O drama seco de João Denys

Cá pelo Ceará, coube à Herê Aquino transfigurar a dramaturgia de João Denys. Em parceria com os atores Adauto Garcia e Alcântara Costa, a diretora montou o espetáculo “Deus Danado”, montagem que passou pelo Festival Nordestino de Teatro de Guaramiranga na edição do ano passado. O Caderno 3 convidou Herê para discorrer sobre sua experiência

Conheci o texto de João Denys, através dos atores Adauto Garcia e Alcântara Costa, que o tinham experimentado numa oficina de teatro na cidade do Crato. Sem que me conhecessem e, apaixonadamente, “com a cara e a coragem”, me procuraram, em Fortaleza, na ânsia de montá-lo. Eu estava saindo de uma temporada longa e enriquecedora com a peça “Morte e vida severina”, de João Cabral de Melo Neto, e enveredava, ainda timidamente, por “Eles não usam black-tie´, de Guarnieri, como diretora convidada pelo Colégio de Direção Teatral do Instituto Dragão do Mar.

A peça de João Cabral havia, logo no início da montagem, me colocado em choque, pois percebi quão distante estávamos de nossas origens nordestinas e sertanejas. Já o texto de Guarnieri, por sua vez, me atirava sem dó nem piedade na selvajaria da vida urbana. Sertão e cidade grande, os dois, cada um a sua maneira, jogando-me na cara o drama da vida humana. Diante desse quadro e principiando um trabalho, “Deus Danado” me foi apresentada.

Apesar de todo frenesi existente no início de qualquer montagem, a paixão dos dois atores, frente ao texto de João Denys, me motivou a lê-lo de imediato. Lembro do sentimento desperto durante a leitura e ao final da mesma. Corpo suspenso... falta de chão... de respiração... sem tempo e espaço... Sentimento “sentido” no silêncio... Seria o silêncio aborrecido de Deus? De nada sei, como diz nossa maravilhosa Clarice Lispector em “A Hora da Estrela”.

O que sei é que a vontade de encená-lo veio imediatamente, motivada, talvez, pelo meu assombro diante do profundo mergulho na alma/corpo desse homem/sertão. Um sertão que doía e que descia fundo na alma, para chegar a assustadora universalidade do homem. Lembrei do mesmo sentimento que tive ao ler “Grande Sertão: Veredas”, de Guimarães Rosa. O sertão estava, sim, dentro da gente, em toda parte e, com certeza, estava também ali, no texto de João Denys.

Quando consegui retornar ao barulho ensurdecedor do dia a dia, gritava em mim todas as violências do mundo: a solidão, a fome, o sentimento de exclusão e o conflito dos poderosos versus oprimidos, que era levado às últimas conseqüências diante da praga do medo, do indomável sonho e do paradoxo de ser livre.

Através das 13 jornadas que delineiam o tudo e o nada, João Denys vai levando os atores e consequentemente os espectadores a descer fundo nessa condição abismal e cruel da existência humana. Como Beckett e Artaud ele procura seduzir o corpo, acariciando a pele para cravar profundamente e maravilhosamente as unhas nas vísceras/alma do humano.

“Deus Danado” me instigou como diretora a buscar um teatro que atingisse o espectador não somente em seu campo racional, mas também em seu campo emocional, buscando, na concepção cênica do espetáculo, uma ação teatral que despertasse os sentidos reprimidos por séculos e séculos de cultura repressiva.

Instigada pela coragem do texto e pela força das imagens que me vinham após a leitura, procurei dissolver, através de uma abordagem radicalmente dialética, as dicotomias e as fronteiras discutidas pelo autor, como crítica à uma sociedade dividida em classes que exalta e alardeia a compreensão isolada da realidade humana. Unidades conflitantes oriundas de realidades diferentes que antes de serem antagônicas e opostas, são essencialmente complementares e em permanente transformação.

Desse modo, claro e escuro, vida e morte, dia e noite, alma e corpo, divino e profano podiam se enlaçar para que o dois, se tornasse um. Como num espelho refletindo o duplo, o homem e a terra puderam se fundir numa só cinzenta e perturbadora matéria orgânica. Nessa aproximação entre o teatro e a vida, João Denys nos provoca e nos instiga a olhar a realidade através de uma lente de aumento. É o reflexo da degradação humana e da degradação física do ambiente onde interagem, Teodoro e Luiz, se juntando para falar do vazio e da condição humana.

É a busca pelo sentido real da existência, que tanto atormentava Artaud: “Precisamos acreditar num sentido da vida renovado pelo teatro, onde o homem impavidamente torna-se o senhor daquilo que ainda não existe, e o faz nascer”. O texto de João Denys, a meu ver, não só é uma luz que emerge na dramaturgia, como também a possibilidade do grito de artistas que, mergulhados na provocação do autor, se esvaziam e se completam, loucamente, na tentativa de roçar, a fúria dos girassóis de Van Gogh.

Herê Aquino é diretora de teatro.