Reflexões e especulações sobre o ator espontâneo

Nas artes cênicas, deparam-se singularidades na relação do ator com a representação

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Quando falamos do ator espontâneo, remetemo-nos a essa pessoa que pratica a arte da representação sem preocupar-se com conceitos teóricos e estéticos. Ele busca satisfazer seu desejo de expressar-se como ator, por meio de seu corpo. Apontamos essa manifestação como uma necessidade primordial de todo ser humano e situamos o corpo deste ator como fronteira do seu processo criativo. A partir do momento que ele estabelece seu físico como elemento criativo, traça ai uma relação direta e imediata com as outras formas artísticas. Esse ator usa seu corpo como meio de comunicação, assumindo um signo teatral. Percebemos em nossa investigação que em diversas apresentações, ele esquece a voz e dá margens ao corpo, como elemento maior da sua expressão. Assim, concordamos com o teórico Jorge Glusberg (2003, p. 76) quando este afirma que o uso do corpo como manifestação expressiva da linguagem corporal, retoma a história do homem: "Na nossa cultura, o corpo se tornou tão natural que nós não reconhecemos um gesto como um ato semiótico, nós o tomamos simplesmente como um ato do dia-a-dia".

Da performance

Observando com delicadeza, constatamos que, nesse ator, concentra-se a célula da performance, pois é um artista que contesta tudo que está posto, permitindo e praticando uma arte livre de quaisquer conceitos e regras que venham a enquadrá-lo em uma teoria teatral, mesmo assim podemos identificá-lo em movimentos ideológicos. A performance está embasada em três pilares de sustentação que dão ênfase ao seu trabalho de ator, destacando-se a plateia, o texto (escrito ou não) e o ator performático. É possível imaginar que o ator espontâneo esteja atrelado aos espetáculos de improvisação.

O ator espontâneo experimenta, vivencia e a ele agrada o processo da montagem, pois, para ele, o que importa é o que se passa no processo da montagem, as diversas mudanças. Se esse ator carrega, em seu corpo, as referências de sua representação, podemos dizer que suas ações físicas são o momento em que ele passa a dar importância aos seus instrumentos físicos e concretos, que permitem a construção de sua cena.

Esse conceito de ações físicas foi desenvolvido e comprovado por Constantin Stanislavski, quando se refere aos recursos físicos necessários ao bom desempenho do ator. Quando nos remetemos a Stanislavski e sua teoria sobre as ações físicas, estamos recordando que sua importância se traduz na capacidade de introduzir o ator as suas percepções e sensações, pois se acredita que dessa forma, o ator possa desencadear suas emoções com mais consciência, permitindo vida à cena e ao personagem, com seu físico.

As referências físicas

Quando partimos para a compreensão da fisiologia do corpo, não o compreendemos somente com suas funções concretas, que se situa no campo social e político. O ator não necessita conhecer, com precisão técnica, o seu físico, mas usa referências físicas que podem defini-lo e auxiliá-lo na construção dos personagens, quando percebem seu peso, temperatura, forma e sonoridade. São informações que contemplam o seu corpo, conscientizam-no da sua prática e a referendam, permitindo assim que perceba seu corpo físico, quanto personagem. Quando ele reconhece suas possibilidades e aceita seus defeitos e virtudes, nesse sentido, ele está admitindo as informações e os dados referentes ao corpo. Seu corpo não se trata de um elemento a mais, mas, sim, um componente da comunicação. A interferência de fatores externos que inibem sua composição física são questões sociais, políticas e históricas. Esse corpo traz as influências de sua sociedade e assume postura diante dos temas por ele instigados. Seu corpo espontâneo está sempre em processo, em construção e elaboração de sua proposta física.

A voz dos gestos

Com características de um corpo que se identifica com o coletivo, ele passa a ser reconhecido pelas suas peculiaridades. Um corpo que cria, elabora sua arte, incentiva a liberdade de ação, foge das interpretações grandiloquentes, esquiva-se dos clichês e personagens fechados, pois sua construção trata-se de uma obra aberta ao processo coletivo. Esse mesmo corpo incentiva a reflexão, questionamentos e desperta sensações, possibilitando a criação de um pensamento inquieto e polêmico, permitindo a ação dramática e o movimento físico, de forma orgânica e interna.

Não podemos, assim, falar da expressividade do corpo do ator sem citarmos Etienne Decroux e sua mímica corporal, com o objetivo de estruturar os conceitos físicos para o novo ator, considerados por ele como um ser integrado, dono de seu corpo como instrumento e ferramenta para seu bom desempenho. (DECROUX, 1994, p. 76).

FIQUE POR DENTRO

A expressividade da linguagem corporal

Decroux nos diz que as ações físicas representam a linguagem teatral de sua expressividade física, quando de modo meticuloso e elaborado, esse ator é capaz de trabalhar a energia nesse corpo preparado para a explosão. Conhecendo seu corpo e trabalhando seu domínio, o ator será capaz de conviver com as oposições necessárias para a prática teatral. A oposição para o físico do ator está referendada pelas forças contrárias, capazes de ativarem o tônus muscular, estabelecendo tensões. Em harmonia com as ações físicas, o ator desenvolverá seu físico de modo que não se torne apenas uma máquina apta a responder a qualquer comando, mas seja capaz de estar atento às suas sensações, pois a ação física somente se completará na sua intimidade criadora. Essa busca interior estará intimamente ligada à capacidade de manipulação dessas emoções, quando usa as atividades cotidianas e as transforma em ações extras cotidianas, introduzindo energias à musculatura, assim traduzindo-se em presença cênica. Identificamos o ator espontâneo como sendo o ator criador, que tira de si, os componentes para estruturação de seu personagem. Para construir seus espetáculos, esse tipo de ator funde os elementos cênicos e relaciona-se com eles como unidade do espetáculo.

Paulo Ess
Pós-Doutor em Estudos Culturais

Especial para o Ler*