Realismo-Naturalismo: singularidades do discurso na prosa dos ficcionistas

Estéticas do século XIX, o Realismo e o Naturalismo estabelecem entre si vasos comunicantes

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A partir da segunda metade do século XIX, o desenvolvimento científico e o avanço tecnológico contribuem para a vitória definitiva do capitalismo industrial sobre o mercantil, consolidando, dessa forma, a ordem burguesa. A aristocracia feudal e a Igreja já não mais detêm o controle sobre os fatos políticos. As ciências passam a fornecer as bases para a compreensão e a explicação da vida, principalmente a partir da Física, da Química e da Biologia. As doutrinas científico-filosóficas (Positivismo, Evolucionismo e Determinismo) eliminam quaisquer postulados metafísicos no estudo dos fenômenos sociais, materiais ou psicológicos.

Objetividade

O Realismo-Naturalismo implica a produção artística desenvolvida nesse período, refletindo, em suas mais diversas manifestações, o novo quadro social, derivado do desenvolvimento dos centros urbanos, da industrialização, do confronto entre burguesia e proletariado. No Realismo-Naturalismo, o artista, à semelhança de um cientista, compreende o real como algo que só pode ser captado a partir dos sentidos, constituindo a arte a reprodução fiel do que foi observado e, consequentemente, analisado por seu criador. Na escapa a seu olhar perscrutador, preso ao mínimo (Trecho I)

Obejetividade

Fugindo ao subjetivismo romântico, (uma vez que neste se evolava a valorização do intimismo, do particular, das atitudes individuais; a visão de mundo é formada a partir do eu do artista, daí o tom confessional; a emoção supera a razão, o sentimento é o fio condutor da existência, é o que atribui sentido à vida) o artista do Realismo-Naturalismo preocupa-se em apreender, segundo observação e análise, o retrato exato das manifestações do real; seu compromisso é com a verdade, daí a descrição objetiva da realidade, considerando da maior importância qualquer detalhe. Trata-se, portanto, de um universo de seres e de coisas, captado, essencialmente, a partir dos sentidos, com o privilégio da metonímia e dos jogos sensoriais: (Trecho II)

Impassibilidade

Diante do fato narrado ou da cena descrita, o artista, na prosa realista ou naturalista, tem que se comportar com neutralidade, não podendo confundir seus sentimentos com o das personagens, ausentando-se, por completo, do texto. Por conta desse princípio de construção ficcional, o ponto de vista externo, isto é, a terceira pessoa, era largamente utilizado, visando, com tal estratégia, impedir a contaminação da trama com as emoções do narrador. No Brasil, a exceção pertenceu a Machado de Assis, especialmente em "Memórias Póstumas de Brás Cubas", em que o próprio narrador chama a atenção do leitor para que este não se espante com a frieza com que expõe a sua mediocridade, dele personagem, lembrando-lhe detalhe: é um defunto-autor: (Trecho III)

Fique por dentro

As fronteiras entre as estéticas em análise

O Realismo, apoiado na Sociologia e na Psicologia, é preso à documentação, sendo indireto na interpretação da realidade, deixando, muitas vezes, com o leitor a palavra final acerca dos episódios narrados. Sua linguagem é trabalhada; busca a perfeição da forma; e sua crítica social, indireta. Concentra-se nos aspectos interiores da personagem, através da análise psicológica.O Naturalismo, apoiado na Biologia e na Medicina, realiza uma prosa experimental, concentrada nos aspectos crus da realidade. Determinista, vê o homem como um produto do meio, uma projeção do ambiente, com o qual se confunde e de onde não consegue escapar; acredita que cada um traz dentro de si instintos hereditários, que, subitamente, manifestam-se em luxúria, taras, crimes, pois os homens sempre caminham em direção ao vício e às anomalias; por isso, dá preferência a personagens patológicas, a partir das quais realiza uma crítica explícita à realidade social.

Trechos

TRECHO I

Costuma-se distinguir o romance social do romance político; naquele, o elemento coletivo ocupa o prmeiro plano e sua técnica preferida é o contraponto. No romance político, predomina o elemento individual. Daí sua maior unidade temática, pois não pretende apresentar o processo social em sua ebulição. Assim, o romance social enfoca uma tragédia coletiva, não se apoia em personagens principais, enquanto o romance político registra grupos dentro da coletividade e privilegia poucas personagens ou mesmo uma só.(LUCAS, Fábio. O caráter social da ficção no Brasil. São Paulo: Ática, 1987, p. 11).

TRECHO II

No largo da feira, a aglomeração asfixiava em redor das vendas ambulantes de mantimentos, expostos em caixões, sacos, sob os tamarineiros, trapiás frondosos, à sombra de toldos de estopa, manchada de largos remendos variegados. Magotes de crianças nuas, de hedionda magreza de esqueleto, de grandes ventres, obesos e lustrosos como grandes cabaças, lançavam olhares, terríveis de avidez, sobre pilhas de rapaduras, grandes medidas de quarta, desbordantes de farinha e feijão, pencas de bananas, rimas de beijus, alvíssimas tapiocas, montes de laranjas pequeninas e vermelhas, colhidas na véspera, nos pomares murchos da Meruoca. (OLÍMPIO, Domingos. Luzia-Homem. Fortaleza: ABC, 1999, p.90)

TRECHO III

Desde os cinco anos, merecera eu a alcunha de "menino diabo"; e verdadeiramente não era outra coisa; fui dos mais malignos do meu tempo, arguto, indiscreto, traquinas e voluntarioso. Por exemplo, um dia quebrei a cabeça de uma escrava, porque me negara uma colher do doce de coco que estava fazendo, e, não contente com o malefício, deitei um punhado de cinza ao tacho, e, não satisfeito da travessura, fui dizer à minha mãe que a escrava é que estragara o doce "por pirraça"; e eu tinha apenas seis anos. (ASSIS, Machado de. Memórias póstumas de Brás Cubas. In: Obra completa. Vol. I. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1997, p. 526)

Carlos Augusto Viana
Editor