Poesia e loucura

O monólogo “A Dança do Psiqué - de Augusto dos Anjos” é a atração de hoje da Mostra Brasileira de Teatro Transcendental. São duas sessões, às 19h e 21h30, no TJA


A obra do poeta Augusto dos Anjos questiona Deus, fé, credos. É feita de composições que são testemunhos originais, é carregada de versos que transportam a dor humana ao reino dos fenômenos sobrenaturais. Apresenta uma profundidade filosófica e uma fantasia de divagações pelo mundo científico. A “Dança do Psiqué” revela o duelo travado pelo poeta paraibano e suas poesias. Um desafio encarado pelo ator e diretor paulista Heberth Bezerril, que dá vida ao poeta neste monólogo.

“A Dança do Psiqué” é um espetáculo surrealista, que viaja dentro da loucura da vida de Augusto dos Anjos, que foi marcada por muitas tragédias. “A mãe dele mandou matar a namorada do filho - um grande amor do poeta -e chegou a ser internada num manicômio. Mais tarde, ele formou-se em Direito, em Recife, voltou à Paraíba, onde lecionou no Liceu, mas teve que deixar sua terra natal por motivos de saúde e de perseguição política. Mudou-se para o Rio de Janeiro, onde passou a escrever para jornais, publicou seu único livro ( ‘Eu’) e ganhou certo destaque como professor. Mas o poeta morreu cedo, aos 30 anos, vítima de pneumonia”, explica Heberth.

Ao longo da peça, com cerca de uma hora de duração, o público é convidado a entrar no mundo de Augusto dos Anjos. “Tudo é muito dinâmico, não é um espetáculo só para intelectuais que conhecem a obra do poeta paraibano”, avisa o ator. Em muitos momentos do espetáculo, Heberth Bezerril desce do palco para interagir com a platéia. “O personagem estabelece um diálogo com o público. O interessante é que as pessoas se abrem, se soltam, ficam tão à vontade que parecem estar num confessionário”.

Segundo o diretor, apesar de ser denso, o espetáculo tem um humor corrosivo, que as pessoas se identificam e riem de si mesmas. “A linguagem do Augusto dos Anjos é rebuscada, difícil de ser decodificada, mesmo assim o público não fica inibido. As pessoas precisam sair do teatro com uma reflexão, mas, pra isso, precisam estar dentro do espetáculo, não podem só observar passivamente. Felizmente, o público de nossa peça costuma participar. E, para facilitar a interação, a gente faz uso de muitas metáforas”.

Os textos da peça reproduzem densos poemas de Augusto dos Anjos. “Só as ligações entre os textos são de minha autoria”, informa Heberth. A escolha do diretor recaiu sobre poemas questionadores, como o que dá nome à peça. “A Dança do Psiqué é um espetáculo da palavra, em que o público também tem liberdade para se expressar”. A peça estreou em março de 2006, na Casa Café Teatro, em São Paulo, onde ficou por oito meses, sempre bem recebida pelo público.

Pré-modernista

Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos nasceu em Cruz do Espírito Santo (PB), em 20 de abril de 1884, e morreu em Leopoldina (MG), em 12 de novembro de 1914. Foi um poeta identificado como simbolista ou parnasiano, mas muitos críticos concordam em situá-lo como pré-moderno. É conhecido como um dos poetas mais estranhos do seu tempo e, até hoje, sua obra é admirada (e detestada) tanto por leigos como por críticos literários.

Sua linguagem orgânica, muitas vezes cientificista e agressivamente crua, mas sempre com ritmados jogos de palavras, idéias e rimas geniais, causava repulsa na crítica e no grande público da época. O livro “Eu” somente apresentou grande vendagem anos após sua morte. Muitas divergências, portanto, há entre os críticos de Augusto dos Anjos quanto à apreciação de sua obra. De qualquer forma, seja por ácidas críticas destrutivas, seja através de entusiasmos exaltados de sua obra poética, Augusto dos Anjos está longe de passar despercebido.

Em vida, Augusto dos Anjos publicou vários poemas em periódicos, o primeiro, “Saudade” (1900). Em 1912, sairia o livro único, “Eu”. Após sua morte, o amigo Órris Soares organizaria uma edição chamada “Eu e outras poesias”, incluindo poemas não publicados pelo autor.

Serviço:
´A Dança do Psiqué - de Augusto dos Anjos´ em cartaz, hoje, às 19h e 21h30, no TJA, dentro da Mostra Brasileira de Teatro Transcendental. Entrada: R$ 24,00 (inteira) e R$ 12,00 (meia). (85) 3260.5140.