Os sonhos feitos de prosa de Natércia Pontes

Escritora Natércia Pontes lança coleção de contos "Copacabana Dreams", às 19h30, no Dragão do Mar

Natércia Pontes: "´Copacabana Dreams´ foi fechado várias vezes. Não parei de mexer no livro desde que o ´conclui´, em 2007" FOTO: RENATO PARADA/DIVULGAÇÃO

A inspiração de "Copacabana Dreams" pode ter sido o bairro e praia cariocas, mas na bagagem de Natércia Pontes cabe bem mais que a paisagem espiritual do Rio de Janeiro. Se a escritora cearense mapeia algum território em seu segundo livro, este é o de sua identidade. Hoje, às 19h30, ela fala sobre a coleção de contos no auditório do Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura, em evento que marca o lançamento da obra.

Mesmo vivendo há quase uma década longe do Ceará, o nome de Natércia Pontes ecoa fácil na cidade. Escritora, filha de Augusto Ponte (poeta e uma espécie de mito da boemia e da intelectualidade local), ela não apenas se manteve atenta para o acontece aqui, em termos de arte e cultura, como apareceu em publicações diversas - em revistas e livros.

A escritora dedica o livro a seu pai, Augusto ponte, morto em 2009. Ex-secretário da Cultura, poeta, boêmio e protagonista de uma série de causos que circulam pelo meio intelectual e artístico da cidade. "O que reconheço de herança do meu pai é o encorajamento, de me fazer achar natural escrever, compor, fazer filme", conta a escritora. "Ele sempre me estimulou, do jeito dele, sem se meter muito. Muitos desses contos, eu li para ele de madrugada. Por telefone, ele ouvia cada vírgula", relembra.

Do pai, Natércia herdou a habilidade com as palavras, para construir frases perfeitas, sacadas que deixam o leitor pensando horas depois dos olhos se afastarem do papel ou da tela. E isso não é pouco, se considerarmos que uma parcela expressiva das narrações de "Copacabana Dreams" são textos curtos, microcontos, no qual a concisão é quase tudo.

Precisão

Natércia parece intuir o conselho de Howard Ogden aos escritores: "Corte toda a gordura e um pouco do músculo".

"Copacabana Dreams" é um livro heterogêneo. Pela brevidade dos escritos, poderia se arriscar em dizer-lhe uma coletânea de contos. A própria Natércia os chama assim, mas reconhece "que tem uma coisa híbrida neles". "Eu falo conto, mas tem conto que é uma frase, outros que são mais extensos", explica.

Alguns são, a um só tempo, microcontos e poemas em prosa, caso de "Prado Júnior, entardecer": "Brisa acidental:/ Lufada de esgoto, perfume floral". Em outros, tudo se resolve numa cena, à exemplo de "Zigue-Zague na Via Láctea": "No conversível, Norma Bengell ajeita o cabelo impassível:

´Pr´onde é que cê vai?´

Mão no volante, Jece Valadão morde o cigarro confiante:

´Copacabana´".

A escritora também se dá bem em histórias mais longas. É o caso de "Ao ponto e sem sal", conto que abre o livro - e sobre o qual é melhor não dar detalhes sob pena de estragar-lhe o prazer da leitura; e "O caso Veruza", em que o experimentalismo da narrativa ajuda, de fato, a contar a história da melhor maneira possível.

Construção

"Copacabana Dreams" foi gestado entre 2003 e 2007, período em que a escritora morou no Rio de Janeiro. "Esse foi um livro que se mostrou pronto para mim. Morei em Copacabana e estou sempre escrevendo. Uns cinco meses antes de eu ir embora para São Paulo, percebi que tinha muita coisa escrita, com um mesmo tema", explica. Ainda assim, a autora não parou de mexer no livro. O último conto foi escrito há seis meses, outros foram ajustados, uma porção de outros tirada da edição final.

Antes, Natércia havia lançado apenas um livro - a coleção de microcontos "az mulerez." (o título, em minúsculas, tem um ponto final e um impossível til sobre a letra "L"); organizou outro, "A semana" (Hedra, 2007), no qual reuniu um time de jovem escritoras, a maioria inédita em livro, e marcou a estreia da elogiada Mariana Marques; e participou das coletâneas de contos como "O Cravo Roxo do Diabo: o conto Fantástico no Ceará" (Edição do Caos), "Viva Fortaleza" (Terra da Luz), "Iracemas: imagens de uma lenda" (editado pelo Governo do Estado do Ceará), "Metropolis" (La Barca) e "Assim você me mata" (Terracota). A escritora trabalha em um novo volume de contos, que tem o amor por tema. Em 2013, planeja escrever uma novela.

Mais informações:

Lançamento do livro "Copacabana Dreams", de Natércia Pontes. Às 19h30, no Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura (Rua Dragão do Mar, 81, Praia de Iracema).

Contato: (85) 3488.8608


DELLANO RIOS
EDITOR