O eu, a paisagem e a força do cotidiano

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Em uma entrevista concedida a Rodrigo Marques (Cantos de Fuga e Ancoragem, 2007), Linhares afirma: "(...) sem prejuízo da supra-realidade, mas considerando que minha poesia é bastante confessional, minha biografia coincide muito com o eu lírico que se apresenta em meus versos".

E revela: "Escolheria o 'Poema algo cômico de minha essência' para, através dele, dizer quem eu sou ("Sou sobretudo o que compõe sonatas/ de luz e cores com as notas do tempo,/ para deleite da vida e alívio do mundo./ O que persegue pelo espaço, a cada metro,/ emoções para o filtro do poema").

Discurso apurado

De 1968, data de sua estreia, a 2013, ano em que publicou seu último livro, são quarenta e cinco anos de uma poesia de tom universal e de alta qualidade literária. Desde o início de sua carreira, o poeta já revela os pendores artísticos que irão se aprimorar ao longo dos anos, como um estilo personalíssimo, uma preocupação constante com a linguagem e um grande conhecimento dos procedimentos de poetização.

A exaustiva busca do equilíbrio entre conteúdo e expressão leva-o a um maior apuro linguístico. No conjunto de seus poemas, ainda que o soneto ocupe um lugar privilegiado, o poeta escreve com desenvoltura tanto poemas metrificados e rimados como versos brancos ou livres, obedecendo apenas à intuição criadora e à necessidade do tema, surgindo, desse modo, inúmeras combinações de metros e ritmos - tão visíveis.

Os chamados temas atemporais perpassam toda a obra do poeta. E cada vez que ressurgem mais surpreendem pelo trabalho verbal renovador, que veicula diferentes estados de espírito e variada mutação de experiência.

Desse modo, o amor, tema recorrente na literatura em todos os tempos, fulgura nas três formas de que fala Georges Bataille (O erotismo, 1987), o erotismo dos corpos, o dos corações e o sagrado, nas páginas do poeta Linhares Filho. Convém lembrar que todo erotismo é sagrado, são apenas diferentes as maneiras de uma mesma busca: "(...) substituir o isolamento do ser, a sua descontinuidade, por um sentimento de continuidade profunda" (Bataile, p.15).

As recorrências

Assim, amor surge e ressurge. Às vezes, envolto num halo de ternura; noutras, ardendo em chamas ou, ainda, ascendendo a paragens divinas: "Brotaste para ser amor indene,/ alimentado por pequenos gestos de simples atenções, tratos modestos,/ brisas vindas, porém, de um vento infrene" ("Soneto do Amor Eterno", Tempo de Colheita, 1987); "(...) No teu brando olhar habita/ o roteiro dos meus passos./ Quando me inunda o teu cio,/ navego-te em meus braços." ("Doação dos corpos", Frutos da Noite de Trégua, 1983); "Esperaste-me tanto, Deus clemente!/ Do abismo em que afundava, a ti clamei,/ e tua mão, que parecia ausente,/ logo me conduziu à doce grei." ("Além da Estrada de Damasco", Tempo de Colheita, 1987).

Os entes queridos também passam e repassam sempre reverenciados com saudade pelo eu-lírico: "Tua branca rede já não se arma/ para a sesta. Todavia guardo,/ com o ranger longínquo dos armadores, a placidez do teu sono,/ a entreter o meu sonho" ("A minha mãe, habitante da morte", Sumos do Tempo, 1968).

A infância é revisitada e revivida, com frequência, através de versos comoventes, que trazem os dias idos de novo ao coração. Em algumas passagens, o eu-lírico, que fala no presente, lamenta a perda do menino, que recorda ("Poema de solta memória", Voz das Coisas): (Texto III)

O sujeito que recorda já não é o mesmo, nem poderia ser, tampouco permanece igual o espaço em que nasceu e viveu: Lavras da Mangabeira, terra natal cantada em versos prenhes de ternura.

"Cavalgando em relembranças", ora o homem-menino percorre a cidade com seu olhar curioso; ora o menino-homem volta os olhos saudosos para o solo amado em busca da renovação vital: "Eis-me de volta à fonte, eis-me de novo em Lavras./ Tudo me quer falar, mas não acho palavras" ("Lavras da Mangabeira revisitada", Frutos da Noite de Trégua); "Lavras, eu te busco incessante/ entre os confins da longa ausência/, com a fidelidade de amante/ e a inquietação de minha essência" ("Falta de Lavras", Junto à Lareira Invisível).

Considerações finais

As notas elegíacas irrompem do âmago do poeta e tingem os versos de melancolia, como se pode ver no início de "Simples Elegia" (Frutos da Noite de Trégua) ou no último terceto de "Elegia da casa" (Tempo de Colheita): "Depois da festa nada mais restou,/ a não ser o anseio indefinível,/ o vazio indevassável/ e a absoluta certeza da morte/ à espreita na soleira/ de cada porta"; "Parece conhecer-me a pitombeira/ e murmurar tristonha, num lamento,/ que a vida é vã, desfaz-se na poeira...".

Francisco Carvalho afirma, com propriedade, que os aspectos social, ético, estético, filosófico, religioso e metafísico unem-se em harmonia na textura metafórica dos poemas de Linhares.

Na verdade, ele, o poeta, consegue expressar, com plenitude, os sonhos, desejos e angústias do homem contemporâneo, subordinado às exigências de um mundo em acelerado processo de transformação, sem abrir mão de uma linguagem que privilegia a estética literária. ( L. L. B. )

Trecho

TEXTO III

Eu quero as minhas tardes que ficaram / com a minha despreocupação de menino / travesso lá de Lavras. Quero as indefinidas promessa / Das cantigas de roda / Na voz das suaves meninas / E o sabor de carinho no bolo do aniversário. / Quero a calma daquelas minhas tardes / tão mansas como a brisa, sacudindo / a faixa da batina do vigário / a rezar em passeio o seu breviário./ Um caixãozinho de anjo às vezes lá seguia / plácido, sobre a tarde, às mãos de crianças / sob uma exultação do sino que tangia,/ pois o anjo ia fazer aos do céu companhia (p138-0)

Saiba mais

BARTHES, Roland. O prazer do texto. São Paulo: Perspectiva, 1987

CARA, Salete de Almeida. A poesia lírica. São Paulo: Ática, 1986

LINHARES FILHO, José. Itinerário - trinta anos de poesia. São Paulo: Scortecci, 1998