Os segredos e as revelações do Estilo

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A leitura de um texto poético transcende ao simples ato de compreensão das ideias inscritas no texto

Dir-se-ia que a apropriação ou deixar apropriar-se pelo texto poético realiza-se na fruição dos segredos estilísticos do texto. O texto, sobretudo o poético, é uma soma substancial de boas ideias e infalível expressão.

José Maria de Medeiros: "Iracema", óleo sobre tela, 167, 5 cm x 250,2 cm; Museu Nacional de Belas Artes do Rio de Janeiro. Obra criada em 1884

Paulo Leminsky alerta que se atente não ao que se diz, mas ao que não se diz. Para o itabirano Carlos Drummond de Andrade, em especial em sua veia guache, a poesia é a outra. Compreende-se o estilo como o íntimo do texto, o escondido, que, por conta disso, muitas vezes passa despercebido. Sem sua revelação, entanto, a poesia não acontece. A busca da forma estilística do texto poético, por conseguinte, é o cerne deste ensaio.

A problemática

Paulo Mosânio Teixeira Duarte, em "Fato de estilo: uma questão em aberto", debruça-se sobre o tema. Neste artigo, ele revê várias tentativas de definir o conceito de estilo, objeto da Estilística, a fim de questionar os pontos de vistas imprecisos, já que considera que para uma ciência afirmar-se deve ter método e objetos bem claros.

Destaca que a estilística tem sido tratada como depósito onde se joga tudo o que não é gramatical, cita como exemplo Lapa (1977), Cegalla (1983), Tavares (1984) e Monteiro (1986). As principais críticas que faz é de que os métodos, em geral, são impressionistas, subjetivos e metafísicos. Segue a corrente riffateriana considerada rigorosa.

Seguindo o itinerário do livro Linguística e estilo, de Enkvist (1974), define seis concepções de estilo. Estilo como processo ativo, visto como um acréscimo ao pensamento, de modo que este possa produzir o efeito completo que por si mesmo não poderia atingir. O autor questiona tal corrente mais uma vez por perder-se no subjetivismo, como Goodman e De Quincey. Destaca Charles Bally que tenta definir o sistema expressivo da língua. A partir dessa perspectiva é que Bally está superado, pois retira o estilo do estudo da Estilística. Os brasileiros Câmara e Macambira são destacados no artigo pelo professor Mosânio, por terem sua influência no debate.

Uma visão

A segunda definição de estilo é como escolha. Esta concepção deixa a desejar por, conforme Elia, a escolha nem sempre fazer o estilo num emprego feliz de forma sem paralelo no repositório idiomático e o professor da UFC frisa estar-se no campo da gramática as possibilidades de escolha da língua.Como características individuais, assim enfocado, constitui-se elemento da "parole". Nesse sentido, Coseriu (1974) elabora a divisão tripartite sistema/norma/fala. Admite-se a proposta de Coseriu válida e lúcida, embora determinar os cargos individuais que configurem propriamente a parole e configuram o estilo sejam imprecisos. Não se esquece de que essa averiguação do estilo desconsidera a existência de estilos não apenas individuais.

Mais leitura

Outra definição de estilo é como desvio da norma. Em primeiro lugar, deve-se definir com rigor os conceitos de norma e desvio. Bloch e Osgood associam a pesquisa da frequência de ocorrências linguísticas para caracterizar a norma. Enkvist crê acertados estes passos e acrescenta que a individualidade do texto não deve ser tomada em relação ao sistema, a langue, sim sua parte que guarde conexões significativas com a passagem analisada. Assim, Riffatere (1973) desenvolve a noção de contexto estilístico: um padrão linguístico rompido por um elemento que é imprevisível e o contraste que resulta dessa interferência é o estímulo linguístico. Ele abre, desse modo, novos rumos à pesquisa estilística, condenada ao subjetivismo, ao domínio da gramática, e a conceitos inoperantes de norma, desvio e escolha. Dubois e outros (1974) elabora um esquema distinguindo o plano da expressão (metaplasmo/metataxe) e, ainda, no intrigante plano do conteúdo, o que se segue: metassememos/metalogismo.

