O trágico como elemento-chave do romance Iracema

A presença do trágico na obra Iracema é uma forma de tocar a sensibilidade do leitor do século XIX

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O professor Thiago Tavares explana que o autor, José de Alencar, ao tocar e ferir a sensibilidade de seu leitor é capaz de despertar o sentimento de pertença à pátria, através da união entre o vivido (experiências, memórias, desejos) e o imaginário da época (o desejo de construção de uma identidade brasileira): (Texto I)

O conceito de tragédia e as suas características serão analisadas por meio do pensamento de Aristóteles no livro Arte Poética. A partir de importante fundamentação, faremos uma reflexão de como esses elementos trágicos estão imbricados com o projeto de construção da Nação brasileira e da identidade do brasileiro.

Dos gêneros

Em suas obras Arte Poética e Poética, Aristóteles propõe refletir sobre a produção poética nos gêneros literários - comédia, tragédia e epopeia - analisando a função de cada um deles, a natureza e o número de suas partes, e demais assuntos relacionados a esta produção. Diferencia a epopeia, a poesia trágica e a comédia a partir de seus meios e objetos que imitam, assim como a maneira de imitar. Dessa forma, a compreensão do conceito de imitação (mímesis) é fundamental para o entendimento da diferenciação entre as chamadas "artes da imitação" destacadas acima.

Segundo o filósofo, a tendência para a imitação é instintiva no homem, pois é pela imitação que alcançamos os primeiros conhecimentos. A mímesis fornece possíveis explicações do mundo exterior através de ações, experiências, palavras e pensamentos, ou seja, afirma-se como a representação do que "poderia ser". Dessa forma, a verossimilhança é fundamental para a compreensão da mímesis, pois tem na sua essência a semelhança com a verdade. A mímesis é acompanhada do prazer de reconhecimento, ou seja, se o público não possuir um conhecimento prévio do objeto em questão, não haverá o prazer que ela determina, um prazer relacionado a aprendizagem. É necessário que o leitor/plateia se identifique com as situações expostas, levando em consideração a possibilidade de sofrer algo parecido com o que está sendo apresentado.

Singularidades

José de Alencar vai "imitar" (grifo meu) a vida através da literatura. O conceito aristotélico de mímeses ajuda a compreender como essa imitação ocorre. A mímeses, segundo Lígia Militz49, é uma representação poética e ficcional baseada na ação e fundamentada na verossimilhança. A representação seria as possíveis interpretações que podem ser feitas do mundo real e, para isso, utiliza-se a verossimilhança que é um artifício da arte para estabelecer semelhanças com o real. A imitação dos costumes indígenas, da língua silvícola, da natureza, da história da colonização do Ceará e seus personagens são alguns exemplos de como o escritor vai utilizar-se da realidade para construir a sua narrativa, através da verossimilhança.

Aristóteles afirma que a mímeses objetiva alcançar o prazer do reconhecimento e esse prazer só é possível através do conhecimento sobre o acontecimento que está sendo narrado/interpretado. No século XIX, a discussão sobre a construção de uma identidade para o brasileiro pairava sob os meios intelectuais. Era assunto bastante conhecido por quem frequentava determinados lugares de discussão, como o IHGB.

José de Alencar utilizará tal temática para a formação do romance Iracema objetivando a construção dessa identidade nacional. O leitor alcançará, portanto, o inefável prazer da aprendizagem.

Da imitação

Para Aristóteles, os gêneros miméticos - tragédia, comédia e epopeia - têm como objeto a imitação as ações dos homens que estão relacionadas com a transformação do caráter: modelo de caráter para melhor (tragédia e epopeia) e para pior (comédia). As imitações são divididas em narrativas. A tragédia se encaixa na imitação dramática, pois a ação é imitada pelas personagens. É considerada uma imitação completa, porque tem começo, meio e fim e, como principal objetivo, a catarse, através da compaixão e do temor para alcançar a emoção teatral.

Trechos

TEXTO I

... Tocar a sensibilidade do consumidor e, desta forma, cooptá-lo ao projeto de instituição do sentimento de pertença a uma comunidade nacional (civilizada), o desejado nacionalismo capaz de dissipar as diferenças constituídas ao longo da formação histórica do Brasil. (TAVARES, Thiago A. N. R.

Da tragédia à epopeia: agenciamento das memórias em Francisco Adolfo de Varnhagen - 1838-1858 - 2011 p.156)

FIQUE POR DENTRO

Arte poética, História e Literatura

Desde o período da Grécia Antiga (a. C.), alguns filósofos, como Aristóteles, já refletiam sobre as semelhanças e distanciamentos entre a História e a Literatura. Na sua obra Arte Poética, Aristóteles dedica uma capítulo intitulado História e Poesia para a discussão das diferenças entre o historiador e o poeta. Conforme os argumentos do filósofo, a poesia imita o universal, a história, o particular. O historiador copia o que aconteceu; o poeta, o que poderia ter acontecido. Dessa maneira, não cabe ao poeta narrar o que exatamente aconteceu, mas o possível segundo a verossimilhança. O historiador, portanto, diferentemente do poeta, tem a preocupação com a verdade dos fatos narrados. E é por meio dessa ideia de verossimilhança e imitação do real (mímesis) que compreenderemos a relação da obra Arte Poética com a obra Iracema do ficcionista José de Alencar.

Flávia Regina O. Ramos
Especial para o ler*

Ensaísta