Metal

Nascido há 40 anos, o heavy metal é um dos gêneros mais fortes do rock. Suas origens, encobertas por lendas e imprecisões, são o tema do Caderno 3 de hoje, que também lança um olhar sobre a cena de metal em Fortaleza

Evento cativo da programação das férias de julho, o ForCaos é um retrato das transformações por que passou a cena de metal - e não apenas nos limites do Ceará. Na escalação das bandas que tocam no festival promovido pela Associação Cultural Cearense do Rock (ACR), cabe bem mais que os gêneros da árvore genealógica do heavy metal. Em sua 12º edição, que acontece dias 16 e 17 de julho, o cardápio de 20 bandas contempla do blues de Felipe Cazaux ao punk do Lavage, passando pelo metal, com grupos como Project 666, Roadsider e Obskure. No entanto, o evento é uma cria da cena metaleira, que passou boa parte das décadas de 1980 e 1990 em guetos, menos por vontade própria, mais pela visão estreita de quem estava de "fora".

O sociólogo Amaudson Ximenes, presidente da ACR e headbanger (metaleiro) desde meados dos anos 1980, lembra que o solo era árido para o metal naquela época. "Era mal visto. Era algo muito estigmatizado. Teve até uma polêmica na imprensa, com um médico que disse que o metal estava totalmente atrelado às drogas. Hoje, a situação mudou. O gênero está dentro dos centros culturais da cidade. O Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura vai abrigar o ForCaos 2010, que teve lançamento no Sesc Senac Iracema", compara.

Até o final dos anos 80, a imprensa costumava ser indiferente indiferença à cena. "Era difícil ter espaço nos jornais. A situação só melhorou quando quem gostava de rock mais pesado entrou na faculdade de jornalismo, como o Roberto Kid, o Luciano Almeida Filho e o Ricardo Jorge", conta, referindo-se a jornalistas locais que já passaram pelo Caderno 3.

O próprio ForCaos nasceu desse isolamento. O festival teve sua primeira edição em 1998, um ano antes de a ACR começar suas atividades. "Não sei se você lembra, mas na época o Fortal parava a cidade. Ou você ia ou viajava. Foi aí que resolvemos criar um evento, só com as bandas locais. Eram 27 delas. No primeiro ano, trouxemos o Marcos Cardoso, que escrevia na revista Planet Metal. No ano seguinte, já vieram outras revistas conhecidas, com Rock Brigade. Depois, a Road Crew. Aí já tinha gente de Brasília aperreando para tocar - e foi quando abrimos para as bandas de outros estados", detalha. O ForCaos nasceu no Centro, num antigo casarão na rua Tristão Gonçalves, próximo à Praça da Lagoinha. Em 2002, se mudou para a casa de shows Metrópole. Hoje, não há mais o sentido de contraponto à micareta e os eventos já acontecem em datas diferentes.

Garimpo

Ser um fã de metal no Ceará, nos anos 80, exigia dedicação e talento para garimpar os "metais preciosos". As lojas de disco que contemplavam o gênero eram poucas. "Na rua 24 de Maio, tinha a Purgatory. Abriu a Ópus Discos na Galeria Pedro Jorge (mais conhecida, hoje, como Galeria do Rock). Tinha também a Francinet Discos, onde a gente encontrava alguns discos de heavy metal e rock mais pesado. Nessa você comprava Black Sabbath, Accept, Whitesnake, Iron Maiden... O pessoal da Ópus e da Purgatory tinha coisas mais difíceis, que eles traziam de São Paulo", explica.

O heavy metal nacional não tinha a mesma sorte. Os LPs e cassetes não tinham uma boa distribuição e eram comprados por meio de catálogos que apareciam nos zines de metal. "Comprávamos coisas da Cogumelo Records (MG) e da Baratos & Afins (SP). Tinha um cara em São Paulo que conseguia umas coisas importadas, que vinham do Chile", relembra.

Amaudson conta ainda do ritual que envolvia essas compras a distância. Uma turma era formada para fazer o pedido, barateando as despesas de envio. "Quando o pacote chegava na casa de um, ninguém abria até juntar todo mundo. Aí passávamos o dia ouvindo, trocávamos gravações em cassete e bebíamos muita cachaça com limão", recorda. Foi nesses dias que de fã ele passou a músico, fundando com amigos a Obskure, já conta 21 anos de atividade.

Ver para crer

As experiências dos primeiros metaleiros de Fortaleza são o tema do documentário "Cabeça Metal - O Retrato dos Headbangers de Fortaleza", primeiro filme do realizador Gandhi Guimarães. A produção foi feita no segundo semestre de 2009, a partir do curso Rock.Doc, do Ponto de Cultura da ACR, em parceria com a Cartaz Filmes. O filme, com meia hora de duração, é inédito em festivais, mas já teve exibições em bares e casas de show que dão espaço ao gênero em Fortaleza. "Na verdade, ainda estou dando o acabamento final a ele", confessa o diretor.

Gandhi Guimarães fez uma pesquisa extensa, procurando as primeiras pessoas a se identificar com o metal. "No filme, falo mais dos hábitos de quem curtia do que das bandas, das músicas. Os headbangers começaram a aparecer no início dos anos 80, mas a coisa se intensificou mesmo depois do Rock in Rio ´85, que trouxe Ozzy Osbourne, AC/DC e Iron Maiden. O Maiden virou uma febre no Brasil", ressalta. Guimarães já tem no gatilho outro projeto, que deve ser focado no momento seguinte, nos anos 90, quando o mostro não parecia tão feio.


DELLANO RIOS
REPÓRTER