Nos trilhos do tempo

O arquiteto José Capelo Filho é dono de um acervo de fotografias registradas por Mister Hull, dentre as quais de estações ferroviárias do Ceará. Com o material, publica, ao lado da arquiteta Lidia Sarmiento, o livro "Arquitetura Ferroviária no Ceará: registro gráfico e iconográfico"

De um tempo em que os trens do interior transportavam passageiros além das cargas, o Ceará chegou a possuir 58 estações ferroviárias, perfazendo um total de 600 km. Isso é o que conta o arquiteto José Capelo Filho, dono de um acervo impressionante com mais de 4000 fotografias, que outrora pertenceram a Mister Hull. "Conheci a mulher de Julian, filho de Mister Hull com uma cearense, que queria doar os álbuns depois que o marido faleceu, então eu fiquei. As mapotecas, esses móveis, também comprei dela", explica Capelo, apontando para as mobílias de seu escritório, as quais hoje abrigam livros, documentos e relíquias sobre a história do Ceará.

Com o material em mãos, o arquiteto reuniu as imagens, ao lado de sua esposa, a também arquiteta Lidia Sarmiento, com o objetivo de registrar informações valiosas durante o processo de restauração das estações ferroviárias, com base em dados reais, ou simplesmente conhecer mais sobre a história do Ceará. O livro será publicado ainda este ano, através da Secult. Algumas estações, aponta com tristeza, estão abandonadas, perderam detalhes valiosos, como arremates do telhado, ou se encontram perdidas no meio da vegetação que tomou conta da paisagem.

"Cada imagem será acompanhada por um registro gráfico e iconográfico, com informações sobre a data de inauguração das estações, altitude, posição quilométrica, o nome anterior e o atual. Além disso, há desenhos de plantas, que encontrei no acervo de Mister Hull", explica. Tanto detalhamento é fruto da obsessão do ilustre gerente de estrada de ferro, que hoje dá nome a uma das avenidas de Fortaleza. Por trás das imagens, é possível se deparar com um senso de organização de quem queria registrar pessoas, animais, detalhes de casas, além de outras informações, anotadas também em índice. Nos livros, a marca registrada do colecionador retrata a preocupação em apontar a origem do acervo.

"Tenho também documentos importantes como o balanço anual da estrada de ferro de Baturité, de 1912 a 1915, com informações sobre a arrecadação, o número de vagões...", descreve. Outro livro, entre os achados, é do Engenheiro Ernesto Antônio Lassance Cunha, onde se observam dados, descrições sobre a economia de municípios e localidades do Ceará. "Já aí se pensava, por exemplo, em ligar o Ceará ao Sul da República. Havia também a preocupação em minorar os efeitos da seca e desenvolver a lavoura e a indústria do estado".

História

"No dia 3 de agosto de 1873, cerca de 8000 fortalezenses - a quase totalidade da população da capital cearense de então! - vieram, meio assombrados, assistir, na rua do Trilho de Ferro, hoje Tristão Gonçalves, à passagem barulhenta do primeiro trem que andou espantando todo mundo, na via pública, com o seu apitar estridente e esquisito".

A passagem do texto de Raimundo Menezes, em "Crônicas Históricas da Fortaleza Antiga", retrata a cena ocorrida no Campo D´Amélia, atual Praça Castro Carreira ou da Estação, por ter sido escolhida para abrigar a estação central da Estrada de Ferro de Baturité. Durante a inauguração, o trem fez algumas viagens, acompanhadas de aplausos da população.

FIQUE POR DENTRO
Um engenheiro que gostava de colecionar imagens

O arquiteto José Capelo Filho conta que o inglês Francis Reginald Hull, ou Mister Hull, como é mais conhecido, chegou ao Ceará em 1913, nomeado para o cargo de Superintendente Geral da Brazil North Eastern Railway, arrendatária da Rede Ferroviária Cearense, para explorar o serviço de trem. Era uma criação da South American Railway Construction Company Limited. Além da ocupação como engenheiro ferroviário e hidráulico, Mister Hull dividia seu tempo fotografando, colecionando cartões-postais, contando a história dos locais por onde passava por meio das imagens, muitas delas hoje no arquivo do arquiteto. Curioso, estudou as secas do estado, quando descobriu a ligação do fenômeno com as explosões solares, que ocorrem com uma variação sazonal de 9 a 11 anos. Um quadro com o gráfico, inclusive, encontra-se no escritório de Capelo. Segundo o arquiteto, o inglês ainda era dono da biblioteca mais importante do Brasil do ponto de vista de documentação do período colonial.

SÍRIA MAPURUNGA
REPÓRTER