Os recursos expressivos no processo de composição

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O quinto parágrafo introduz o verdadeiro motivo da crônica: "Domingo é o dia mais propício pra se ler poesia"; ou seja, é disso que o Autor quer tratar: do poético, do que provoca no ser o encontro com o que, ao mesmo tempo, o alumbra e o espanta. Daí a ironia restritiva: a de que os poetastros, envaidecidos de si mesmos, à semelhança dos "sapos" de Manuel Bandeira, sequer percebem como maltratam a poesia.

No sexto parágrafo, o Autor inaugura o motivo maior de seu texto: os versos do poeta Soares Feitosa - "Abram-se as janelas, que aqueles canários fugidos da gaiola podem voltar".

A tessitura

A partir desse momento poético, surgem as declinações oriundas das palavras-chave desses versos: "janelas" e "canários".

Ao afirmar que não cria "canários", o cronista ressalta o seu compromisso extremo com a liberdade; e mais: só aceita uma "gaiola" - aquela que abriga o seu incorrigível coração alado.

No primeiro parágrafo, afirmara o anseio de "fazer um poema", e tal se confirma nos três últimos parágrafos, a partir da inaugural metáfora: "Canários são palavras".

Airton Monte escreve tecendo teias; desse modo, reaparecem os termos "domingo" e "janelas" como elementos ordenadores de tudo: as palavras-canário voam, apesar de presas à fôrma de um texto, e trazem ao poeta fragmentos do fugidio, do disperso, do que, dissolvido, deixa em tudo sua marca indelével. Por fim, "canários" e "palavras" se fundem porque são os "pombos-correio do inesperado" - o momento poético.

Escatológico, convive com a consciência da decomposição de tudo, do destino, do perecível, por isso, de quando em vez, abraça, solerte, a efemeridade: "Declaração de princípios" (Texto II)

Uma leitura

Ao enumerar seus hábitos - o álcool, o fumo, o sedentarismo -, é judicioso: "Decididamente, não sou bom exemplo para ninguém"; e apontar preferências e atitudes que vão de encontro às práticas saudáveis: só comer carne vermelha, ser notívago, não frequentar consultórios médicos - Airton Monte se enquadra, a si mesmo, (pelo menos à primeira vista) no grupo do ser-guache, isto é, dos que se põem à deriva dos comportamentos compreendidos como normais e, socialmente, ajustados.

No entanto, seu modo de ser não é fruto de uma rebeldia em relação ao status quo, mas de sua profissão; e ironiza: "Tal como a maioria dos meus hipocráticos coleguinhas, nutro uma discreta onipotência em relação à minha saúde" (3º§); por fim, o escárnio de que tudo resulta de um "pensamento mágico", contrapondo ciência e crendice.

Airton Monte escreve em ziguezague; desse modo, um de seus procedimentos é o de eliminar verdades absolutas; e brinca com o leitor, ao conduzi-lo por caminhos falsos ou rotas incompletas.

Funciona mais ou menos assim: apresenta um argumento, enumera justificativas e finge completar o pensamento; mas apenas finge completá-lo, pois, logo em seguida, toma um outro rumo.

Observemos o processo: 1 - não vai a consultórios médicos; 2 - é onipotente, protegido, magicamente, das doenças; 3 - em verdade, tem medo de descobrir-se um doente grave; 4 - já não é apenas o medo de ser portador de "alguma enfermidade"(5º§), mas o de ser privado de "prazeres" de que não abre mão; 5 - abomina dietas, bem como a ideia de, em nome da sobrevivência, dar adeus ao apetitoso, como: "feijoadas, paneladas, cozidos, churrascadas..." e ser exilado da boêmia; 6 - entanto, declara seu amor à vida, Mas, sem os cuidados, como entregar-se, longamente, aos prazeres? (C. A. V.)

SAIBA MAIS

MONTE, Airton. Moça com flor na boca: Fortaleza, UFC, 2005

PORTELA, Eduardo. Teoria literária. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1999

TODOROV, Tzvetan. As estruturas narrativas. São Paulo: Perspectiva, 1969

Trecho

TEXTO II

Decididamente, não sou um bom exemplo para ninguém. Bebo regularmente, fumo que nem chaminé, sou avesso a exercícios físicos (nada de movimentos desnecessários em minha vida) , só como carne vermelha, durmo tarde, acordo cedo, há muito não me submeto a exames médicos de rotina.

Desconheço a quantas anda meu colesterol, minha glicemia, meu coração e demais componentes de minha sambada máquina corporal. Além do mais, trabalho mais do que preciso e ganho menos do que mereço.

Tal como a maioria dos meus hipocráticos coleguinhas, nutro uma discreta onipotência em relação à minha saúde. Há em mim um certo pensamento mágico de que, por força do ofício, estou irracionalmente protegido de doenças que afetam os mortais comuns.

Vergonha não tenho em confessar que tenho medo de médicos, de entrar aparentemente saudável no consultório de um amigo e de lá sair como um grave doente.

Parece absurdo que um esculápio assim pense e permaneça um eterno descuidado de sua própria higidez. Na realidade, bem o sei, não se trata apenas do medo de descobrir-me portador de alguma enfermidade, mas da possibilidade de me serem proibidos prazeres de que não abro mão.

Quando penso em ir ao médico, já me vejo condenado, na melhor das hipóteses, a uma torturante dieta de papinhas, franguinho grelhado, peixinho cozido, saladinhas de verdura, oh, que abominável regime!

Ser forçado, em nome da sobrevivência, a exilar-me de lautos acepipes, feijoadas, paneladas, cozidos, churrascadas, peixadas; cervejadas, nunca mais. Ser precocemente aposentado das lides boêmias, dormir cedo, dar adeus à noite e seus mistérios, passar a viver cheio de restrições, não pode isso, não pode aquilo, cuidados, receios, submetido à ditadura do tudo me é proibido.

Claro que amo a vida, quero viver o maior tempo que me for possível, seria bom ver os netos crescerem, mas só se for do meu jeito. Nasci hedonista, quero morrer hedonista, o resto não importa muito.