O cotidiano filtrado pela subjetividade

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Em "Tempos de angústias", o tempo é a temática da vez, tomado na sua dimensão negativa, a partir de uma reflexão que o compreende como uma realidade que nos apressa, que nos irrita, que leva embora. A angústia que o tempo carrega é marcada, no início, através de um sinal de trânsito que indica o tempo que falta para o semáforo ficar vermelho. "É o tempo dos angustiados!" Acrescenta-se à angústia dos despertadores de relógio, de celular, de computadores a angústia dos semáforos. E a angústia causada pelo tempo continua sendo o foco da narrativa: lembrando o dia do casamento, uma confusão porque a mulher não queria ficar a noite de núpcias no Solaire Grooms. Só se fosse para passar dias. Isso porque ela se sentiu chocada ao ver uma noiva, ainda de vestido, às oito horas da manhã, sair do hotel. O marido retruca afirmando que ela teve oito anos para pensar nisso. Também outra confusão porque a mulher não queria esperar enquanto o marido tomava um pouco de refrigerante. É a recordação, o saudosismo. É o tempo, é a pressa...

As moscas.

Num restaurante, toda a família se reúne para almoçar, tradicional hábito. A paz do encontro familiar é quebrada por algumas indesejadas companhias: as moscas. Como se não bastasse, chega Pablo, o torcedor mais chato da cidade. Este não fala de outra coisa que não futebol, e fala muito. E é nesse costumeiro encontro que a narrativa se desenvolve. Talvez seja essa a crônica mais representativa da segunda parte do livro, tendo em vista o enfoque assaz acentuado em situações que ocorrem em ambiente familiar.

No calcanhar dos outros

Chegamos à crônica cujo título dá nome ao livro: Crochê de palavras. É uma narrativa triste, de tom melancólico. Mais uma vez a crítica à vida moderna está presente. Agora o alvo da censura é a futilidade que as mocinhas de hoje em dia aprendem em detrimento de outras atividades que seriam mais proveitosas para sua educação. É neste sentido que a vó lança uma crítica para a neta, e também fala disso para a filha, a qual discorda, alegando que os tempos são outros, mudaram. A filha disse também que tudo o que ela cultivou não serviu para nada. Tal comentário da filha acende na velha senhora a saudade pelo tempo que já passou. As reflexões que seguem são um tanto melancólicas: "Guardo no coração as melodias que aprendi e isso me alegra. A música, a boa música, é terapia inconsciente. Bordar me faz esquecer da tristeza e da solidão." O comentário seguinte é de um forte teor filosófico. O tricô, o crochê, o bordar, tudo isso é colocado como atividades de sustento, não apenas de sustento material, mas existencial. A vida é comparada ao ato de bordar. São os emaranhados de ambos. As habilidades necessárias para bordar também se fazem presentes na arte de viver. Enfim, o comentário: "Foi com o tricô que criei você! (...) Bordar é arte, Laura! Como ocorre durante o coser dos tecidos, nossa vida é emaranhado de fios interligados; se desatentos, daremos muitos nós cegos, difíceis de serem desfeitos. Viver requer atenção. Bordar também: atenção, disciplina, regularidade, afeição. Só assim os frutos serão reconhecidos e darão prazer ao artífice." Depois de uma leve discussão, foi a vó chamar a neta. Esta passaria a acordar cedo, arrumar a própria cama, fazer um curso de piano e aprender a bordar, fazer tricô e crochê. A tudo isso a adolescente rejeita, alegando, como a mãe, que a vida mudou, que apenas gosta de ouvir música, que se precisar usar um cachecol compra feito. A moça quer estudar, precisa estudar. Pois bem. O inexorável tempo passou. A moça adolescente cresceu. "Virou mulher. Casou, sem se formar, e, agora, depois que ficou sozinha com a única filha, tenta aprender, pela internet, os pontos em cruz dos bordados - foi a forma que encontrou para criar a filha, depois que o marido sumiu."

Gol de placa

Esta é a crônica em que a ironia do autor se revela da maneira mais sagaz. Fala da outorga da medalha Machado de Assis ao jogador de futebol Ronaldinho Gaúcho. Diz o autor da crônica que não ficou surpreso, "afinal de contas, quem é ou quem foram Machado de Assis e José Lins do Rego? Esses dois caras fizeram o quê? (...) Mas Ronaldinho Gaúcho, esse, sim, é o cara!" A crônica ridiculariza o jogador pela sua pouca formação intelectual ao afirmar que ele deve conhecer, talvez, dois gêneros de literatura: o feminino e o masculino... A crítica, no entanto, toma alguma gravidade quando pergunta como deve sentir-se João Ubaldo Ribeiro e Ariano Suassuna. "Estariam animalizando nossa academia? Os restos mortais, ainda frescos de Moacyr Scliar, devem estar em polvorosa!" A narrativa não fica apenas na medalha Machado de Assis, mas desce para falar da futilidade que tomou conta da nossa geração, ao que faz um comentário marcadamente político: "A política do pão e circo ou 'panem et circenses' ainda reina entre nós. A distribuição mensal de pães no 'Pórtico de Minucius', assegurando o pão cotidiano e a realização de espetáculos onde figuram Ronaldinhos, entretém a massa, gerando urros de euforia e alienação."

Mais uma vez o livro tece comentário acerca de acontecimentos bem atuais. De maneira irônica e criativa, Oba, podemos matar! critica a legalização do aborto de anencéfalos. Lamenta a relativização de tudo - "processemos o Albert !" Para a política ineficiente, para o cinismo dos políticos, a pergunta: "Onde estão os homens de cérebro?" A crônica critica o aborto valendo-se de algum pensamento religioso: "Matemos o verbo que se fez carne! Afinal, somos, no presente! O passado a gente esquece e o futuro não lembro mais a quem pertence, é essa a ideologia!" Também a narrativa dialoga com certa música sensual para denunciar a esperteza dos políticos, os quais se valem da alienação popular para imprimir, implacáveis, sua corrupção: "Ai que delícia! Assim ninguém me pega! Agora vou poder matar!" Cinco vezes, depois de alguma reflexão, temos a frase: "Refletindo... (Tenho cérebro, logo tenho vida!)."

Na vida, antes e depois

Nesta quarta e última parte do livro, quero apenas realçar uma crônica: Mulheres e seus meneios. Como podemos inferir já pelo título, o tema é a mulher. Nada mais comum que tratar da sedução feminina. A complicada mas essencial presença da mulher na vida do homem. De um modo bem divertido, a crônica vai traçando as diferenças entre o homem e a mulher. A brutalidade e a praticidade de um lado e a leveza e a demora cuidadosa de outro. Ao final, o cronista se confessa, então, totalmente vencido, inebriado pela beleza feminina: "São todas belas, místicas e únicas. Todas me vencem."

SAIBA MAIS

BARTES, Roland. Análise estrutural da narrativa. Petrópolis: Vozes, 1976
MOISÉS, Massaud. A criação literária. São Paulo: Cultrix, 1994
TODOROV, Tzvetan. As estruturas narrativas. São Paulo:Perspectiva, 1969