Maria Bethânia: novas canções, velha cabeleira

Intimista e com músicas arranjadas por diferentes parceiros, a cantora lança o 50º disco da carreira

Antes mesmo do lançamento oficial, o novo disco de Maria Bethânia já ocupava a quinta colocação em vendas na iTunes Store do Brasil. "Oásis de Bethânia", da gravadora Biscoito Fino, é o 50º da carreira da cantora, contabilizando álbuns e compactos. Ele traz 10 faixas inéditas em sua voz. O lançamento oficial foi realizado na quarta-feira (28), na sede da gravadora, em coletiva para a imprensa.

Bem humorada, Bethânia conversou por cerca de uma hora com jornalistas de todo o País, revelando um pouco dos bastidores do álbum que inaugura um novo formato de produção - com diferentes parceiros, convidados a arranjar as canções - e traz, pela primeira vez, um texto de Bethânia, "Carta de Amor", musicado por Paulo César Pinheiro.

Outra novidade é que, a exemplo de outros lançamentos da Biscoito Fino, como o disco "Chico" (2011), de Chico Buarque, a obra tem sua vendagem e divulgação focada na internet, contando com o lançamento de uma "Rádio Maria Bethânia", com as músicas do catálogo da cantora pela gravadora, disponíveis na íntegra e um aplicativo com fotos e informações.

O repertório do novo disco prioriza uma instrumentação enxuta, em algumas faixas com apenas um instrumento fazendo par com a voz de Maria Bethânia, caso de "Lágrima", de Cândido das Neves, que abre o disco com o bandolim preciso e sutil de Hamilton de Holanda. "Eu não queria voltar ao estúdio com a mesma formação: um maestro, um diretor musical, os arranjos escritos. Eu queria, antes de tudo que fosse um disco muito nu, que fosse voz e instrumento", destaca, arriscando ainda que se soubesse tocar algum instrumento o teria feito. "Só para você entender bem o meu desejo de fazer de outra maneira", completa.

Intimismo

Bethânia compara diferença deste disco em relação às suas produções recentes com a do disco "Ciclo" (1983), que teria a "mesma estranheza sonora". Maestro costumeiro de Maria Bethânia, Jaime Alem assina apenas a faixa "Fado", composição de Roque Ferreira em que se destaca o uso da viola caipira.

Uma outra peculiaridade é a opção por trabalhar com instrumentistas de uma nova geração, como Hamilton, André Mehmari, Vítor Gonçalves, que assinam faixas do disco, e com o violonista Yamandu Costa, que por um desencontro na agenda não pode participar das gravações

"O Velho Francisco", de Chico Buarque, tem arranjos de Lenine que toca também o violão. "A gravação do Chico é exuberante, linda, mas eu queria uma gravação com mais pegada, falar aquelas palavras com mais peso, que doessem mais" diz a cantora, reverenciando a potência e rítmica do violão na música.

O nome do pernambucano foi uma das indicações do cearense Jorge Helder, que faz o baixo na faixa com Lenine e participa ainda "Vive", de Djavan, "Carta de Amor", de Bethânia e Paulo César Pinheiro, e divide a criação de arranjos com Bethânia nas músicas "Casablanca" e "Barulho", ambas de Roque Ferreira. Jorge é apontado por ela como um personagem chave na concepção da obra. "Ele é um professor, é um estudioso. E ele toca baixo. Ele não é um solista. Eu queria um músico com essa qualidade, com o conhecimento do Jorge e que não fosse um músico da frente", diz.

Além das versões em CD e digital, o disco ganhará em breve uma edição em vinil. Um primeira tiragem, que deveria ser lançada simultaneamente no dia 28 foi inutilizada, por um erro de grafia em uma das faixas do encarte e terá que ser refeita.

Show

Ainda sem data nem formato fechado, o show do "Oásis de Bethânia" ficará para o segundo semestre. Behtânia argumenta que antes é necessário pensar um formato que dê conta do formato mais intimista. A cantora adiantou apenas que deve incluir no repertório do show uma canção inédita de Caetano Veloso, composta em 1967 sobre um poema de Sá de Miranda e que acabou ficando de fora do disco. "É uma das coisas que mais gosto de cantar no privado, na minha vida. E isso tem tudo a ver com o disco", revela.

LIVRO

Oásis de Bethânia

Maria Bethânia
Biscoito fino
2012, 10 faixas
R$ 29,90

Após polêmica, projeto de blog foi suspenso

Durante a entrevista, Maria Bethânia falou sobre o polêmico projeto do blog aprovado ano passado na Lei Rouanet, do Ministério da Cultura (MinC). Foi autorizado pelo MinC a captação de R$1,3 milhões via incentivos fiscais.

Após o rebuliço que causou, rendendo questionamentos inclusive à eficácia e prioridades da Lei e mesmo à gestão da então recém-empossada ministra Ana de Holanda, segundo Bethânia, o projeto foi deixado de lado. "Não abortei o blog porque nem engravidei dele", diz, em tom de brincadeira.

A cantora explicou que tratava-se de um projeto de Hermano Vianna e Andrucha Waddington que previa atualização diária de um vídeo da cantora interpretando poemas de autores diversos, a partir de um projeto de leitura dramática que ela mantinha. "Eles foram me convidar para ser a intérprete deste projeto. Eu fiquei honradíssima. Mas aí teve aquele desagravo tão pesado, tão soturno e o Hermano cancelou o projeto, com toda razão", relevou a cantora.

Bethânia não entrou no mérito da quantia prevista para o projeto, mas destacou a importância da iniciativa por servir como veículo para a divulgação da poesia. "Espero que um dia eles possam fazer porque é útil, bonito. A internet tem essa agilidade que é imprescindível. A poesia tem que chegar a qualquer lugar com esta rapidez", defende.

Questionada se a música "Calúnia", regravação de Dalva de Oliveira que faz parte do repertório de "Oásis de Bethânia", seria uma resposta às acusações que lhe foram feitas na época, ela garantiu que não há qualquer relação. "É um bom prólogo para todos os contextos, mas não fiz isso pensado na história do blog. Se o tivesse feito, teria sido um ato pequeno", descarta cantora. Na letra, os versos "Quiseste ofuscar minha fama/E até jogar-me na lama/Só porque eu vivo a brilhar/Sim, mostraste ser invejoso/Viraste até mentiroso/ Só para caluniar".

Bethânia diz, no entanto, ter feito uma breve referência ao período com o trecho incidental de "Lágrima", em resposta à uma carta que recebeu no período da escritora Nélida Piñon. "É uma brincadeira que fiz com ela, respondendo a uma carta muito bonita, muito amiga, muito delicada que ela escreveu onde ela dizia assim: ´de uma coisa é você está proibida: não derrame uma lágrima. O Brasil não merece", revela a intérprete.

FÁBIO MARQUES*
ENVIADO AO RIO DE JANEIRO

O repórter viajou a convite da gravadora Biscoito Fino