O rigor do método

O professor da UFC define estilo como conjunto de características coletivas e como relações entre entidades linguísticas formuláveis em termos de textos mais extensos que a sentença, ambos limitados pela noção de norma e de estilo como escolha respectivamente. Conclui-se que inerente à identificação e caracterização do objeto, surge o problema do rigor na apreensão. A estilística não pode deixar seu campo em aberto para não propiciar atos impulsivos, bem como subjetivismos, análises extensas que se podem alongar indefinidamente, sem um princípio, um fim ou um processo condutor. Considera, então, que as noções de Riffatere, concernentes a contexto, microtexto e macrotexto, necessárias à noção de arquileitor, oferecem a melhor abordagem do estilo.

O Estilo e suas figuras

Margeando o que não é gramatical, acréscimo ao pensamento, escolha, características individuais, desvio da norma, características coletivas e como relações entre entidades, o Estilo realiza o texto poético. Revelar seu segredo é conhecer a poesia.

José de Alencar redigira em Iracema: "O perfume que derrama sobre as paixões dos homens a alma da mulher".

Recursos expressivos

A métrica da frase é construída como em verso - inclusive esta é uma característica peculiar ao autor indianista; neste romance os limites entre a métrica do verso e o da prosa são muito próximos. Podemos dividir o ritmo da frase em dois blocos: O perfume que derrama/ sobre as paixões dos homens a alma da mulher.

A divisão dá-se para que a leitura detenha bom tempo no primeiro bloco, em função da imagem do perfume preenchendo o espaço e se espalhando; dominando-o, até assenhorar-se do homem, em movimento lento e fascinante.

A leitura mais compassada do bloco, retoricamente, é alcançada por sua construção poética trissilábica: (Texto I)

E pela aliteração em -rr, os quais são fones consoantes mais demorados e em -m, os quais soam propagando-se ao final de cada trissílabo.

Outro movimento

O segundo bloco, então, apresenta divisão silábica em hexassílabo: (Texto II)

Agora, destaca-se, com métrica mais extensa, a imagem do arrebatamento da paixão do homem pelo fascínio da mulher. A leitura é acelerada com a aliteração das oclusivas e das sibilantes.

A ascendência melódica concretiza-se com escoamento do primeiro hexassílabo no outro num tom assonântico em -a, os quais, altos e abertos criam efeito de força, enfatizado pelo fecho em oxítona da palavra expressiva: mulher.

Trechos

TEXTO I

O / per / fu /me

que / de / rra / ma

TEXTO II

so / bre as / pai / xões / dos / ho /mens

a / al / ma / da / mu / lher.

FIQUE POR DENTRO

Reflexões acerca da questão do estilo

Nilce Sant´anna Martins, em "Introdução à estilística: a expressividade na língua" passa por diversas definições de estilo em diversos momentos históricos. Cita Mounin: "todas as definições de estilo são empobrecimento unilateral". O estilo envolve fatores linguísticos, psicológicos, históricos, sociológicos, literários, etc. Afirma que a estilística surge no sec. XX em duas correntes: com Bally e Leo Spitzer. O primeiro volta-se para a língua utilizada na vida social e psíquica em oposição ao estudo da gramática normativa e da literatura. Distingue duas faces da linguagem: a intelectiva e a emotiva, sendo assim, o primeiro a distinguir o suplemento subjetivo da linguagem. Bally inicia a estilística da língua ou da expressão linguística que se ocupa da descrição do equipamento expressivo da língua como um todo. Alguns de seus seguidores são Marouzeau e Cressot embora discordem em alguns pontos. No domínio da língua portuguesa destacam-se, entre outros, Lapa (1945), Câmara Jr (1952) e Melo (1976).

MARCOS ROBERTO DOS SANTOS
COLABORADOR*

*Ensaísta