Pedro Almodovár: o cinema e os jogos da sexualidade

O diretor espanhol sua filmografia marcada por personagens femininas, apaixonadas, maternais, aparentemente absurdas, mas reais

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Almodóvar retrata, com ironia e exagero de emoções, dramas cotidianos; nos mostra homens tão ou mais femininos do que mulheres, bem como mulheres com comportamentos caracterizados como masculinos, devido a situações a que foram submetidas ou a profissões; e também personagens extremamente maternais. Podemos ver filmes acontecendo dentro do filme principal para nos contar melhor a história dos personagens ou ainda acrescentar algo às suas personalidades. A música é amplamente utilizada para exaltação da feminilidade, bem como as cores fortes e a temática kitsch.

Metalinguagem

Nos filmes "Má Educação" e "Abraços Partidos", o cinema fala de si mesmo: os bastidores, diretores em crise criativa, filmes sendo feitos para acrescentar características à personalidade e à história dos personagens. Em "Má Educação" um filme é gravado a partir do roteiro que conta a vida de Zahara, uma transexual. Já em "Abraços Partidos" o envolvimento de uma atriz e um diretor de cinema durante a gravação de um filme faz referência a "Mulheres à Beira De Um Ataque De Nervos", também de Pedro Almodovár.

Em "Fale Com Ela", temos um curta metragem, em preto e branco, reproduzido entre cortes de uma cena por ser contado por um dos personagens e para dar a ideia ao expectador de que no filme principal um ato sexual ocorreu em nome do amor, mas que, na verdade, não foi consentido. Em "Tudo Sobre Minha Mãe" vemos o filme "Uma Rua Chamada Pecado" sendo reproduzido na televisão e a peça "Um Bonde Chamado Desejo", representada no teatro; grande parte do filme se passa nos bastidores do teatro e é a peça de Tennessee Williams que liga, assim, os personagens à história.

Intertextualidade

Em "Má Educação", há três tempos narrativos: o presente, em que se passa o filme; o presente ficcional, onde o roteiro é lido e o filme é gravado; e o passado, a infância dos personagens. Tem uma montagem aleatória, pois a história não é contada de forma linear, e a câmera faz o papel do olhar do diretor e do espectador. Em"Abraços Partidos", ocorre o mesmo: o passado, onde a atriz e o diretor se conheceram e se apaixonara, o passado ficcional, a gravação do filme dentro do filme, e o presente, onde começa o filme e onde vemos o resultado final de toda à história vivida pelos personagens. Aqui também a história não é linear, com vários flashbacks. É possível observar também a ideia de que o cinema está ligado diretamente à visão, pois temos no filme um diretor e roteirista cego.

Já em "Tudo sobre minha Mãe", a história é linear e é uma versão da jornada da heroína; no começo, ela está destruída pela perda do filho; em seguida, vemos a busca pela sua reconstrução e, no final, seu triunfo. Em "Fale com Ela", o tempo narrativo é bem delimitado, mas, no início, temos dois espaços na narrativa, duas cidades diferentes. A música é amplamente utilizada para demonstrar os sentimentos dos personagens, reforçada pela a presença dos tons de vermelho.

Nos dois primeiros filmes, surge a figura do diretor em crise criativa que nos lembra Frederico Fellini. Em todos é possível observar referências ao cinema, com personagens do cinema clássico como Holly, do filme Bonequinha de Luxo

"Tudo Sobre Minha Mãe" é dominado por figuras femininas e pela lógica maternal. A figura do homem é mostrada como objeto de sofrimento às mulheres; a personagem principal cuida do outro incondicionalmente. A narrativa gira em torno de Manuela, que cuida e acolhe os outros personagens sem julgamento algum. Manuela é também uma figura heroica, que sofre com o marido machista e travesti, no início e durante o resto do enredo mas que se reconstrói com uma nova chance de maternidade. A trilha sonora descreve e acompanha Manuela; a música é triste, doce, lenta e ao mesmo tempo forte e determinada assim como a personagem. Estebán, filho de Manuela, é fascinado pela mãe, é sensível e está escrevendo uma novela sobre sua ela, o que remete fortemente ao seu lado feminino, talvez por ter sido criado somente por uma figura feminina, mas ao agir impulsivamente, deixando claro seu lado masculino, acaba morrendo ao correr atrás de Huma Rojo. Rosa, apesar de ser mãe assim como Manuela, apresenta um comportamento intolerante, duro e racional, típico masculino, acaba por se redimir após a perda de sua filha.

FIQUE POR DENTRO

A representação da sexualidade no filme "Fale com Ela"

Neste filme as mulheres pouco falam, predominando a voz masculina. Os estereótipos femininos e masculinos são descontruídos a cada cena. Lydia é toureira, uma profissão tradicionalmente masculina, mas a tourada nos mostra características de ambos os sexos: a virilidade masculina é representada no ato de dominação do touro, e o uso da capa vermelha para atrair o touro remete ao poder de sedução feminino. Marco é um personagem sensível que chora com grande facilidade, inclusive quando mata uma cobra, um animal que remete ao falo, nos levando a concluir que ele é viril, mas que, nesse caso, chora a morte da masculinidade. Já Benigno parece ser o personagem mais feminino com forte ligação com a mãe, demonstrando comportamentos maternais, extremamente passional, exerce profissão tipicamente feminina, mas em dado momento, ao violar Alicia, sua masculinidade aflora.

*Do Curso de Audiovisual e Novas Mídias da Unifor

Marseille Carvalho
Especial para o ler