Literatura infantil e os contos de fadas: vasos comunicantes

A literatura, uma das expressões da arte, liga-se ao homem e ao momento de sua produção

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Era uma vez, em um tempo muito distante, algo que chamaríamos de Literatura Infantil. Ao se falar em influência dos contos de fada na vida das crianças, temos que, anteriormente, abordar as origens disso tudo: a literatura Infantil, compreendendo como os contos de fada foram inseridos em nossa sociedade.

Como já dizia Azevedo (1999, p. 1), na Época Medieval, as crianças não viviam sua infância como acontece nos tempos atuais. Desde os sete anos, já passavam por treinamentos para iniciar sua vida profissional. O autor afirma que a criança não era vista como um ser diferente e frágil, mas sim como um adulto em miniatura. Logo, não existiam histórias específicas para crianças, até porque aquela época era marcada por crenças no fantástico e poderes sobrenaturais, então, pais e filhos sentavam-se lado a lado em praças públicas para que pudessem ouvir os contadores de histórias. Não havia uma separação nítida entre algo para criança e algo para adulto, nem entre real e fantástico.

Do gênero

Os contos, anteriormente, não eram de "fadas". A priori, essas histórias eram lidas em reuniões sociais entre adultos. Contudo, como não havia essa separação entre adulto e criança, os pequenos acabavam por ouvir um pouco do que era lido ali. As histórias tinham cenas de adultério, vingança, estupro, violência e até desfechos trágicos. Para Kupstas (1993 apud DA COSTA, s/d, p. 2), os contos de fadas, possivelmente, são de origem celta, surgiram como poemas, que revelavam amores estranhos, fatais e eternos, além de serem expressões narrativas de conflitos entre o homem e a natureza. Por volta do Século II a.C e I d.C, foram acrescentadas a presença de fadas, mulheres iluminadas que podiam ver o futuro de pessoas especiais que elas protegiam.

O autor ainda destaca (1999, p. 1) que, não havendo livros nem histórias dirigidas especificamente a elas, não existiria nada que pudesse ser chamado de literatura infantil. Por este viés, as origens da Literatura Infantil estariam nos livros publicados a partir do século XVII, preparados especialmente para crianças com intuito pedagógico, utilizados como instrumento de apoio ao ensino. Como consequência natural deste processo, o didatismo e o conservadorismo (a escola, afinal, costuma ser instrumento de transmissão dos valores vigentes) deveriam ser considerados componentes estruturais, por assim dizer, da chamada literatura para crianças.

Definições

Coelho (2003 apud DA COSTA, s/d, p. 2) explica que os contos de fadas são narrativas que giram em torno de uma problemática espiritual, ética e existencial, ligadas à realização interior do indivíduo, basicamente por intermédio do amor. Giram em torno de deuses, duendes, heróis ou situações em que o que sobressai é o sobrenatural. Os contos abrem espaço para que as crianças possam imaginar e despertar curiosidades que são respondidas no decorrer dos contos. As histórias apresentam, a partir de Coelho (1987) e Pavoni (1989), apesar da diversidade, a mesma estrutura: ruptura, confronto e superação de obstáculos e perigos, restauração e desfecho. A ruptura se dá quando o herói vai ao desconhecido, apresentando momentos de insegurança em sua vida; o confronto e a superação de obstáculos acontecem quando o herói busca soluções fantasias para os seus problemas; a restauração ocorre no momento em que se inicia o processo da descoberta do novo, das suas potencialidades; e o desfecho trata-se do retorno à realidade, com a união dos opostos.

Como já havia sido estudado por da Costa, os contos de fada já existem há milhares de anos e é fundamental para a formação e a aprendizagem das crianças. Escutar histórias contribui de maneira significativa para o início da aprendizagem e para que o indivíduo seja um bom ouvinte e um bom leitor, mostra-se um caminho infinito de descobertas e de compreensão do mundo. Assim, Coelho (2003) afirma que os contos abrem espaço para que as crianças deixem fluir o imaginário e despertem sua curiosidade, que logo é saciada ao longo das histórias presentes nos contos.

O autor pioneiro nesse gênero literário foi o francês Charles Perrault, considerado o pai da Literatura Infantil, que registrava as histórias ouvidas de sua mãe e dos salões parisienses. Publicou em 11 de janeiro de 1697, quando contava quase 70 anos, um livro intitulado "Histórias ou contos do tempo passado com moralidades", mas também era chamado de "Contos da Velha" e "Contos da Cegonha", ficando mais conhecido ao final como "Contos da mamãe gansa".

A publicação rompeu os limites literários daquela época e alcançou públicos até inimagináveis, além de ter sido o marco do início literário do novo gênero: o conto de fadas. Foi o primeiro a dar acabamento literário a esses tipos de história, que antes eram contadas apenas entre as damas dos salões de Paris.

Dentre suas histórias, as mais conhecidas são: "Le Petit Chaperon rouge" (Chapeuzinho Vermelho), "La Belle au bois dormant" (A Bela Adormecida), "Le Maître chat" ou "le Chat botté" (O Gato de Botas), "Cendrillon ou la petite pantoufle de verre" (Cinderella), "La Barbe bleue" (Barba Azul) e "Le Petit Poucet" (O Pequeno Polegar).

Entretanto, Coelho (1991, p.73) estuda e relata que surge na Alemanha o núcleo europeu mais importante dessa época.

Participantes do Círculo Intelectual de Heidelberg, Jacob e Wilhelm Grimm (filólogos e grandes folcloristas, estudiosos da mitologia germânica e da história do Direito alemão) recolhem da memória popular as antigas narrativas maravilhosas, lendas ou sagas germânicas, onde se mesclavam relatos das mais diversas fontes, que os germanos, ao longo dos séculos, foram acrescentando aos seus próprios, quer ou não pela tradição oral.

Do Curso de Comunicação Social da Unifor

Marina Duarte Ferreira
Especial para o ler