"Os Sapos": ironia ao discurso parnasiano

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Na segunda noite da Semana de Arte Moderna de 1922, no dia 15 de fevereiro, o poema Os Sapos, de Manuel Bandeira (1886-1968), (o poeta pernambucano não compareceu ao evento que se realizou no Teatro Municipal de São Paulo) seria declamado por Ronald de Carvalho, em meio às vaias da plateia. Ao ridicularizar os parnasianos por seu apego à forma e à fôrma, pregando a arte pela arte, isto é, o esteticismo, bem como a escolha meditada do vocabulário, a aproximação das artes plásticas, a impassibilidade, dentre tantas outras características, o poema Os Sapos representou uma espécie de declaração de princípios dos modernistas, apesar de antes de 1922 Manuel Bandeira ter publicado livros com características parnasianas, como "A cinza das horas" e "Carnaval".

Nestas duas obras, o poeta prima pelo emprego das regras tradicionais da composição poética e, no que diz respeito às temáticas, há uma profunda inércia espiritual, um sentimento de desistência diante das traições cultivadas pela vida. A partir de então, estavam liberados os versos sem rima. Tiraram, enfim, os grilhões da poesia, o que promoveu a valorização da cultura brasileira. (Texto IV)

Leitura do poema

O poema "Os Sapos" é pentassílabo, de mesma métrica, em redondilhas menores - a forma mais simples de se compor as sílabas poéticas. As rimas durante todo o poema obedecem ao esquema ABAB. São rimas cruzadas ou alternadas.

Na primeira estrofe, há o termo "enfunando", que tem o mesmo sentido de "encher-se", "inflar-se", no entanto, neste poema, o significado mais cabível seria o "enfunar-se" de orgulho, de vaidade, remetendo ironia ao parnasianismo. Em "Saem da penumbra, / Aos pulos, os sapos. / A luz os deslumbra." Significa que os poetas são representados pelos sapos, que estavam saindo da obscuridade e a luz é a fama e o sucesso.

Recursos expressivos

Já na segunda estrofe, - "Não foi!" - "Foi!" - "Não foi!", é uma onomatopeia que faz analogia ao coaxar dos sapos, espécie de jogo de palavras. Na terceira, o eu lírico constrói a crítica ao parnasiano e à sua estética, ao ironizar o modo perfeito de se fazer arte.

Na quarta estrofe, o eu lírico zomba com o primor que os parnasianos têm em compor rimas, em rimar termos cognatos, ou seja, termos que possuem a mesma classe gramatical, já que para o parnasiano rimar termos cognatos não é sinônimo de sofisticação, pois as rimas não são consideradas ricas. Em "O meu verso é bom / Frumento sem joio. / [...] / Reduzi sem danos / A fôrmas a forma.". Esta norma seria a receita da poesia, e "fôrmas" o molde do soneto, a métrica, a rima, o ritmo, a escolha do vocabulário. Há também uma ressalta à estética parnasiana de forma sarcástica.

A sétima estrofe remete à traição dos sapos na defesa de suas teses, de suas crenças. Em "Não há mais poesia, / Mas há artes poéticas..." quer dizer que no momento haveria artesãos, mas não poetas.

Na nona e décima estrofe existe uma alusão irônica aos poemas que valorizam a descrição dos objetos e da escultura clássica. Exemplos parnasianos que mantêm esta valorização dos objetos clássicos são "Profissão de fé", de Olavo Bilac e "Vaso Grego", de Alberto Oliveira. Pode-se observar também o que diz respeito à poesia, que ela possui ritmo por estar dentro de determinadas regras.

Considerações finais

Em "Lá, fugido ao mundo, / Sem glória, sem fé, / No perau profundo / E solitário, é" , este perau profundo significa um lamaçal, uma espécie de obscuridade em que os poetas modernos se encontravam, se levarmos em conta a grande projeção que os poetas parnasianos, em especial Olavo Bilac e Alberto de Oliveira tinham entre os leitores brasileiros, bem como os que se dedicam ao estudo da literatura.

Tem-se na última estrofe a utilização de uma quadra que faz alusão a uma cantiga popular brasileira. E o "Sapo-cururu / Da beira do rio..." representam os poetas modernistas. Deve-se, com segurança, considerar esta imagem como um duplo do próprio Manuel Bandeira, com seu canto marcado pela simplicidade, longe das luzes da fama.

Outro aspecto estrutural que zomba dos aspectos requintados da escola parnasiana é uso das quadras ou quartetos, formas consideradas populares, contrastando com as formas sofisticadas como o soneto - composição poética de quatorze versos

Pode-se perceber ao longo do poema que Manuel Bandeira faz algumas construções estruturais que dão sentido ao tema, como o uso de aliterações, que é a repetição da mesma consoante, no caso do poema em "p" e "b" e as assonâncias, que é a repetição da mesma vogal, como por exemplo em "u" e "a" que remetem, nitidamente, o som do pulo dos sapos.

Trechos
TEXTO IV

Enfunando os papos, / Saem da penumbra, / Aos pulos, os sapos. / A luz os deslumbra. /// Em ronco que aterra, / Berra o sapo-boi: / - "Meu pai foi à guerra!" / - "Não foi!" - "Foi!" - "Não foi!". /// O sapo-tanoeiro, / Parnasiano aguado, / Diz: - "Meu cancioneiro / É bem martelado. /// Vede como primo / Em comer os hiatos! / Que arte! E nunca rimo / Os termos cognatos. /// O meu verso é bom / Frumento sem joio. / Faço rimas com / Consoantes de apoio. /// Vai por cinquenta anos / Que lhes dei a norma: / Reduzi sem danos / A fôrmas a forma. /// Clame a saparia / Em críticas céticas: / Não há mais poesia, / Mas há artes poéticas..." /// Urra o sapo-boi: / - "Meu pai foi rei!"- "Foi!" / - "Não foi!" - "Foi!" - "Não foi!". /// Brada em um assomo / O sapo-tanoeiro: / - A grande arte é como / Lavor de joalheiro. /// Ou bem de estatuário. / Tudo quanto é belo, / Tudo quanto é vário, / Canta no martelo". /// Outros, sapos-pipas / (Um mal em si cabe), / Falam pelas tripas, / - "Sei!" - "Não sabe!" - "Sabe!". /// Longe dessa grita, / Lá onde mais densa / A noite infinita / Veste a sombra imensa; /// Lá, fugido ao mundo, / Sem glória, sem fé, / No perau profundo / E solitário, é /// Que soluças tu, / Transido de frio, / Sapo-cururu / Da beira do rio...

SAIBA MAIS

ANDRADE, Mário de. Poesias completas. São Paulo: Edusp, 1987

BANDEIRA, Manuel. Poesia completa e prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1985

GOLDSTEIN, Norma Seltzer. Versos, sons, ritmos. São Paulo, Ática, 14° ed., 2008