livro "Canção do Amor Inesperado", seus versos celebram sem reservas a vida e o amor de forma exuberante.

Dos labirintos

Percorrer as páginas de um livro, mais ainda quando este se trata de uma reunião de poemas, à semelhança de quem apresenta ao público esse mesmo livro, é quase uma cerimônia de encantamento em virtude da magia que lhe é inerente. E há quem diga que basta não ser insensível à magia para que ela aconteça...! O encantamento que se segue é destinado a provocar nos leitores, um repentino e profundo despertar motivado pelos sentimentos e ideias contidos neste livro. Tarefa difícil, tão difícil quanto aceitar o desafio de fazê-la!

A abertura

Considero desnecessário me deter em dados biográficos ou bibliográficos sobre Regine Limaverde. A pessoa e a obra já foram anteriormente reverenciadas por seus pares com a imortalidade. Quanto à análise formal, esta é uma função que eu sei ser incapaz de cumprir. Resta-me então, falar como uma leitora comum que se deixou capturar pelo feitiço das palavras da autora. A partir do título, "Canção do Amor Inesperado", Regine Limaverde antecipa que fez as pazes com a vida e que, assim, mais uma vez, seu ser palpita em sincronia com os seus sentimentos: (Texto II)

Um belo movimento interno que só é alcançado por aqueles que guardam na lembrança o registro de uma vida amorosa, plena e satisfatória, consoante os versos que compõem o poema "A imagem revelante": (Texto III)

Regine Limaverde deixa transparecer em cada verso a euforia de ser a mulher amada, aquela que desfruta o prazer propiciado pela sedução e a conquista. Se une a várias vozes femininas que conquistaram no grito, os seus próprios corpos, abrindo caminho para que hoje, nós mulheres, vivenciemos nossos desejos sem culta e sem medo, conforme os versos de "Pomar": (Texto IV)

No prefácio deste livro, a escritora e imortal Lourdinha Leite Barbosa tece, acerca do erotismo, considerações pertinentes, observando que, ao longo desta obra, o "desejo de prazer sensual" perpassa-lhe as páginas, tanto na direção do implícito, quanto no caminho do explícito. Ressalta, ainda, em sua análise, que, nos poemas, os sentidos - tato, visão, olfato, audição e gustação - "possuem um intenso valor erótico" - desembocando numa intensa rogação. Por fim, recorrendo a Bataille, Lourdinha Leite Barbosa nos lembra que "a poesia, da mesma forma que o erotismo, conduz à indistinção, à fusão dos objetos distintos e à eternidade, à morte" - desta, parte em direção à eternidade.

FIQUE POR DENTRO
Singularidades do discurso literário

A complexidade é que estabelece a fronteira entre o literário e o não literário: neste, estabelece-se um relacionamento imediato com o referente; naquele, por conta de inusitadas alianças entre as palavras, imprime-se o estranhamento, pois ultrapassa os limites do decodificador. Sendo a literatura uma arte, seu instrumento é a palavra, quando esta atinge um alto grau de significação. Por apoiar-se, em primeira instância, na crença de que a literatura é uma atividade intencional e finalística, é que a caracterização da linguagem literária é um fenômeno autônomo. Tal deliberação implica a busca incessante pela estética, daí suas especificidades. No caso do livro em análise, assoma, com toda força, a presença do lirismo, isto é, da projeção do eu, dos sentimentos, das sensações individuais. Predomina a função emotiva da linguagem, uma vez que o "eu" é o centro do discurso.

Trechos

TEXTO I

A primeira grande lição / é memorizar tuas pausas / silenciosas / e decifrá-las / como uma aquiescência / ao nosso duplo caminho. /// A segunda grande lição / é questionar-me / se vale a pena / uma viagem tão longa / carregada de uma pesada / bagagem - tua inconstante presença. (p.39)

TEXTO II

Para você que cortou a minha dor / Que me trouxe paz, alegria e canto / Com muito encanto / Fiz pra você / Esses cantos de amor."

TEXTO III

Não me reconheço na imagem / que vejo / no fundo da superfície prata. /// Não me vejo fruta madura, / sendo minha alma verde. / Derramo sorrisos para quem / a sorrir me olha. / Deveria fechar-me ao mundo, / por cadeado nos olhos. /// Por que ainda busco o que já tive? / Saudades de um passado de rainha? (p. 29)

TEXTO IV

Mastigo tuas palavras. / São frutos doces / ao meu paladar. / Ao falares, / de tua boca poderiam escapar: / romãs, morangos, ciriguelas, / tangerinas e uvas. /// Boa noite, meu pomar! (p. 69)

Bia Jucá
Psicóloga
Especial para o ler*