O adeus a um sonho e um sonho de adeus

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Alcides Villaça diz-nos que há uma parceria poderosa na poesia de Álvares de Azevedo fazem o amor e a morte

Trata-se de um tema nuclear, em que parecem confundir o desejo de amar e o desejo de morrer, reafirma o professor e crítico literário. A temática mórbido-amorosa de Álvares de Azevedo pode ser encontrada em "Adeus, Meus Sonhos!" (Texto I): O niilismo deste poeta é marca inconteste das influências literárias de que bebeu. Byron, poeta inglês, serviu-lhe de maior referência. A estrutura de "Adeus, Meus Sonhos!" foge dos padrões clássicos, o que é característica do Romantismo, em geral, e de Álvares de Azevedo, particularmente.

Leitura do poema

O poema tem apenas três estrofes, distribuídas em quartetos, no esquema de rima ABCB, rimas pobres (saudade/mocidade; fruto/luto; e amores/flores). É possível identificá-las também como rimas do tipo consoante, já que há identidade, em todas elas, entre consoantes e vogais; são, ainda, rimas graves, todas formadas por paroxítonas. A primeira estrofe do poema estabelece-se por um diálogo do eu-lírico com o vocativo "meus sonhos", isto é, é a eles que se dirige, estilisticamente em primoroso tom exclamativo. A assonância do primeiro verso na letra "a" confere musicalidade ao ritmo poemático. O pessimismo de "pranteio" e "morro" elucida a sensação de um prenúncio mórbido que se aproxima. Ao pessimismo, conjuga-se um tom lamentoso, já que a morte, ao negar a vida, nega igualmente o que parece ter sido a tônica da "existência" do sujeito lírico: a saudade, que é um dos pilares românticos, ainda mais dramatizado pelo fato de o fim aproximar-se na "mocidade", que por isso e pelo seu próprio percurso existencial, deu-se de modo "triste". Mitifica-se a lírica, e o poeta ensaia ser um herói de si mesmo.

Trata-se, na primeira estrofe, de efeito de sentido fúnebre, como uma despedida, uma preparação para a, nas palavras de Manuel Bandeira, "indesejada das gentes", embora, neste caso, não se trate de uma rejeição; é mais um prazer, fuga que faz do sujeito livre de sua condição humana, paradoxalmente àquele tom lamentoso. Dá-se "adeus", assim, às ambições da vida ou, do mesmo Bandeira, à "vida inteira que podia ter sido e que não foi.". Na segunda estrofe, o eu-lírico define-se como "Missérrimo!", superlativo que acentua o drama de se ver prestes a morrer; é uma autoconfissão angustiada, justificada por "pobres dias", "amor sem frutos", "minh´alma na treva", figurações de um estado de tédio espiritual, seja pela metáfora de um "amor" como uma árvore seca, estéril, seja pela personificação de "treva" e "morte", que parecem ganhar, no plano antitético em que se encontra seu discurso, dimensões maiores que seu estado de "luto". O "amor", entre as razões que à morte o ligam, parece ser pano de fundo para todas as circunstâncias que o envolvem.

TEÓFILO LEITE BEVILÁQUA
Colaborador*
*Do Curso de Letras da Uece