Prisões da alma: romance traz dilemas dos dias pós-cárcere

Carlos Vazconcelos lança, hoje, no Dragão do Mar o livro "Os Dias Roubados", sua estreia como romancista

A parábola platônica da Caverna, onde o "prisioneiro" do mundo de sombras desconhece a luz exterior, é invertida e atualizada para os dilemas da modernidade, sob o olhar do escritor Carlos Vazconcelos.

Carlos Vazconcelos é também autor do livro de contos "Mundo dos Vivos" e media bate-papos sobre literatura no projeto "Bazar das Letras" Foto: Divulgação

Em "Os Dias Roubados", seu primeiro romance, ele mergulha nos dilemas psicológicos de um ex-presidiário, injustamente condenado pelo homicídio da mulher gestante, que vive ainda as sobras da caverna, preso aos dias encarcerados que lhe foram roubados.

O livro foi contemplado no Prêmio de Incentivo às Artes (2011), da Secretaria da Cultura do Ceará, e é lançado hoje, às 19 horas, no auditório do Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura (CDMAC). Além de noite de autógrafos, a solenidade terá recital de poesias assinadas por Carlos Vazconcelos, com participação de Henrique Beltrão, Eudismar Mendes e Rosa Morena.

A análise, anterior, comparativa à Platão, vem estampada na orelha do livro, assinada pelo jornalista Bolívar Fernandez. "Descreve um prisioneiro sem identidade que deixa o covil, encontra as luzes, mas tem quase que nostalgia do seu antigo estado de trevas", atesta Bolívar. Eis a primeira surpresa do livro. Conduzido em primeira pessoa por um narrador desconhecido, a trama revela passo a passo a situação do ex-presidiário e os dilemas pelos quais vem sendo atormentado.

Bolívar - espero que o dado não frustre a leitura de ninguém - é também personagem do livro. O jornalista, pontua momentos chaves da trama e é quem, além da orelha, assina ainda um elucidativo "Relato de Contraponto", que encerra a obra. Fragmentada, a narrativa prende o leitor em torno das pequenas descobertas expostas ou impressas nas entrelinhas da fala de quem narra, dadas ao leitor como se tivessem sido ditas ao acaso.

O sistema prisional e as penúrias derivadas do confinamento, em "Os Dias Roubados" aparecem muito mais como reflexos, na mente, no cotidiano liberto de seu narrado, que nas lembranças.

O livro expõe os dilemas de um personagem que anos após sua condenação, obteve justiça. Está solto e inocentado, "embora não saiba ainda o que fazer com o ócio, que alguns chamam de liberdade".

Atuação

Apesar de ser sua obra de estreia, o autor é figura já conhecida da cena literária de Fortaleza. Dedicado à literatura desde a década de 1990, quando cursou letras na Universidade Estadual do Ceará (UECE), é mestre em literatura pela Universidade Federal do Ceará (UFC) e atualmente supervisor de Literatura do Sesc. Faz parte, também, do grupo Abraço Literário, que mantém encontros semanais e uma vez por mês recebe um escritor para um bate papo no projeto Bazar das Letras, mediado por Carlos.

"O lançamento será no mesmo estilo do Bazar, mas estarei do outro lado. Quem vai fazer a mediação é o o professor e radialista Henrique Beltrão", antecipa. Além do romance, Carlos Vazconcelos assina poemas em diversas publicações coletivas e o livro de contos "Mundo dos vivos", vencedor dos prêmios Clóvis Rolim de Contos (2006) e Osmundo Pontes de Literatura (2007), ambos da Academia Cearense de Letras.

"Os Dias Roubados" começou a ser escrito em 2007 e durante cinco anos ocupou seus momentos de criação. "Comecei a escrever não tinha enredo nenhum. Tinha apenas uma fome de escrever. Sentei no computador e em 20 dias já tinha esboço", lembra sobre o impulso que o levou à obra. "É um livro nasceu de uma necessidade, de um momento que estava querendo me expressar. Eu vivi essa angustia dessa prisão, de precisar escrever, dizer alguma coisa", reforça.

Mais informações

Lançamento do livro "Os Dias Roubados". Hoje, às 19h, no auditório do Centro Dragão do Mar (Rua Dragão do Mar, 81 - Praia de Iracema). Contato: (85) 3488.8593

LIVRO

Os Dias Roubados
Carlos Vazconcelos
Expressão Gráfica
2013, 106 páginas
R$ 30

SAIBA MAIS

Coadjuvante na trama de Carlos Vazconcelos, o defensor público é tema do livro "Defensoria Pública: fundamentos, organização e funcionamento", de Amélia Soares da Rocha. A obra é lançada hoje, às 17 horas, no Terraço Cultural do Ideal Clube (Avenida Monsenhor Tabosa, 1381 - Meireles). A autora discute a importância fundamental da Defensoria Pública para o acesso à Justiça no Brasil. O livro aborda ainda questões como a urgência de se ampliar o conhecimento sobre a instituição, vias para crescimento institucional e formas de aproximar a realidade normativa da prática.

FÁBIO MARQUES
REPÓRTER