Mistério de sapatilhas

A escritora Socorro Acioli lança hoje seu novo livro, "A bailarina fantasma", com trama ambientada no Theatro José de Alencar

A história é antiga. Alguns funcionários e frequentadores do Theatro José de Alencar, equipamento tombado como patrimônio histórico do Estado, juram ter visto o fantasma de uma bailarina rondando o palco e os corredores do local. Segundo os relatos, ela aparece de repente, em meio a uma brisa gelada, quase transparente e com voz sussurrada. Convenhamos: a história causa frio até na barriga dos mais céticos.

Mas o que poderia causar temor virou um livro cativante, repleto de mistério e de muita delicadeza, graças ao talento da escritora Socorro Acioli. A cearense inspirou-se nos tais depoimentos para escrever "A bailarina fantasma", sua 13º obra voltada ao público infanto-juvenil. O lançamento acontece hoje à noite no TJA, claro.

"Tudo começou em 2005, quando Mileide Flores me encontrou no Circo das Letras, uma feira de literatura infantil e juvenil que aconteceu por dois anos no Dragão do Mar. Ela me contou que a editora Biruta, de São Paulo, estava começando uma coleção de livros de mistério em locais históricos e me sugeriu que eu entrasse em contato com a Eny Maia, dona da editora, propondo alguma coisa sobre o Ceará. Na hora não me ocorreu nada, mas uma moça que estava no stand escutou a conversa e perguntou se eu já tinha ouvido falar no fantasma da bailarina do Theatro José de Alencar. O tema me conquistou de cara", recorda Acioli.

Entre o projeto e o texto finalizado foram quatro anos, período em que a escritora conversou com muita gente, entre artistas, funcionários e ex-funcionários. "Foi uma longa pesquisa. Segundo os entrevistados, a bailarina aparece no porão, no foyer, no palco e nas passarelas. Alguns dizem que ela fala que precisa ensaiar. Sempre está de roupa de balé azul, cabelos soltos e todos que viram contam que é uma moça muito bonita. Fiz algumas modificações, omiti nomes, mas as histórias aconteceram. São cenas arrepiantes! Mas isso era tudo o que eu tinha sobre ela quando comecei a escrever. O resto é criação".

Durante a pesquisa, Acioli ouviu várias explicações para a presença do espírito da bailarina, mas, segundo ela, nenhuma se confirmava ou renderia uma boa história. "Seria impossível e inútil seguir essa busca, por isso preferi criar a minha resposta para a grande pergunta: quem é a bailarina fantasma? Por que ela aparece?".

Inspiração

A escolha traduziu-se em uma história que conquista o leitor - jovem e adulto, ressalte-se - logo nas primeiras páginas, quando são apresentados os personagens. Cativa em especial a descrição da menina Anabela, que vai encontrar a bailarina e desvendar seu mistério, graças ao novo emprego do pai, Marcelo, arquiteto selecionado para coordenar a reforma no Theatro José de Alencar.

A partir do encontro das duas, desenrola-se uma narrativa envolvente, para ser lida de uma só vez. "Personagem ficcional é quase sempre meio Frankstein, várias pessoas que passam pela minha vida acabam servindo de inspiração para os personagens. O Marcelo é um pai muito legal e parece com alguns pais que conheci. Já a Travessa do Anjo, nome da casa dele e da filha, é diretamente inspirada na casa das artistas Alba Alves e Vilanir, aqui de Fortaleza. É um lugar mágico. Por outro lado, eu não tinha percebido que algumas coisas da minha vida estavam entregues no livro. Deixei escapar um bocado de mim nos personagens. Especialmente na Anabela", observa a autora.

Além dos relatos sobre a bailarina, a história também se desenrola a partir de outro fato verdadeiro: a origem da estrutura de ferro do TJA, que veio da Escócia, fabricado pela MacFarlane & Co. "Mas essa é a única coisa real. O resto é criação literária. Compreendi que não queria fazer um livro histórico e sim uma ficção baseada em uma linha do tempo real. O pesquisador Ary Bezerra Leite, que desenvolve um trabalho impressionante de pesquisa sobre cinema e teatro em Fortaleza, foi uma ajuda preciosa para a revisão de fatos do livro, esclarecendo pontos que precisavam ser ajustados ou até retirados. Apesar disso, a obra não tem a pretensão de contar a história do TJA. Sou romancista e meu trabalho é emocionar", esclarece a autora.

