O suingue discreto de Jair Oliveira

Cabelo estilo black, um visual arrojado que esbanja sensualidade em todo o material gráfico do álbum. Ao contrário de “Dis’’ritmia”, de 2000, e de “Outro”, de 2002, neste “3.1”, Jair Oliveira enfatiza o intérprete e o artista, e não apenas o trabalho de produtor e de compositor, neste terceiro álbum da sua carreira, descontando um lançado na adolescência, além daqueles junto à Turma do Balão Mágico

Gente grande. Definitivamente. Depois de ser criticado por tudo, inclusive por só falar de amor em suas canções, Jair Oliveira decidiu mostrar sua musicalidade de corpo e alma. Em “3.1”, ele se produz em meio a arranjos orquestrais e de banda, efeitos eletrônicos e muito suingue negro, que envolve suas canções entre sambas e levadas mais puxadas para o funk, soul, rap e jazz norte-americano. Aliás, o rapaz parece determinado a provar que uma levada pode te levar ao infinito, na hora de alinhavar os seus arranjos, como um discípulo de João Bosco, Djavan e Ed Motta. No mais, não se conteve em mostrar seu talento de compositor e produtor, e está mais disposto a aparecer mais, inclusive, mostrando que não foi só a sua musicalidade que evoluiu com o tempo. Conferi a seguir essa história, na entrevista que Jair Oliveira concedeu ao Caderno 3 por telefone.

Caderno 3 — O título do álbum não afirma a tua idade, como se pode pensar. Mesmo assim, o “3.1” demonstra muita personalidade. Ele representa uma guinada na tua carreira?

Jair Oliveira- Todo disco representa uma guinada, mas, na verdade, é mais uma evolução natural. O título tem muito mais a ver com o fato de ser o terceiro disco e “ponto um” porque eu gravei muito mais coisa, tem muito material excedente que, se a Trama quiser, pode lançar um “3.2”. Não seria um quarto disco porque são canções gravadas na mesma vibração. Esse não é um negócio completamente diferente dos outros porque os meus discos sempre têm como característica essa mistura da música brasileira com o soul, com o jazz, com acid-jazz. E esse disco tem os mesmos elementos acústicos e eletrônicos dos outros. Mas eu acho que a principal diferença é que eu chamei mais gente para compor comigo e tal. Nos dois primeiros discos, tenho só uma parceria, que é com o Ed Motta, no segundo. Nesse, tenho umas seis parcerias, e isso foi intencional porque eu queria colocar as visões dessas pessoas no meu trabalho. Outra coisa é que esse disco tem menos músicas românticas e uma carga de elementos eletrônicos bem evidentes.

— Pois é, a tua música faz uma mistura danada de arranjos de banda com orquestrações e estes recursos eletrônicos, no meio de todo o suingue da música negra, de Bossa Nova e até de embolada. Qual é o conceito dessa musicalidade toda que você mesmo faz questão de produzir?

Jair Oliveira- É o conceito da minha formação, eu sempre cresci ouvindo muita coisa, em casa, na vida. Muito samba porque meu pai sempre gravou muito samba, cresci ouvindo muito Djavan, João Bosco, Gil, Paulinho da Viola. Mas também ouvi muita coisa do mundo inteiro: Jackson Five, Michael Jackson, Stevie Wonder, tantas outras coisas e aí fui fazer cinco anos de faculdade em Boston onde tive um contato bem íntimo com o jazz, com o R&B, com a cultura hip hop e tal. Então, tem várias coisas. Eu acho que isso é uma caracaterística tanto da minha geração, como de gerações anteriores. Desde que os Beatles começaram a influenciar o mundo inteiro, as pessoas deixaram um pouco de lado esse negócio empirista, de que a música brasileira não aceita influências externas, acho isso uma tremenda bobagem. Quase todos os músicos da minha geração têm influências do rock, do jazz, do acid-jazz, do soul. Por isso eu mesmo me produzo, é mais simples do que ficar explicando minhas idéias para alguém produzir.

— A espontaneidade está muito presente nesse disco. Parece que você quer enfatizar a sua visão de mundo, a tua sensibilidade em cada letra.... Como funciona essa diversificação temática toda?

Jair Oliveira- Nos outros discos, eu mostrava menos essa minha visão das coisas. Eu falava muito mais de relações e tal, continuo ainda escrevendo sobre isso e acho que nunca vou deixar de escrever sobre amor, esse tipo de coisa... Mas eu acho que na época que eu comecei a compor, várias coisas externas vinham me influenciando e até me perturbando. Muita coisa no disco tem referência àquela coisa do Bush e do Blair decidindo se o Iraque tem arma química ou não, e aí a guerra. Então, algumas coisas têm a ver com esse clima. E aí tem umas coisas mais pessoais, como a “Todo mundo famoso” que foi uma crítica bem-humorada sobre os dias da tevê, na atualidade, em que as pessoas fazem sucesso da noite para o dia. Fui até muito influenciado por uma obra do Saramago, o “Ensaio sobre a cegueira”, em que resolvi retratar um mundo muito próximo daquele sem dignidade de que o Saramago fala, um mundo em que está todo mundo famoso, a fama vem e vai facilmente.

— O visual desse disco parece ressaltar a tua negritude e também evidenciar a tua personalidade, o teu próprio visual e a sensualidade. Isso parece exorcisar de vez aquela imagem que muitas pessoas ainda associam aos tempos do Balão Mágico. Essa contextualização toda te parece coerente?

Jair Oliveira- Sim, bastante. Porque foi exatamente isso que a gente imaginou. Porque os meus primeiros discos me mostravam muito como composito, graficamente falando. No “Dis’’ritmia”, por exemplo, estou na capa tocando violão e compondo... No segundo, o disco é todo cheio dessas referências, tem pentagramas, o disco é todo escrito a mão, com a minha própria letra, tudo para remeter ao compositor. Mas o terceiro... Eu não penso muito nesse negócio da negritude porque eu sou um artista negro e mesmo que o disco não fosse da cor negra, eu não teria muito como negar e não quero negar isso. Mas acho uma besteiraê levantar uma bandeira dessas no Brasil onde quase todo mundo é miscigenado. Acho que seria um racismo às avessas que também não ia surtir muito efeito. Mas essas outras coisas que você mencionou fazem muito sentido porque realmente era isso que eu vinha buscando. No terceiro disco, eu queria me mostrar mais como artista. Nos outros, estou como aquele carinha legal, eu sou um carinha legal (risos), mas nesse terceiro disco eu queria extrapolar nesse negócio da sensualidade, do artista e até mesmo isso, causar um impacto nas pessoas que ainda estão acostumadas com o garotinho do Balão Mágico.

— Isso não impede que você preserve uma certa inocência, uma certa sensibilidade otimista, que você apresenta em composições como “Coisas fáceis” e “Sorriso insistente”...

Jair Oliveira- Claro porque eu não estou querendo passar uma imagem do que eu não sou. Não é um negócio de me colocar sensual na capa, sem ser. Na verdade, meu trabalho continua com a mesma consistência, falando das mesmas coisas, eu continuo sendo o Jair Oliveira. Não é porque o disco está um pouco diferente visualmente que eu mudaria as minhas atitudes. A essência do artista Jair Oliveira sempre esteve aí. Então, não é um negócio de estar forçando uma barra. Eu estou tentando deixar mais evidente. Essas músicas que você citou têm uma visão otimista, remetem a um negócio mais tranqüilo, que sempre vai ter no meu trabalho porque componho muita balada, isso tem a ver com o meu modo de ver as coisas.

Henrique Nunes - Da Editoria do Caderno 3