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O cineasta Ronaldo Nunes lança hoje, no Espaço Unibanco Dragão do Mar, o documentário ´Rampa dos Sonhos” sobre o cotidiano no ´desativado´ aterro sanitário do Jangurussu

Ele não teve qualquer direito. Nem a uma guia cadavérica. Foi levado no seu carrinho até o cemitério do Bom Jardim. Sem qualquer lágrima. Só com as pessoas reclamando pelo trânsito no caminho. Eles não são vistos como seres humanos, apenas como os que atrapalham o trânsito. Até quando morrem´. O depoimento do artista plástico Descartes Gadelha, ao lado do compositor Pingo de Fortaleza autor da trilha sonora do documentário “Rampa dos Sonhos”, demonstra o desprezo com que tratamos, no dia-a-dia, os catadores de lixo. O cotidiano e a memória do aterro sanitário do Jangurussu, oficialmente desativado desde 1996, atravessam a frente da tela do cinema, na lente do cineasta Ronaldo Nunes, no documentário que terá sua pré-estréia hoje, no Espaço Unibanco Dragão do Mar 2.

Além do drama do catador de lixo José Carlos Ferreira de Sousa, estampado na imprensa no dia 8 de março deste ano e nas cenas finais do filme, “Rampa dos Sonhos” trata, segundo o próprio Ronaldo, das questões políticas e sociais que envolvem o Lixão do Jangurussu. “A comunidade ficou esquecida pelas autoridades e pela sociedade que, devido ao seu grande consumo e pela falta de reciclagem apropriada, ainda assim continua produzindo um número excessivo de lixo. Atualmente, com a rampa desativada e a usina de reciclagem funcionando precariamente, a comunidade do Jangurussu se encontra sem trabalho e renda”.

Descartes Gadelha estará presente ainda como narrador do documentário e através de cerca de 15 trabalhos produzidos por ele sobre a realidade do Jangurussu, nos anos 80. “Fui recolhendo estes quadros que estavam espalhados, alguns passaram por uma reforma até”. O filme foi rodado nos últimos quatro anos, em formato digital (HD), sem qualquer incentivo financeiro. “Só o que o Unibanco está dando agora para a exibição. Nossa meta é transformá-lo em 35 milímetros”, diz Ronaldo.

“O filme é sobre a desativação da rampa e o sofrimento destas mais de 300 famílias que, desde 1996, resistem às promessas não cumpridas. Em 93, rodei um filme para a Inglaterra sobre o Jangurussu. Desenvolvi um roteiro de ficção, mas achei que eu devia pesquisar mais e acabei me deparando com esta realidade chocante de famílias morando no chorume, no gás metano”.

HENRIQUE NUNES
Repórter

Catar memórias na civilização do lixo

O aterro foi construído no fim dos anos 70, de uma forma pequena e foi crescendo. No começo da década de 80, tive o primeiro contato com ele. Numa pesquisa de paisagem, vi aquela civilização do lixo, o que me surpreendeu muito. Mudei toda a trajetória de fazer uma paisagem bucólica e passei a tentar interpretar as pessoas que literalmente vivem do lixo. Foi impressionante. Lá o lixo é como que “rebolado no mato”, como se diz, de uma certa forma até hoje. Os catadores são uma “corporação”, não como os recicladores, industriais, mas como uma civilização, que hoje é mais fraca.

Não queria desenhar a plasticidade do lixo, mas o sentimento daquelas pessoas, aqueles seres humanos que ficam à espera da “derrama” de um caminhão de um bairro qualquer. Naquela derrama, estão todos os sonhos, todas as expectativas de vida. Os catadores são seres especiais. Tão especiais que eles não saíram do aterro, não obstante o aterro ser maquiado pelo poder. O poder deu aquela penteada, botando milhares de toneladas de areia sobre o aterro, mas a parte humana continuou no abandono. Elas construíram uma cultura em torno daquele aterro. Hoje, alguns remanescentes estão lá com a mão espichada, querendo alguma coisa de alguém que ofereça. As carradas pesadas estão indo para outro local. Mas o lixo de carroça, o entulho, continua chegando lá.

Mas o que interessa são estas sobras humanas que restaram daquela grande atividade do aterro sanitário. Pessoas abandonadas, quase espiritualizadas através do sofrimento. É extraordinário conversar com elas. Pessoas idosas, comprimidas naquela montanha, pessoas angustiadas. Antes era muito longe. Agora, os mais jovens migraram para o centro da cidade, onde fundaram a “corporação” dos “Heróis do Papelão”, os catadores de carroça de geladeira, um artefato que já é uma preciosidade, que não tem reposição. Eles sobrevivem daquilo que encontram, um lixo menos podre, putrefato. Eles participam de uma maratona cotidiana, superior a qualquer maratona olímpica.

Quando voltei, senti um impacto muito grande. Lembrei o “Inferno” de Dante. Era um inferno silencioso. Um latido muito longe, aquela brisa quente, sem nenhum trator, nenhum barulho. Conheci o Ronaldo Nunes, um dos mais importantes fotógrafos do Brasil, e fizemos uma complementação daquilo que eu já havia vivenciado. Foi difícil, senti a falta de piso, de chão. Como falar de uma coisa que era tão ativa?... Toda aquela aquela ação de sobrevivência foi sepultada. O documentário é mais político do que resgatador, é muito cru, veemente, jornalístico. Ele conversa com os remanescentes. Ronaldo foi um catador de memórias. Eu fui uma espécie de auxiliar do Ronaldo. E compus, com Inês Mapuranga, algumas músicas como a “Coro do Casqueiro”, com arranjo a quatro vozes do Tarcísio Lima. O casqueiro é o bisturi, é o garfo, é tudo para os catadores.

Fiz um trabalho sobre um catador que recentemente morreu sem atendimento médico, sem guia cadavérica. Foi o último quadro que pintei sobre o Jangurussu. O calvário de um jovem catador. O filme encerra com esse cortejo fúnebre, talvez tão importante como o de Jesus. A situação é a mesma.

DESCARTES GADELHA
Especial para o Caderno 3*

*Artista plástico e músico