O desejo e a posição do sujeito

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Tudo começa pela coragem de Ingrid em permanecer fiel à letra de Lacan e de se responsabilizar, com muita propriedade, por tal escolha. À moda de Antígona, isto é, sem concessões e reconciliações, não abdica de perseguir as questões que moveram sua escrita: "Por que Lacan, ao formular a ética própria à psicanálise como sendo uma ética do desejo, recorreu à Antígona de Sófocles?", "Em que a tragédia antiga ilumina a ética própria à psicanálise?". Essas indagações são o próprio questionamento do que move uma escrita que, na trilha aberta por Freud, tem como referência teórica a aliança entre o psicanalista e aquele que o antecede, o poeta, seu mais precioso aliado. Ora, um trabalho deste porte não poderia ser realizado caso a autora tivesse sido acometida pelo conhecido furor obsceno de muitos analistas em aplicar conceitos psicanalíticos à arte. Muito ao contrário: seu método de investigação consistiu em abordar a bela e trágica figura de Antígona pelo avesso, até extrair o elemento que teria capturado Lacan em sua fundamentação da ética da psicanálise - a posição de absoluta solidão da filha de Édipo, do que nela resulta "inantecipável e imprevisível, do que ainda não fez a passagem do silêncio à palavra".

A ética na tragédia

Assim, entre os passos e rastros da obra do mestre de Paris, Ingrid apresenta a problemática da ética na tragédia como portadora de uma enunciação singular, sem com isso constituir um saber sobre ética, como o é a filosofia. A tragédia interroga, questiona, problematiza em ato, ao invés de buscar respostas em um determinado saber. Ela escancara a céu aberto o paradoxo daquilo que, mesmo tendo advindo da injunção divina, não exime a responsabilidade humana; ao contrário, a convoca. Face essa diferença surge uma nova indagação - Qual é a relação entre ato e desejo? -, que serve de dobradiça para a autora articular tragédia antiga e cena analítica.

Diversos feixes

O leitor é então convidado a se inteirar da função real da tragédia antiga, ao mesmo tempo em que a autora, no esteio da teorização lacaniana, apresenta o campo do desejo incidindo sobre o real. Tal enfoque deixa claro que, na aurora do século XX, a psicanálise resgata o retorno da tensão característica da tragédia antiga pela qual um sujeito é convocado a responder por aquilo que se lhe apresenta como radicalmente exterior, bem como inassimilável ao conhecimento, o real. Os desdobramentos dessa tese inicial não poderiam deixar de desembocar num estudo sobre a tragédia Antígona. Acompanhada por helenistas, filósofos e mitólogos apaixonados pela última peça da trilogia tebana, Ingrid convoca o leitor a conhecer o universo, tão distante quanto próximo a si mesmo, da tragédia antiga. Dona de uma invejável erudição e poder de transmissão, consegue aberturas ao infinito da peça de Sófocles sem o menor constrangimento, graças ao seu estilo de narrar claro e sintético. Sob a força dessa abordagem interdisciplinar o livro torna-se referência obrigatória para todos os campos do saber que se interessam pela ética, como escreve o filósofo e escritor renomado, Luiz Alfredo Garcia-Roza, na contracapa. No campo da psicanálise, a astúcia da autora em fazer o analista mergulhar no universo grego significa uma confortável antessala para que possa apreender melhor a enigmática ideia lacaniana do desejo como dever ético.

Sobre o tema da responsabilidade trágica, a autora propõe uma interessante torção entre causalidade e responsabilidade, retomando as raízes do conceito freudiano do inconsciente em íntima consonância com a formulação lacaniana sobre o juízo ético apresentado em A Ética da Psicanálise - "Agiste conforme o teu desejo?" Aqui se clarifica porque o desejo move e convoca o sujeito à responsabilidade por aquilo que, sendo o mais radicalmente alheio, é também paradoxalmente, o mais íntimo. A análise da complementariedade entre o inconsciente freudiano e juízo ético é a base da formulação de que "desde a perspectiva da ética da psicanálise o desejo se formula em impasse: 'Deseje!'". Este imperativo é descontínuo com a lei (mas em referência a esta) e se realiza em ato, uma injunção inconsciente pela qual o sujeito deve se responsabilizar. É essa mesma ordem de acontecimento que a Antígona de Sófocles apresenta: a heroína trágica age em conformidade à injunção que, advinda de um lugar Outro, torna-a sua lei, aquela que fundamenta o seu ato. E se Antígona está no centro da elaboração lacaniana da ética da psicanálise é porque seu ato é o emblema "da ética do sujeito posto em cena".

Considerações finais

A ética na qual o analista deve basear sua práxis não é da mesma ordem daquela atribuída a outras profissões ou ofícios regidos por um código de regras. Na ética da psicanálise, o que rege o ato do analista, não pode sustentar-se em nenhum suposto Bem Supremo, pois não se trata de uma técnica voltada à felicidade. Nem poderia ser, como demonstra Ingrid em seu estudo consequente sobre o seminário de Lacan O ato analítico, cujas diretrizes permitem sublinhar a dimensão objetal do sujeito da psicanálise que, como o herói trágico, advém de uma perda. É a essa consideração que se dedica a autora, de maneira audaciosa e apaixonada, ao demonstrar que a problemática ética posta em causa pela psicanálise encontra-se implicada tal como condensada na formulação freudiana elevada à condição de imperativo ético por Lacan: "Onde isso estava, o eu advirá".

Enfim, para encerrar gostaria de dizer que na babel lacaniana do cenário psicanalítico contemporâneo Antígona e a ética trágica da psicanálise merece saudações pela audácia das teses sustentadas e pela escrita totalmente despida de jargões que frequentam as publicações psicanalíticas contemporâneas. Sem dúvidas, Ingrid Vorsatz mergulhou na terceira margem do rio, como o herói do conto de Guimarães Rosa que decide abandonar a família e ir-se numa canoa para o meio do rio sem nunca voltar a uma das duas margens possíveis. Desde esse lugar solitário, nossa autora sustenta a decisão de exercer, em ato, o desejo de transmissão de um saber que não se sabe.

SAIBA MAIS

GUYOMARD, Patrick. O gozo do trágico: Antígona, Lacan e o desejo do analista. Rio de Janeiro:

Zahar, 1996

ROSENFIELD, Hathrin. Sófocles & Antígona. Rio de Janeiro:

Zahar, 2002

VORSATZ, Ingrid. Antígona e a ética trágica da psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar, 2013