Identidade

Obras inspiradas em locais e personagens relacionados a Fortaleza não são novidade no currículo de Socorro Acioli. Em "Casa dos Benjamins", outro trabalho voltado para o público infanto-juvenil, ela traz a história da casa onde a escritora cearense Rachel de Queiroz escreveu o seu primeiro livro, "O Quinze".

"Depois eu soube que a equipe da Prefeitura de Fortaleza que começou o processo de tombamento da casa usou trechos do meu livro no documento oficial. Foi uma das maiores emoções da minha carreira. Eu não escrevo literatura engajada e nunca imaginei que esse tipo de consequência pudesse acontecer. Mas saber que acontece é felicidade demais, é estímulo para continuar", comemora.

No caso da "Bailarina fantasma", Acioli revela que ficaria muito contente se os jovens leitores se descobrissem tão apaixonados pelo TJA como ela sempre foi, desde criança. "Até hoje eu me surpreendo com ele, mesmo depois de tantos anos frequentando a casa como público e como pesquisadora", enfatiza.

Detalhes do prédio do teatro inspiraram as ilustrações do livro, executadas pelo premiado artista gráfico Gustavo Piqueira, da Rex Design (São Paulo). "O que acho mais fantástico é a escolha das cores rosa e preto. Ele conseguiu criar o clima perfeito para a história, o delicado e o sombrio, o amor e o mistério, o nascimento e a morte. Quando recebi o livro fiquei absolutamente perplexa com a qualidade do projeto gráfico", emociona-se Socorro.

Por uma feliz coincidência, o lançamento do livro acontece no ano em que o TJA completa um século de existência. Tudo graças ao perfeccionismo da autora, que escreveu inúmeras versões antes de chegar ao texto final. Agora resta saber se a protagonista fantasmagórica vai comparecer ao encontro de hoje. "Nunca vi a bailarina, mas acredito ser possível alguém que já partiu voltar por algum motivo. Dei várias chances para que ela aparecesse durante o processo de pesquisa e escrita. Fiquei no TJA sozinha, no porão, no palco com a cortina fechada, tudo escuro, no foyer, e nada. Entendi esse silêncio como a permissão para que eu criasse a minha própria versão desse mistério. Esse livro tem me trazido muitas alegrias, amigos e encontros. Se a bailarina realmente existe, acho que ela gosta de mim". Além de talentosa, a moça é corajosa.

Fique por dentro

Conheça a autora

Nascida no Ceará em 1975, Socorro Acioli é jornalista, com Mestrado em Literatura Brasileira pela Universidade Federal do Ceará. Recentemente tornou-se doutoranda em Literatura Comparada pela Universidade Federal Fluminense. Em 2006, foi aluna de Gabriel García Márquez na oficina de criação e roteiro "Como contar um conto", em Cuba. No ano seguinte, ganhou bolsa de pesquisa da Biblioteca Internacional da Juventude de Munique, Alemanha. Tem 15 livros publicados. Por seus livros infantis, já recebeu o Prêmio de Melhor Obra Infantil da Secretaria de Cultura do Estado do Ceará, o Selo Altamente Recomendável da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil e foi finalista do Prêmio João de Barro da Prefeitura de Belo Horizonte, com o livro "O anjo do lago", também publicado pela Editora Biruta. "Mas ´A bailarina fantasma´ foi o trabalho que mais gostei de fazer até hoje. E o mais difícil de todos", revela.

Infanto-juvenil A bailarina fantasma
Lançamento do livro "a bailarina fantasma"

Editora biruta
2010
184 páginas
R$ 34,00

Hoje, das 16h às 20h, no Theatro José de Alencar (Praça José de Alencar, s/n, Centro). Fone: 3101-2583. A partir das 16h será realizada uma visita guiada com a autora do livro.

ADRIANA MARTINS
REPÓRTER