O Iluminado: um olhar psicanalítico sobre as psicoses

A psicanálise e as composições artísticas estabelecem entre si vasos comunicantes em diálogos singulares

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Freud desbravou, para a ciência e para a cultura, os territórios do Inconsciente e, com isso, produziu um saber acerca de uma verdade que a consciência não tolera facilmente. O que há de mais singular nas pessoas também é o que há de mais íntimo, sendo preciso o enfrentamento de resistências severas para se alcançar esse tipo de conteúdo. Tal singularidade é igualmente íntima da arte, não é à toa que os escritos freudianos flertam, amiúde, com obras de arte ou artistas como Shakespeare, Leonardo da Vinci ou Goethe.

Esse recurso não foi escolhido ao acaso. Nas palavras do criador da psicanálise, deparamos a seguinte observação: (Texto I)

Arte e inconsciente

A criação artística, enquanto sublimação, é apontada por ele como sendo um dos destinos para a pulsão, o que indica ser ela motivada pelos mesmos conteúdos que o psicanalista depara em sua clínica. Nessa direção é que os psicanalistas afirmam: a arte fornece testemunhos do Inconsciente. Encontramos atualmente diversas formas de apresentação da arte, e uma das mais poderosas e de incrível alcance é o cinema: de caráter dinâmico, permite a produção de obras tanto populares como eruditas, abordando temas que atingem a todos, quanto de acesso mais restrito. Para a psicanálise, isso se traduz numa ferramenta valiosa, pois permite explorar elementos que subjazem a criação artística que envolve a produção do filme em sua consonância com os processos subjetivos. Em seu diálogo com o cinema, a psicanálise encontra um veículo que lhe permite um contato maior com a comunidade de cultura na qual está inserida. Com isso, tanto a psicanálise se beneficia ao estar constantemente renovada, conseguindo uma leitura mais precisa dos fenômenos da atualidade, como também a comunidade, que pode vir a se enriquecer, profissional e pessoalmente, aprendendo algo a partir da psicanálise e do cinema.

As conexões

Desde Freud o saber psicanalítico transcende a prática clínica, estabelecendo conexões com a cultura e outros campos do saber como a mitologia, a psiquiatria, a linguística, a sociologia e, notadamente com a arte. A exemplo disso, encontramos atividades em nossa cidade como as do Cine Freud, projeto de extensão da Universidade Federal do Ceará, promovido pelo seu Laboratório de Psicanálise. Através de exibições de filmes, em parceria com a Casa Amarela Eusélio Oliveira, o projeto convida psicanalistas para realizarem uma discussão acerca dos mesmos com a comunidade, o que denota os benefícios recíprocos para a transmissão da sétima arte e para a psicanálise, haja vista a grande aceitação do projeto que lota semanalmente o citado equipamento cultural.

O supracitado projeto é um exemplo local de uma interface entre a psicanálise e a cultura. Encontramos também, com o filósofo e teórico da psicanálise Slavoj ?ižek, outra forma de abordar esta relação. Conhecido pelo seu documentário "O Guia Pervertido do Cinema", aonde faz uma leitura de diversos filmes populares, ?ižek mostra de que forma o cinema afeta o espectador e, portanto, quais mecanismos psíquicos estão em jogo na apreciação do filme. Contudo, Roberto Propheta Marques, um de seus comentadores, aponta que, como seu interesse não é clínico, seu objetivo final é outro: fazer uma leitura sobre como a cultura afeta o indivíduo.

O objeto de estudo

Além de todas essas maneiras com as quais a psicanálise fomenta essa interface, é importante não perder de vista seu objetivo principal: o alcance clínico. Assim, os testemunhos do inconsciente que a arte dá nos serve para iluminar problemas ainda obscuros que afetam a nossa subjetividade ou para nos mostrar como o inconsciente se inscreve em fenômenos cotidianos.

Amparados nisso, faremos, a seguir, de uma leitura psicanalítica do filme "O Iluminado", de Stanley Kubrick. O texto é baseado em um trabalho realizado na disciplina "Estudo Individual" do Departamento de Psicologia da UFC, que tinha como objetivo as ligações e apresentações das estruturas clínicas com a arte.

O filme escolhido nos permite ainda fazer uma analogia oportuna em relação ao trabalho do psicanalista. Pois se a obra trata de eventos sobrenaturais que lhe conferem o tom de horror, numa sucessão de cenas angustiantes, não há melhor forma de descrever o tratamento conferido pela cultura aos fenômenos com os quais a psicanalista se depara. Os sintomas que chamaram a atenção de Freud recebiam tratamento quase sobrenatural, pois desvelam algo de estranhamente familiar e obscuro em nós mesmos. É, portanto, esse horror que cabe à psicanálise investigar.

FIQUE POR DENTRO

Notas sobre o autor e a obra

"O Iluminado" (The Shining, Estados Unidos, 1980, 146min). Direção: Stanley Kubrick - um dos cineastas americanos mais influentes, conhecido por filmes considerados polêmicos para a época, como Lolita (1962), Laranja Mecânica (1971), e O Iluminado (1980). Kubrick é conhecido também por seus métodos pouco convencionais de direção, o que produzia atritos entre ele e os atores - inclusive no caso de O Iluminado. Jack Nicholson, ator protagonista, jogava fora as falas que recebia, aprendendo a maioria minutos antes de filmá-las. Shelley Duvall, atriz coadjuvante, ficou bastante doente no período de produção. Contudo, o filme é reconhecido como um dos melhores de terror e suspense. Nele, a família Torrance se vê isolada no hotel Overlook devido ao novo emprego de Jack, o pai, como zelador. Os eventos chegam a tal ponto que ele passa a perseguir sua mulher e seu filho.

Trecho

TEXTO I

"os escritores criativos (...) estão bem adiante de nós, gente comum, em seu conhecimento da mente, já que se nutrem em fontes que ainda não se tornaram acessíveis à ciência".

Cibele Vasconcelos
Lara Silveira
Mauro Reis e Talita Fontenele

Especial para o Ler

Todos os autores são graduandos em Psicologia na UFC