O cavalo e a geração de gêmeos divinos: análise simbólica

A existência de Gêmeos Divinos é um tema recorrente nas mitologias de todo o mundo. Considerado um fenômeno sobrenatural, a geração de gêmeos não se dava de forma convencional, mas através da união de um mortal de sangue nobre e de um Deus, geralmente metamorfoseado em um animal, o qual alguns autores afirmam ser um cavalo

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O fenômeno dos Gêmeos, desde os tempos antigos, desperta o fascínio e o medo nos seres humanos. Interpreta-se o par de gêmeos ou como uma manifestação de todas as oposições, ou como uma manifestação da simetria perfeita. No primeiro caso, os gêmeos representam todos os pares opostos: um é claro, o outro é escuro, um representa o Sol, o outro a Lua, um é branco, enquanto o outro possui a pele escura, ou ainda, um é vermelho, o outro é azul. Dia e noite, Céu e Terra, Feminino e Masculino, enfim, todas as dualidades estão presentes na presença de dois irmãos gêmeos, assim como a tensão que acompanha estas oposições.

As representações

Além de representar o oposto na natureza, os gêmeos representam também, os opostos da própria natureza humana celeste e terrestre, inconsciente e consciente, animal e, portanto, instintivo, ao mesmo tempo que, humano e cognitivo. É esta uma das razões pelas quais os gêmeos são revestidos por um significado sacrifical, isto é, há a necessidade da destruição, do abandono ou da submissão de um dos irmãos para que o outro, assim, se desenvolva.

Chevalier e Gheerbrant (1988) nos informam sobre a crença de que para produzir gêmeos é necessário a união de um mortal com um Deus, mas este Deus, não obstante, está metamorfoseado em um animal.

David Leeming (2004) afirma que é do cruzamento entre um cavalo e uma mulher de sangue nobre que os gêmeos divinos são gerados e que o aspecto sacrifical, onde um perece e outro é mantido vivo, é necessária para a geração de um Cosmos, ou ainda, a fundação de uma cidade, como Roma que tem em sua origem o mito de Rômulo e Remo.

Ao analisarmos o símbolo do cavalo, de fato, encontramos particularidades neste animal que o liga a ideia das oposições. O método utilizado foi a Indução Analítica de base bibliográfica e documental. Através da leitura crítica dos mitos dos povos europeus pré-medievais - dos celtas, dos gregos, dos romanos, dos nórdicos e dos bálticos - sobre o Cavalo e os Gêmeos Divinos, norteados pelas construções teóricas de Mircea Eliade (1992) em o "Sagrado e o Profano" e, ainda, pelos Dicionários de Símbolos.

Um animal sagrado

Um dos símbolos mais poderosos e profundos da humanidade, o cavalo, possui uma ligação, assim como o touro, com o Fogo e a com a Água. É originalmente um símbolo ctônico, ligado à Lua, que sai galopante e veloz tanto das entranhas da Terra, como das profundezas das águas. Apesar de ser originalmente lunar, também possui um simbolismo forte solar, uraniano e celeste, representado pelo cavalo branco, ou o cavalo alado, como o Pégaso da mitologia grega. Neste seu aspecto é montaria de Deuses, reis, heróis, santos e conquistadores espirituais.

É, portanto, uma figura ambivalente que ora nos persegue em sua corrida infernal e está ligado aos rituais de morte, pois é considerado o guia da alma no outro mundo, o psicopompo, e ora é veículo, montaria, símbolo da vitória do homem espiritual, da fertilidade, associado à renovação do reino vegetal e à realeza. É, portanto, o instinto controlado e sublimado.

A relação cavalo-cavaleiro é uma relação mútua, psíquica, onde um é alternadamente guia do outro. Se esta relação intuitiva falhar, ambos se destroem, mas se for bem sucedida, ambos triunfam.

O Destino do cavalo e do cavaleiro está ligado e depende dessa relação sutil e intuitiva. Aliada a esta questão, está o fato de o cavalo enxergar durante a noite, sua associação já citada com a Lua e sua habilidade de clarividência, isto é, de enxergar também o que se passa no mundo espiritual. Os atributos psíquicos, a psiquê não-humana, memória do mundo. Todos estes atributos se somam na associação do cavalo com o xamã e à prática do xamanismo. Chevalier e Gheerbrant (1988) explicam que a maior parte dos assessórios xamânicos estão ligados ao cavalo, dentre eles o tambor, feito do couro deste animal, e designado dentre as culturas xamânicas como "o cavalo do xamã".

Outro acessório xamânico é a bengala-cavalo, cuja a parte superior tem a forma da cabeça de um cavalo e que lembra os cabos de vassoura das feiticeiras ocidentais (1988: 204). Ainda nas práticas xamânicas, durante a possessão, o possuído transforma-se através do transe e da dança em um cavalo para se permitir ser "cavalgado" pelos espíritos. O mesmo termo, explica ainda Chevalier e Gheerbrant, é utilizado para os adeptos do culto dionisíaco que dizia-se, quando em transe, eram cavalgados pelo Deus. O significado desta transformação do xamã ou sacerdote em um cavalo é a de que este abdica durante a possessão ou transe, de sua própria personalidade para que a personalidade de um Espírito Superior se manifeste. Ele cavalga e é cavalgado.

Francisca Paula Mendes
Carlos Velázquez
Especial para o ler

Paula Viana Mendes é graduada em Comunicação Social pela Unifor e aluna de Artes Visuais da mesma Instituição. Paulavianamendes@hotmail.Com.

Doutor em música antiga pelo Conservatório Nacional de Rancy, França. Coordenador do Movimento Investigativo Transdisciplinar do Homem - Unifor.
Caveru@unifor.Br