O estilo dialógico n'O Delírio das Memórias Póstumas de Brás Cubas

As obras de arte, em geral, dialogam entre si, num imenso feixe de possibilidades, por motivações diversas

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Chimène, qui l'eût dit? Rodrigue, qui l'eût cru? (Ximena, quem o diria? Rodrigo, quem o acreditaria?) Escrevera Corneille numa de suas tragédias. Machado de Assis intertextualiza o alexandrino nas Memórias Póstumas de Brás Cubas, afim também de pôr em choque diversas vozes em torno de diferentes representações das relações interpessoais entre sociedades e, também, entre indivíduos.

Sátira moderna

Os dois personagens de Corneille são comparados a Brás e Virgília num jogo paródico de desconstrução irônica de sentidos socialmente consagrados. Justamente a crítica de sensos comuns, relativização de padrões de comportamentos tradicionais que Machado desenvolve seu estilo nesta obra. Porquanto haver presença de diversidade sutil e rica de referências a vozes de discursos alheios das mais variadas, em ordem de relação cujo produto literário é um discurso híbrido e iconoclasta. Seu romance é exemplar típico do romance satírico moderno.

Bakhtin analisando as propriedades do romance moderno apresenta que o romance como um conjunto caracteriza-se como fenômeno pluriestilístico, plurilíngue e plurivocal (1988, p 73). E que o discurso orienta-se para enunciações e linguagens alheias e todos os fenômenos e possibilidades específicas ligadas a esta orientação (p 105). Em Memórias Póstumas de Brás Cubas Machado de Assis ressignificando seu estilo, conseguintemente a própria literatura brasileira, é sensível à nova necessidade do romance moderno em evidenciar metadiscursivamente particularidades dialógicas do estilo romanesco.

Utiliza um conjunto de estruturas frasais típicas de introdução (intrusão) da fala do outro. Problematiza inúmeros discursos desde sensos ordinários a citações eruditas; de personagens clássicos a picarescos, entre vozes respeitáveis e repugnantes, fazendo saltar desta interrelação textual outra voz paradoxal e ambígua sem vínculos necessários com qualquer voz unívoca centralizadora, monoestilística.

Singularidades

A prosa machadiana não tem compromisso naturalista com a moral e o cinismo simples externos ao romance, apenas tem compromisso estilístico com a pena da galhofa e a tinta da melancolia (ASSIS, 1991, p 17). É o compromisso artístico social destronizador da voz de narrador (defunto) descompromissado conosco e consigo, por isso mesmo representante autêntico de todos discursos que nos perpassam e marcam construindo representações e identificações próprias que fazemos da sociedade, de nós e dos outros.

O mapa das vozes

Enfim deste conúbio orientam-se as vozes discursivas das Memórias Póstumas de Brás Cubas. Machado de Assis introduz o que Bakhtin denomina: (Texto I)

Opinião corrente é discurso dissimulado de outrem na voz do narrador. Machado de Assis utiliza um método sintático recorrente na escrita do delírio pré-morte de Brás Cubas, qual seja a de apresentar uma situação de algum modo absurda e/ou polêmica e/ou pretensamente ingênua para em seguida intercalar uma oração subordinada explicativa polemizando o ponto de vista corrente. A forma sintagmática é nominal cuja frase tem uma estrutura simples composta por e um copulativo verbal (é/são) implícito, um sintagma nominal determinado por outro preposicional, introduzido graficamente pelo índice gramatical dois pontos. Veja-se a seguinte passagem: (Texto II)

O sintagma nominal caprichos de mandarim encerra várias vozes: uma delas, irônica desautoriza a pretensa seriedade do texto quando utiliza o substantivo capricho. Num movimento semântico de convergências e divergências plurivocais o texto polemiza opiniões correntes. O movimento que atravessa vozes centralizadoras e periféricas percebe-se no seguinte trecho por saber onde ficava a origem dos séculos, se era tão misteriosa como a origem do Nilo, e sobretudo se valia alguma coisa mais ou menos do que a consumação dos mesmos séculos: reflexões de cérebro enfermo (p 28).

O senso corrente científico a respeito da origem da vida e da constituição da ordem social humana, ordinariamente apresentado por um viés grave, sofisticado, muitas vezes com retoques de erudição, é satirizado quando o sintagma reflexões de cérebro enfermo da oração adjetiva final traz uma voz paródica que categoriza estas reflexões tradicionais como doentias. O conceito de razão positiva representado com um ponto de vista unívoco, são e "racional" é transviado, portanto, em antirrazão. Esta destronização da razão parece ser uma grande tônica da obra machadiana e em especial n'O Delírio.

TRECHOS
 
Infância Cultivada
Hora íntima
 
TEXTO I
Essa linguagem comumente falada e escrita pela média de um dado ambiente, tomada pelo autor precisamente como a opinião corrente, a atitude verbal para com seres e coisas,
normal para certo meio social, o ponto de vista e o juízo correntes (p111).
 
TEXTOII
Um mandarim, que me pagava o trabalho com beliscões e confeitos: caprichos de mandarim
(ASSIS,1991,p27).

FIQUE POR DENTRO

Intertextualidade no discurso prosaico

O dialogismo literário na prosa, segundo Bakhtin, pode ser deflagrado por construções sintáticas específicas tais construções híbridas: "O enunciado que segundo índices gramaticais (sintáticos) e composicionais, pertence a um único falante, mas onde, na realidade, estão confundido dois enunciados, dois modos de falar, dois estilos, duas linguagens, duas perspectivas semânticas e axiológicas (BAKHTIN, 1988, p 110). Uma estrutura híbrida particular é a motivação pseudo-objetiva definida de modo geral característica do estilo romanesco sendo uma das variantes da construção híbrida, sob a forma de uma fala dissimulada de outrem (p 111). Nesse sentido na prosa machadiana diversas vozes sociais são tomadas nas frases por sintagmas particulares, neste ensaio, destaque-se as orações intercaladas explicativas. No cap O Delírio esta organização sintática ganha relevância enquanto inter-relaciona discursos correntes alheios sob a égide dissimulada da fala do narrador.

*Professor e ensaísta