Livros para fazer um país

A convite do Caderno 3, a jornalista e escritora Socorro Acioli, que está na Alemanha como bolsista da Biblioteca Internacional da Juventude de Munique, compartilha suas impressões sobre um projeto de literatura infantil no país de Goethe

Era uma vez um país destruído. Cidades transformadas em pó, sem água, energia elétrica ou comida. Viúvas e órfãos de guerra chorando seus mortos, sem a menor perspectiva de futuro. Por mais que se tente, nenhuma descrição é capaz de simular um retrato fiel da Alemanha pós-guerra. Mas, apesar de tanta crueldade, esse é o cenário de uma história com final feliz, que tem como fada madrinha uma jornalista alemã chamada Jella Lepman.

Como todos os judeus alemães que tiveram oportunidade, Jella Lepman saiu da Alemanha no início da Segunda Guerra Mundial e encontrou refúgio em Londres. Em 1946, Jella voltou a Berlin, a convite das autoridades americanas, com a missão de ajudar a reconstruir o país. Tarefa dificílima, da qual ela quase desistiu. Antes de deixar Londres, Jella conversou com vários amigos que a aconselharam a não voltar, esquecer o convite e simplesmente seguir a sua próspera vida profissional em Londres.

Felizmente, Jella Lepman decidiu encarar o desafio, movida pela forte intuição de que poderia, sim, contribuir para a reconstrução da Alemanha. De que maneira, ela ainda não sabia.

Nas primeiras viagens pela Alemanha destruída, quando procurava entender e encontrar soluções para os problemas, Jella Lepman percebeu que não poderia pensar em iniciar de outra forma que não fosse cuidando das crianças. Ela anotava em seus relatos pessoais que não havia nada mais comovente do que o olhar triste de meninos e meninas sem sonhos.

O que parecia mais triste naquele momento era saber que todas as bibliotecas haviam sido completamente destruídas, inclusive as bibliotecas infantis. As crianças não tinham mais livros. Isso significava que o elemento essencial para a vida de meninos e meninas de qualquer lugar do mundo, a fantasia, estava completamente ausente da vida daqueles pequenos órfãos de guerra.

Vale ressaltar que a Alemanha é um dos berços das narrativas dos contos de fadas, graças ao trabalho de pesquisa e reconto dos Irmãos Grimm. Chapeuzinho Vermelho, Branca de Neve, Pequeno Polegar, João e Maria, Rapunzel e outras tantas histórias que preenchem o imaginário das crianças ao redor do mundo, foram conhecidos na sua atual forma, como literatura infantil, por causa da pesquisa que Jacob e Wilhelm Grimm realizaram por 15 anos nos arredores de Kassel, uma cidade no centro da Alemanha.

Jella compreendeu o que gostaria de fazer. A idéia inicial era organizar uma exposição de livros, uma espécie de biblioteca móvel que pudesse viajar por várias cidades, dando às crianças alguns dias de contato com o mundo da fantasia novamente.

SOCORRO ACIOLI
especial para o Caderno 3