Linhares Filho: a poesia essencial

Palmilhando o perene humano no drama da existência, Linhares Filho possui, assim, uma lírica singular

Ler

Linhares Filho tem-se destacado no Universo das Letras desde 1968, quando trouxe a público seu primeiro livro de poemas, Sumos do Tempo, em cujo prefácio Braga Montenegro afirma ser ele: "um homem de seu tempo perfeitamente identificado com os outros homens no campo da cultura, em sentido amplo". A partir de então suas obras, em versos ou em prosa, vêm engrandecendo a Literatura Cearense e garantindo a permanência de seu nome no nosso cânone literário.

A gênese

Quando iniciei o mestrado em letras, já há muito conhecia Linhares Filho, mas naquela ocasião tive a honra de estreitar uma amizade pautada pelo respeito e pela admiração. Aqueles que o conhecem sabem que é a seriedade e a dedicação que orientam o ofício do professor, do ensaísta e do poeta e, se observarem com mais acuidade, perceberão que seu trajeto existencial e seu projeto literário caminham pari passu, revelando seu espírito humanista ou, segundo ele próprio, humanismo como existencialismo-ontológico. Esse é um aspecto tão relevante na obra de Linhares Filho que não pode deixar de ser mencionado. A condição humana, envolta em veredas e labirintos, é, pois, o elemento-chave de seu discurso

O poeta Artur Eduardo Benevides, de intensa força lírica e vocação natural para o estranhamento, em A Poesia de Linhares Filho (texto publicado em Notícias Culturais - 1993) observou : (Texto I)

Duas epígrafes antecipam a primeira divisão de Sumos do Tempo e indiciam a intrínseca relação entre existência e poesia, a primeira de Ortega y Gasset ("Yo soy yo y mi circuncunstancia, y si no la salvo a ella no me salvo yo") e a segunda de Jorge de Lima ("Só tenho poesia para vos dar./ Abancai-vos, meus irmãos").

A lírica de Linhares Filho revela uma intrínseca relação entre eu-biográfico e eu-lírico, haja vista muitos de seus poemas rememorarem vivências pessoais. A essência do poeta parece inundar toda sua poesia. Quanto a esse elemento configurador de sua construção estética, vejam-se os versos do primeiro poema de seu livro de estreia, sob o título "Entre Nuvens", de que se evola a seguinte confissão do eu lírico: (Texto II)

Leitura do poema

Essa voz que nos fala de sua opção pela poesia, como forma de expressar sua experiência do mundo e da linguagem, está em busca de uma comunhão com aquele que lê ou escuta a sua expressão poética. Embora saibamos que o fato literário possui um universo fictício e que não devemos, portanto, confundir o eu-lírico com o eu-autobiográfico, quando lemos esse poema, pensamos imediatamente no autor, pois o existencial e o poético se complementam de tal forma, que se torna difícil separar vida e poesia. Como afirma Jorge Koshiyama, em sua leitura do poema "Poética", de Manuel Bandeira (Leitura de Poesia, 1996): "Ler um poema é colocar-se à escuta de outro ser humano, não apenas de uma voz".

Vasos comunicantes

Em inúmeros poemas de Linhares Filho, eu lírico, vida e mundo se interligam num emaranhado cujos limites se esfumam. A causa disso não é somente o uso da primeira pessoa do discurso, é toda a expressão poética: vida e palavras pulsando em uníssono. (Nesse sentido, o leitor, ao percorrer a reunião de sua obra poética, sob o título: "Itinerário: 30 anos de poesia", deparará, de modo natural, amiúde, tal preocupação de natureza ontológica. )

Fique por dentro

Notas acerca do autor e de sua escritura

Linhares Filho nasceu em Lavras de Mangabeira (CE) em 1939. Poeta e ensaísta crítico, é professor Titular da Universidade Federal do Ceará. Mestre em Literatura Portuguesa pela UFRJ e Doutor em Letras Vernáculas por essa mesma Universidade, é professor do Curso de Letras da UFC. É Membro efetivo da Academia Cearense de Letras e da Academia de Letras de Artes do Nordeste. Venceu, por duas vezes, o Prêmio Estado do Ceará, nas categorias Ensaio (1986) e Poesia (1987). Integrou, ao lado de Horácio Dídimo, Pedro Lyra, dentre outros, o Grupo SIN - movimento artístico que reuniu em torno de si a Geração dos Anos 60. Linhares Filho vê a liberdade diante da poesia como uma atitude inerente a qualquer poeta comprometido com um tempo de múltiplas perspectivas. Concebe-a como o que lhe permite explorar, ao máximo, os mais diversos caminhos da criação. Por isso, métrica, rima, estrofes, formas fixas ou versos livres, brancos ou não, apresentam, em sua poética, relação íntima com a natureza do texto em composição.

Trechos

TEXTO I

... Creio que a gravidade de suas ideias críticas e a densidade lírico-interpretativa de seus versos (...) nascem de uma atitude filosófica autêntica, brotada de seu lastro cultural e de uma alma prestimosa e fraterna, que amplia o seu espectro na criação ou recriação das cousas, ou na análise de questões, problemas e desafios no campo do conhecimento

TEXTO II

Escolhi a melhor parte, / o utilitarismo não me convence. / Persuado-me de que sou / o que talvez pareça ser: / nem pássaro do céu nem lírio do campo,/ - um pássaro da terra mesmo./ O comer e o vestir virão depois do Canto, / Canto intenso, que se cala / e em breve torna como febre intermitente. / Insurjo-me conta o império das coisas / - e escravizo-me à beleza das coisas. / Digo que as árvores da serra / caminho sobre fundo com nuvens. / Por trás daqueles edifícios, se passam nuvens,/ só me inclino a achar que eles vão caindo... / Creio em não ser absurdo as árvores caminharem / e, com a simples conjetura dos edifícios caírem,/ eu me condoo. (p. 39)

Lourdinha Leite Barbosa*
Especial para o Ler

*Da Academia Cearense de Letras